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Cuidados com a saúde bucal podem ser desafio em crianças com TEA

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Cuidados com a saúde bucal podem ser desafio em crianças com TEA

Cuidar da saúde bucal de crianças com transtorno do espectro autista (TEA) é, para muitas famílias, um exercício diário de paciência, adaptação e persistência. A escovação dos dentes, um hábito aparentemente simples, pode se transformar em um momento de tensão, muitas vezes marcado por resistência e choro. Embora dificuldades na higiene oral também possam ocorrer em crianças neurotípicas, no caso do autismo elas tendem a ser potencializadas por fatores sensoriais e comportamentais.

Entre os obstáculos mais frequentes estão a hipersensibilidade ao toque, ao sabor e à textura, além de dificuldades de comunicação e compreensão da rotina. “Muitas crianças não toleram a escova na boca ou não entendem a necessidade da higiene, o que torna o processo estressante para toda a família”, relata a cirurgiã-dentista Danielle Lima Correa de Carvalho, professora da graduação em Odontologia do Einstein Hospital Israelita. Isso pode levar ao desgaste emocional dos cuidadores e, em alguns casos, à negligência da escovação.

As disfunções sensoriais estão no centro desse desafio. Para algumas crianças, o simples contato das cerdas da escova ou com a espuma do creme dental pode ser percebido como invasivo e até doloroso. “Esses estímulos funcionam como gatilhos para crises e comportamentos de esquiva”, explica o cirurgião-dentista Márcio Ajudarte Lopes, professor titular de estomatologia da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo.

Por isso, a higiene bucal costuma exigir abordagens individualizadas e, muitas vezes, um processo de dessensibilização gradual. Na prática, significa introduzir o contato progressivamente, em etapas pequenas, previsíveis e repetidas, respeitando o tempo da criança em vez de impor a escovação completa de uma só vez. O objetivo é reduzir, gradualmente, a sensibilidade e a resistência, até que o cuidado com a boca se torne mais tolerável e, idealmente, parte da rotina.

Esse processo vai além da saúde oral e pode impactar diretamente o desenvolvimento infantil. “A saúde bucal influencia a nutrição, o sono, a comunicação e o bem-estar emocional. Dor ou desconforto não tratados podem agravar a irritabilidade, prejudicar a alimentação e comprometer habilidades de fala e linguagem”, afirma o neurologista infantil Paulo Emidio Lobão Cunha, membro do departamento científico de Neurologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Segundo ele, tratar problemas bucais nessa população também está associado a redução de comportamentos disruptivos e melhora da qualidade de vida.

Nesse contexto, insistir num atendimento odontológico abruptamente pode ter efeito contrário. O ideal é começar lentamente, sempre respeitando os limites da criança. “O atendimento deve priorizar a ambientação e a dessensibilização do paciente, em um ambiente com estímulos sensoriais controlados e apoio de recursos visuais que antecipem o que será feito. O acolhimento da família e a construção de uma rotina preventiva são fundamentais antes de qualquer intervenção clínica invasiva”, orienta a cirurgiã-dentista Tamiris Christensen Bueno, doutora em estomatopatologia e pesquisadora na Unicamp.

Isso ajuda a criar previsibilidade, algo especialmente importante para pessoas com TEA. “Eles gostam de rotina e de saber exatamente o que vai acontecer”, avisa a cirurgiã-dentista Marina Gallottini, professora titular da disciplina de estomatologia e coordenadora do Centro de Atendimento a Pacientes Especiais (CAPE) da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP). A introdução do creme dental, por exemplo, pode ser feita de maneira progressiva ou até mesmo adiada, dependendo do perfil da criança. “Se houver recusa, o mais importante é manter a escovação mecânica, mesmo sem pasta, para remover o biofilme. A ideia é priorizar o hábito e reduzir o estresse, incorporando novos elementos aos poucos”, diz Gallottini.

Seletividade alimentar

Outro fator que contribui para o risco aumentado de problemas bucais é a seletividade alimentar, bastante comum em crianças autistas. Dietas restritas, frequentemente ricas em preparações pastosas e açucaradas, que aderem mais facilmente aos dentes, favorecem o desenvolvimento de cáries.

“A maior ocorrência de cáries e doenças gengivais nesse público está ligada a um conjunto de fatores: a dieta seletiva, a dificuldade na higiene bucal por conta da resistência sensorial e, ainda, o uso de medicamentos que reduzem a salivação. Soma-se a isso o acesso mais limitado a consultas preventivas, favorecendo a progressão mais rápida desses problemas”, reforça Márcio Lopes, da Unicamp.

A identificação precoce de problemas bucais também pode ser desafiadora, já que muitas dessas crianças têm limitações na comunicação verbal. Por isso, os sinais costumam ser indiretos: irritabilidade, recusa alimentar, alterações no sono ou o hábito de levar a mão à boca. “Os pais também devem observar manchas nos dentes, sangramento gengival e mau hálito persistente”, orienta Danielle Correa, do Einstein.

O elo entre dor e comportamento, aliás, costuma passar despercebido. “Crianças com TEA muitas vezes não conseguem expressar a dor de forma convencional, e o desconforto pode se manifestar como agitação, autoagressão, recusa alimentar ou piora súbita do comportamento”, explica a neurologista infantil Ana Carolina Coan, vice-coordenadora do departamento de neurologia infantil da Academia Brasileira de Neurologia. Segundo ela, diante de mudanças comportamentais sem causa aparente, a dor de origem bucal deve sempre ser considerada.

Apesar das dificuldades, um ponto é consenso entre os especialistas: quanto mais cedo começar o acompanhamento odontológico, melhor. O ideal é que a primeira consulta ocorra ainda no primeiro ano de vida, com foco na adaptação ao ambiente e na criação de vínculo, sem necessariamente existir um problema. Conhecido como condicionamento, esse processo permite que a criança se familiarize gradualmente com o consultório, os instrumentos e os profissionais. “O encaminhamento ao odontopediatra deve ser precoce, de preferência logo após o diagnóstico, para atuar preventivamente e evitar procedimentos mais complexos no futuro”, orienta Paulo Cunha, da SBP.

Nos casos em que o manejo comportamental não é suficiente, pode ser necessário recorrer à sedação, especialmente para procedimentos mais complexos como extração dentária ou restaurações. “Em situações de grande resistência, a anestesia geral em ambiente hospitalar garante mais segurança e permite realizar todos os tratamentos de uma vez”, explica a cirurgiã-dentista Letícia Bezinelli, coordenadora do Serviço de Odontologia Hospitalar do Einstein e da graduação de Odontologia. A decisão, no entanto, deve ser sempre individualizada.

Abordagem multidisciplinar

A boa notícia é que iniciativas voltadas ao atendimento especializado vêm ampliando o acesso e melhorando a experiência não apenas de crianças com TEA, mas com qualquer neurodivergência. Um exemplo é o programa desenvolvido no Hospital Infantil Darcy Vargas, unidade pública estadual em São Paulo gerida pelo Einstein, que aposta em uma abordagem multidisciplinar e humanizada.

O atendimento especializado inclui desde o acompanhamento ambulatorial até procedimentos em centro cirúrgico, sempre com planejamento individualizado e foco no cuidado integral. Segundo Bezinelli, o diferencial está na integração entre áreas da saúde, no ambiente adaptado e no preparo das equipes para lidar com pacientes com necessidades especiais.

Embora o acesso a serviços como esse ainda seja desigual no país, pouco a pouco, a medicina e a ciência avançam na compreensão de como assegurar mais saúde e qualidade de vida a crianças e pessoas de todas as idades e condições.

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