Localizada na Margem Equatorial brasileira, bacia da Foz do Amazonas está no centro de um dos debates mais relevantes da política energética do país. Foto: Enrico Marone/Greenpeace
A exploração de petróleo na Margem Equatorial, faixa do litoral que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte e abriga o Grande Sistema Recifal Amazônico, está no centro de um dos debates mais relevantes da política energética brasileira. O argumento mais recorrente é o de que explorar esse petróleo geraria riqueza hoje para financiar a transição energética amanhã.
O problema é que essa premissa nunca foi testada com dados. O estudo do WWF-Brasil faz justamente isso: coloca os números na mesa e pergunta se essa lógica se sustenta quando o cálculo considera não apenas o lucro das empresas, mas os custos e benefícios reais para toda a sociedade brasileira, incluindo saúde, clima e oportunidades perdidas.
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O que diz o estudo?
O estudo aplica a Análise Socioeconômica de Custo-Benefício (ACB), do guia metodológico oficial do governo federal recomendado pelo Tribunal de Contas da União para avaliação de grandes investimentos públicos. A diferença em relação a uma análise financeira convencional é fundamental: em complemento à análise de rentabilidade privada, a ACB mede o que a sociedade ganha ou perde com cada escolha, colocando na conta os impactos que o mercado não precifica, como os danos climáticos de secas e enchentes, os prejuízos à saúde pública e as consequências de longo prazo para o país.
Para garantir que os resultados se mantenham mesmo em diferentes cenários de preço e risco, foram realizadas 10.000 simulações, comparando real por real, energia por energia e litro por litro.

O foco do estudo é responder a uma pergunta concreta: faz sentido, para a sociedade brasileira, alocar recursos escassos na Foz do Amazonas quando existem alternativas renováveis disponíveis?
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Segundo o Especialista em Conservação do WWF-Brasil e doutor em Planejamento Energético, Ricardo Fujii, que é um dos coordenadores do estudo, a análise mostra que, em qualquer cenário comparado, a rota fóssil apresenta pior desempenho econômico e social para o país.
”Os motivos são estruturais: a rota fóssil prioriza extração e uso de recursos não renováveis, com altos impactos ambientais, mas a grande evidência do estudo é o custo financeiro dessa escolha. Afinal, quando inserimos na conta as consequências climáticas e sociais, os prejuízos podem ser bilionários. Já as rotas renováveis distribuem benefícios em cadeias descentralizadas, com emissões no ciclo de vida até 80% menores e maior potencial de desenvolvimento regional. Além disso, o país já é autossuficiente em petróleo, e as reservas do Pré-Sal atendem à demanda interna durante o processo de transição energética”.
Números
O estudo apresentou números sobre a comparação entre os investimentos em petróleo na bacia da Foz do Amazonas e energia renovável:
Mesmo volume de investimento (Real por Real):
- Investimento no petróleo: perdas médias de R$ 22,2 bilhões para a sociedade;
- Investimento em energia renovável: benefício líquido de R$ 24,8 bilhões;
- Diferença entre as escolhas: R$ 47 bilhões em custo de oportunidade perdido.
Mesma quantidade de energia entregue (BTU por BTU):
- O petróleo custa entre R$ 14,2 bilhões e R$ 33,7 bilhões a mais que as renováveis;
- A produção desse petróleo lançaria 446 milhões de toneladas de gases poluentes;
- Esses impactos representam entre R$ 21,1 bilhões e R$ 42,2 bilhões em danos climáticos que recaem sobre a sociedade.
Mesmo volume de combustíveis (Litro por Litro):
- Substituir petróleo por biocombustíveis (etanol, biodiesel, combustível sustentável de aviação e biometano);
- Evita perdas de até R$ 29,2 bilhões;
- Com vantagem adicional de geração de renda e empregos distribuídos pelo território nacional, usando cadeias produtivas e tecnologias já disponíveis.
O risco que ninguém está colocando na conta
Há ainda um risco que costuma ficar fora do debate público: o petróleo da Foz do Amazonas só chegaria ao mercado daqui a décadas, exatamente quando a demanda mundial já estaria em queda estrutural, segundo projeções da Agência Internacional de Energia.
Isso significa que o Brasil correria o risco de construir uma infraestrutura bilionária que se tornaria obsoleta antes de gerar retorno, forçando o Estado a arcar com o prejuízo. Escolher a Foz do Amazonas não é apenas uma decisão ambiental: é uma aposta de alto risco fiscal num ativo que pode nunca se pagar.

Por que o WWF-Brasil realizou este estudo?
O WWF-Brasil atua no país há quase três décadas na interface entre conservação, políticas públicas e desenvolvimento. A organização defende que grandes decisões de infraestrutura energética sejam tomadas com base no interesse público e não apenas na viabilidade financeira para o investidor privado.
Este estudo integra as contribuições do WWF-Brasil ao governo federal para a construção do Mapa do Caminho para uma Transição Energética Justa e Planejada, e tem como objetivo oferecer evidências concretas para orientar escolhas públicas com base no retorno real para a sociedade.
O estudo completo pode ser acessado aqui.
Foz do Amazonas

Situada no extremo noroeste da Margem Equatorial e na fronteira com a Guiana Francesa, a Bacia da Foz do Amazonas abrange o litoral do Amapá e parte do Pará, numa área de aproximadamente 283 mil quilômetros quadrados. É lá que está localizado o bloco de exploração FZA-M-59, visto como promissor para a soberania energética do Brasil. Desde outubro de 2025, a atividade exploratória na Foz do Amazonas vem sendo realizada pela Petrobras.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela WWF Brasil
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