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Lula minimiza tamanho do rombo nas contas públicas do Brasil

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Lula minimiza tamanho do rombo nas contas públicas do Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse na 5ª feira (27.ago.2026) que a DBGG (dívida bruta do governo geral) do Brasil é “pequena” se comparada com outros países, como os Estados Unidos. O percentual atingiu 81,9% do Produto Interno Bruto em junho, segundo dados do Tesouro Nacional divulgados em julho.

Lula, no entanto, não explicou que em nações desenvolvidas a infraestrutura já está completa e o juro é muito menor. Dados do FSB (Financial Stability Board) compilados pelo Poder360 mostram que o país gastou 8,8% do PIB com juros em 2024, o maior percentual do G20.

A declaração de Lula foi feita em sabatina na TV Globo.

A jornalista Renata Vasconcellos questionou o presidente sobre a dívida pública e a trajetória das contas do governo.

Ela disse: “Candidato, a dívida pública no seu governo ultrapassou os R$ 10 trilhões. No seu governo, a dívida disparou 10 pontos percentuais, atingiu 82% do PIB. E essa trajetória pressiona os juros, que encarece o crédito, que dificulta o investimento e que pesa no bolso das famílias”. Na sequência, perguntou a Lula quais são as metas do petista nessa questão.

Lula criticou a pergunta e começou respondendo com tom de desdém.

Disse pensar que uma jornalista “da qualidade” e “competência” de Renata “pudesse começar a pergunta falando diferente”. O presidente sugeriu como, na avaliação dele, a questão deveria ter sido feita: “Você pode me dizer, Renata, o senhor foi o único presidente na história do Brasil que fez superavit primário durante 8 anos do seu governo”.

O presidente continuou a resposta defendendo seu histórico econômico e afirmou que foi o único entre os países do G20 a registrar superavit primário durante 8 anos. Na sequência, atribuiu o aumento da dívida, entre outros fatores, ao baixo crescimento econômico dos anos anteriores. Afirmou que o PIB voltou a crescer acima de 2% depois de seu retorno à Presidência.

“Você se esquece que eu deixei esse país crescendo 7,5% em 2010? E quando voltei, estava crescendo 1%. À medida que você começa a crescer a economia, a dívida começa a cair com relação ao PIB. 80% de dívida não é muito se você olhar pros Estados Unidos, olhar para o Japão, olhar para a Itália. A mim não preocupa a dívida pública”, disse.

Pela metodologia do FSB, a dívida bruta do Brasil é superior a publicada pelo governo. Em vez dos 81,9% divulgados pelo Banco Central, a organização fala em 88% do PIB. É a 8ª maior do G20. Leia mais abaixo sobre a diferença nas metodologias.

Assim como os EUA, o Japão foi mencionado por Lula para dizer que a dívida do Brasil não é tão grande.

É que o Japão tem uma dívida pública de cerca de 220% do PIB –a maior entre as economias analisadas. A diferença é que o governo japonês desembolsa aproximadamente 2,5% do PIB com juros para rolar seus débitos –muito menos que o Brasil.

Esses países, Estados Unidos e Japão, também são nações nas quais a infraestrutura está pronta, o nível educacional é alto e têm economias estabilizadas. Conseguem dever muito sem pagar caro por isso, porque o mercado confia nos modelos econômicos e cobra juros menores.

O Brasil, do seu lado, tem ainda enormes desafios na área de infraestrutura, a educação não produz resultados equiparáveis aos de países desenvolvidos e a economia volta e meia sofre solavancos. Ainda assim, vários governos brasileiros durante décadas preferiram aumentar a dívida sem entregar de volta um resultado que aproxime o país de um nível mais próximo ao desenvolvimento de nações mais ricas.

Projeções da IFI (Instituição Fiscal Independente) indicam que, sem mudanças estruturais nas contas públicas, a dívida bruta poderá atingir 115% do PIB em 2036. Leia a íntegra do documento (PDF – 2 MB).

Segundo a instituição, seria necessário manter um superavit primário de 2,1% do PIB para estabilizar a relação entre dívida e PIB. No cenário mais otimista, esse resultado só seria alcançado depois de 2029.

TRAJETÓRIA DA DÍVIDA PÚBLICA

Analise do economista e ex-presidente do Banco dos Brics Marcos Troyjo mostra que o Brasil apresenta a pior trajetória da dívida pública entre as 10 maiores economias emergentes. 

Em levantamento baseado em dados do Fundo Monetário Internacional, o país é o único do grupo classificado por ele com uma “alta significativa” na relação dívida/PIB.

Segundo Troyjo, enquanto o Brasil registra deterioração do indicador, outras grandes economias emergentes apresentam estabilidade, alta gradual ou redução da dívida. Polônia e Índia têm trajetória estável a decrescente, enquanto a Indonésia registra queda.

O tamanho da dívida em relação ao PIB é um dos fatores que, segundo o economista, colocam o Brasil na posição em que está. Os outros são: custo de financiamento da dívida e o peso dos juros sobre as contas públicas.

“O Brasil passou a reunir a combinação mais preocupante de elevado endividamento, alto custo de financiamento e despesa com juros entre as maiores economias emergentes”, disse.

A combinação é relevante porque uma dívida elevada, associada a juros altos, aumenta o custo para o governo financiar e refinanciar seus compromissos. Uma parcela maior do Orçamento também pode ser direcionada ao pagamento de juros, reduzindo o espaço para investimentos e outras despesas. É esse quadro que, segundo o economista, torna a situação brasileira mais preocupante que a de outros emergentes.

Os dados do FSB mostram que o país gastou 8,8% do PIB com juros em 2024, o maior percentual do G20. De 2023 a 2024, as despesas brasileiras com juros passaram de 5,8% para 8,8% do PIB. Alta de 3 pontos percentuais. Foi o 2º maior aumento entre os países analisados, só atrás do Canadá.

Para Troyjo, uma mudança na trajetória da dívida depende também de uma sinalização política de compromisso com o controle das despesas e a reforma do Estado.

NOTA METODOLÓGICA

O indicador do FSB segue o padrão internacional e considera todo o estoque de títulos emitidos pelo Tesouro Nacional, inclusive aqueles mantidos na carteira do Banco Central.

A DBGG divulgada pelo Banco Central utiliza um conceito mais restrito para os títulos públicos em carteira, contabilizando só os papéis utilizados em operações compromissadas –por essa razão o percentual da dívida sobre o PIB do Brasil calculado pelo BC fica menor do que o considerado pelo FSB.

A diferença decorre dos chamados “títulos livres” mantidos pela autoridade monetária e pode representar uma discrepância de 8 a 10 pontos percentuais do PIB.


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