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Quando a Amazônia vai a leilão

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 4 horas)
Quando a Amazônia vai a leilão

Foto: Olimpio Guarany/Acervo pessoal

Por Olímpio Guarany

O caso da Ponta do Cururu, em Alter do Chão, reacende uma antiga discussão sobre pertencimento, memória e o valor das paisagens amazônicas.

O sol começa a descer sobre o Tapajós.

As águas transparentes refletem tons de ouro e cobre. As areias brancas da Ponta do Cururu recebem visitantes de todas as partes do Brasil e do mundo. Ao amanhecer, gaivotas cruzam o horizonte. Ao entardecer, o rio oferece um dos espetáculos mais belos da Amazônia.

Ali, diante daquela paisagem que parece eterna, ninguém imagina que um dia alguém pudesse colocar um preço em tudo aquilo.

Mas foi exatamente isso que aconteceu.

A notícia do leilão da Ponta do Cururu provocou reações imediatas e levou o Ministério Público Federal a atuar para suspender o procedimento. Os aspectos jurídicos seguirão seu curso e caberá às instituições esclarecer a legalidade da operação.

Mas existe uma questão maior.

Quem pode vender uma paisagem?

Não me refiro apenas à terra.

Refiro-me à memória, à identidade e ao sentimento de pertencimento que um lugar desperta em um povo.

Por do Sol em Alter do Chão, Ponta do Cururu, Amazônia
Foto: Olimpio Guarany/ Acervo cedido ao Portal Amazônia

A discussão surge justamente quando Santarém celebra seus 365 anos de história. Uma cidade moldada pelo encontro entre rios, florestas, culturas e povos que aprenderam a viver em íntima relação com as águas da Amazônia.

Muito antes da chegada dos colonizadores e dos missionários europeus, os Boraris já habitavam aquela região. O Tapajós já seguia seu curso majestoso em direção ao Amazonas. As praias apareciam durante a vazante. O pôr do sol já iluminava as águas cristalinas que hoje encantam visitantes do mundo inteiro.

A história daquele lugar não começou com uma escritura.

Por isso, quando a Ponta do Cururu é transformada em ativo financeiro, o desconforto vai muito além de uma disputa imobiliária.

Ao longo dos séculos, diferentes interesses disputaram a Amazônia. Mudaram os personagens, os discursos e os instrumentos de controle. Mas a pergunta continua a mesma:

Quem decide o destino da Amazônia?

Essa reflexão se torna ainda mais necessária num momento em que quase tudo parece receber uma etiqueta de preço. A floresta vale pela madeira. O subsolo vale pelo minério. Os rios valem pela energia. O carbono ganha valor nos mercados internacionais.

Agora, até as paisagens parecem entrar nessa lógica.

Mas nem tudo pode ser medido em hectares ou milhões de reais.

Depois de navegar por milhares de quilômetros nos rios amazônicos, aprendi que existem lugares cuja importância ultrapassa qualquer avaliação financeira.

A Ponta do Cururu é um deles.

Gaivotas na Ponta do Cururu, no Pará. Foto: Olimpio Guarany/Acervo pessoal

Ela faz parte do imaginário amazônico, da memória dos povos que viveram e vivem às margens do Tapajós e da história de Santarém e da própria região amazônica.

Por isso, defender lugares como esse não é um gesto contra o desenvolvimento nem uma recusa ao progresso.

É afirmar que existem patrimônios que precisam ser compreendidos para além da lógica do mercado, porque carregam história, cultura, ancestralidade e significado.

Ao longo dos séculos, muitos tentaram controlar a Amazônia. Mudaram os interesses, os métodos e os argumentos. Mas a floresta, os rios e os povos amazônicos continuam lembrando que existe uma dimensão do território que não cabe em escrituras, contratos ou avaliações financeiras.

O Tapajós continuará correndo depois dos processos judiciais, dos contratos e dos leilões.

Continuará refletindo o céu azul da Amazônia e testemunhando a passagem das gerações.

A questão é saber se nós seremos capazes de compreender o valor daquilo que recebemos como herança.

Porque algumas paisagens são grandes demais para pertencer apenas a um proprietário.

Elas pertencem à memória coletiva de um povo.

E quando uma paisagem da Amazônia vai a leilão, o que está em disputa não é apenas uma área de terra.

É a forma como enxergamos a própria Amazônia.

Leia também: Bioeconomia: a floresta precisa gerar riqueza — mas para quem?

Sobre o autor

Olimpio Guarany é jornalista, documentarista e professor universitário. Realizou expedição histórica, navegando o rio Amazonas, desde a foz até o rio Napo (Peru), por onde atingiu o sopé da cordilheira dos Andes (Equador) no período 2020-2022 refazendo a saga de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia (1637-1639). A expedição deu origem ao livro ‘A Nova Conquista da Amazônia’. É apresentador do programa Amazônia em Pauta no canal Amazon Sat.

*O conteúdo é responsabilidade do colunista

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