O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, defendeu equilíbrio e sensatez diante da crise que colocou o Supremo Tribunal Federal no centro da campanha eleitoral. Em entrevista à coluna durante o programa Agora Metrópoles, ele afirmou que cada Poder deve respeitar os limites de sua atuação.
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Múcio também reafirmou que as Forças Armadas devem permanecer afastadas da política e chamou de “exemplar” a conduta dos militares nos últimos três anos e nove meses. O ministro destacou ainda que o número de candidatos das Forças Armadas nestas eleições é muito menor do que no pleito anterior.
Leia trechos da entrevista:
Ministro, a gente sabe que está no meio de um processo eleitoral complicado e é muito importante que as Forças Armadas estejam se comportando dentro do seu limite constitucional, ainda mais após essa escalada da crise que atinge o Supremo Tribunal Federal. Gostaria que o senhor avaliasse a campanha eleitoral até aqui e comentasse esse momento em que o Supremo Tribunal Federal toma o papel principal de uma campanha eleitoral, quando não deveria ser bem assim, não é, ministro?
Deixa eu lhe contar: a política é uma atividade muito emocionante, estimula as pessoas a conversarem, a dar opinião. Todo mundo tem um pouco de cientista político e de técnico de futebol. E você tem que estabelecer os limites. Aqui não é para ter político. Por exemplo, nas Forças Armadas não é para ter político. O objetivo das Forças Armadas é manter a ordem, garantir a soberania, garantir o país.
A mesma coisa acontece nos outros Poderes. A política fica para o Congresso e fica para o Poder representativo e para o Poder Executivo. Há um envolvimento político motivado por essa fratura política que nós tivemos no país. Nós vivemos numa fissura política. O poder de fraternidade dos brasileiros diminuiu consideravelmente.
A gente torce que passe, isso aconteça, vamos dizer assim, porque nós temos um novo quadro para os brasileiros opinarem sobre o seu destino nos próximos quatro anos. Então, a gente tem que ter muito equilíbrio, muita sensatez, para que a política não tome conta da sensatez, que a sensatez tome conta da política.
Não houve neste 7 de Setembro, mesmo sendo um ano eleitoral, nenhum envolvimento dos militares na campanha até agora, o que é, de fato, muito bom.
Até agora e nem depois. Os militares estão completamente afastados da política e tiveram, ao longo desses três anos e nove meses, uma conduta exemplar, cumprindo suas obrigações. Nem os políticos se envolveram com os militares, nem os militares se envolveram com os políticos, como deve ser.
O senhor diria, então, que isso é, de fato, parte da despolitização das Forças Armadas, depois de tudo o que a gente viu que aconteceu durante os governos Bolsonaro?
Uma coisa importante, Matheus: a quantidade de candidatos que nós tivemos nas Forças Armadas para esta próxima eleição é muito menor, mas muito menor mesmo, do que na eleição passada. Significa dizer que não é que houve o interesse. Cada um foi para o seu caminho, cumpriu suas obrigações: político na área política e militar na área militar.
O senhor fala, às vezes, em sair do cargo para cuidar da própria vida. E eu fico pensando que o senhor é um dos políticos mais hábeis aqui de Brasília porque o senhor fala tanto de um lado quanto de outro. O senhor é do governo Lula, mas o senhor sempre falou bem com o lado liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. O senhor tem essa capacidade de articulação política, de conseguir falar com todos os lados. O senhor pretende permanecer no cargo, caso o presidente Lula seja reeleito?
Eu não tenho mais idade para isso, né? Eu quero dizer a você que o cargo é muito desgastante. Eu vim para cá para passar um ano. Vou completar quatro. Agora, eu parto do pressuposto que o pressuposto básico da democracia é você defender que o outro pense diferente de você e você respeitar. Esse é um pressuposto básico da democracia. Se isso for para um lado ou para o outro, você está indo para o regime de exceção.
Então, foi isso que desapareceu no Brasil. Nós fizemos daqueles que pensam contrariamente a nós viraram inimigos. Eu tenho inimigos, adversários da minha família, que deixaram de me cumprimentar porque eu sou de um lado. Outros que não cumprimentam porque eu estou do outro.
Então, é isso que precisa acabar. Tomara que nós retomemos esse caminho pacífico, ordeiro, construtivo e proativo para que nós voltemos a sonhar com o Brasil numa situação melhor do que nós estamos.
Quero agradecer a sua participação aqui no Agora Metrópoles, agradecer a sua presença e agradecer a sua atuação para evitar que as Forças Armadas continuassem a fazer um papel que era inconstitucional, na minha avaliação. Quando elas voltaram a entrar na política, isso me preocupou muito. Eu sou filho de presos políticos da ditadura, fiz um livro sobre isso, estou sempre cobrindo crimes da ditadura e, para mim, ver que as Forças Armadas voltaram para o seu papel constitucional foi muito importante. E, por isso, eu lhe agradeço pelo seu trabalho feito no Ministério da Defesa.
Matheus, eu sou mais velho que você, muito mais velho, sou de uma idade mais avançada até do que seu pai e sua mãe, conheço muito bem eles, sei da história de vocês e como vocês, com grandeza, chegaram onde chegaram. De maneira que isso me estimula.
O passado serve para essas coisas: você toma como referência para construir um futuro melhor.

