O recém-lançado programa federal Move Brasil, que entrou em vigor com o objetivo de reestruturar a mobilidade urbana e renovar a frota de duas rodas no país, terá pela frente um cenário desafiador. Um levantamento inédito ajuda a dimensionar o tamanho desse ecossistema: quatro em cada dez entregas realizadas no Brasil ainda dependem de motocicletas com mais de uma década de uso.
O retrato, extraído de uma base de 1,8 milhão de corridas realizadas em abril deste ano, expõe a dependência de uma frota envelhecida que hoje sustenta a base da economia de aplicativos e que se tornou o alvo direto da nova política pública de incentivo ao crédito.
O raio-x da frota
Os dados divulgados pelo levantamento da plataforma Machine revelam que 40,13% das viagens de entrega foram feitas com motocicletas fabricadas até o ano de 2015. O número joga luz sobre a longevidade desses veículos nas ruas brasileiras e desenha uma equação financeira complexa para o trabalhador.
A dinâmica atual do setor de entregas revela dois movimentos paralelos:
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A base antiga: os modelos com mais de 10 anos de uso lideram o volume de entregas de forma isolada (40,13%), elevando o custo de manutenção e reduzindo a eficiência dos entregadores de margens apertadas.
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A renovação parcial: quase 38% das entregas analisadas já foram realizadas por modelos mais recentes, fabricados entre 2022 e 2026. No entanto, esse grupo mais moderno ainda não supera a força dos ativos antigos.
Apesar do envelhecimento geral, o estudo indica que o desenho técnico do Move Brasil é realista. Do total de entregas mapeadas, 91,11% foram feitas por veículos que se enquadram nos limites do programa. Na prática, isso significa que as regras da linha de financiamento cobrem quase a totalidade da frota ativa.
Barreiras de crédito e viabilidade financeira
O foco do Move Brasil é ampliar o acesso ao financiamento de veículos zero km produzidos no país, englobando motocicletas de até 160 cilindradas e bicicletas elétricas de até 1.000 watts.
Para especialistas, o gargalo para a substituição dessas motos vai muito além do desejo do trabalhador em ter um modelo novo.
“Mais do que incentivar a compra de veículos novos, o programa tenta corrigir um descompasso estrutural. A presença massiva de modelos antigos não é apenas uma escolha dos entregadores, mas reflexo de barreiras históricas de acesso a crédito, informalidade e volatilidade de renda. Diante disso, a renovação da frota depende menos de intenção e mais de viabilidade financeira”, afirma Júlia Camossa, estatística responsável pelo levantamento da Machine.
O “apagão” elétrico e a preferência por populares
O estudo também revelou que a transição energética ainda é uma realidade distante para quem trabalha nas ruas. Os veículos elétricos representaram apenas 0,2% das entregas analisadas, ficando restritos quase que totalmente às bicicletas elétricas de carga. A ausência de motocicletas elétricas em escala comercial reforça que o setor continua fortemente ancorado nos combustíveis convencionais.
No topo da preferência dos entregadores estão os modelos mais populares do mercado nacional, conhecidos pelo baixo custo de reposição de peças e alta durabilidade:
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Linha Honda: CG 160, CG 150 e CG 125 concentram a ampla maioria das operações;
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Modelos urbanos: Honda Biz e Yamaha Factor aparecem logo em seguida na preferência de uso.
*Sob supervisão de Gabriela Maraccini

