Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) descobriu que a proteína sindecam-4 (SDC4), da superfície celular, tem um grande potencial terapêutico de combate ao câncer, além de ser um possível marcador no diagnóstico da doença.
Os pesquisadores conduziram o experimento em laboratório e identificaram que a SDC4 funciona como uma espécie de freio biológico que pode parar a proliferação de células e neutralizá-las nas ocorrências de metástase.
Publicado na revista científica Cytotechnology, o estudo aponta que o silenciamento dessa proteína tem capacidade de impedir que o tumor avance.
Segundo a professora Carla Cristina Lopes, autora e pesquisadora do Departamento de Ciências Biológicas da Unifesp que conduziu o estudo, a descoberta pode se tornar um alvo terapêutico promissor.
“A estratégia de silenciar essa molécula tem potencial para impedir a proliferação de células cancerosas, mas ainda estamos em fases iniciais da pesquisa e seria necessário validar os resultados em cada caso específico da doença”, disse à Agência FAPESP.
Como as células cancerígenas evoluem para metástase
No organismo, as células precisam estar ligadas umas às outras e em uma matriz extracelular. Quando uma delas, saudável, se desprende desta ligação, ela ativa um processo de autodestruição chamado anoikis, que em grego quer dizer “morte por falta de casa”. Ou seja, é como se a célula perdesse de fato seu ambiente para sobreviver.
Em células tumorais agressivas, o processo é diferente: elas alteram a proteção e criam resistência à anoikis. Isso faz com que elas ganhem força para sobreviver sozinhas e assim migrem por meio da corrente sanguínea para colonizar outros órgãos, se espalhando pelo corpo; esse movimento é conhecido como metástase.
O estudo, porém, descobriu que a superprodução (superexpressão) da proteína SDC4 é exatamente o que facilita a proteção das células tumorais, evitando que elas morram por falta de casa e, como consequência, desenvolvam doenças em diferentes partes do corpo. “A sindecam-4 protege as células tumorais desse tipo específico de morte celular que ocorre quando a célula se desprende do tecido”, destacam os pesquisadores.
Como foram feitos os testes
Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram células de vasos sanguíneos (endoteliais) de coelhos. Eles forçaram essas células a ficarem soltas no meio de cultura, sem que elas pudessem se prender a nenhuma outra superfície.
Dessa forma, foi observado que menos de 5% das células conseguiram sobreviver à anoikis, se tornando altamente agressivas e dando início a uma superprodução de SDC4.
Na etapa seguinte, os cientistas utilizaram técnicas de engenharia genética para silenciar a proteína SDC4 nas células sobreviventes, o que resultou em um comportamento menos ofensivo e mais parecido com o normal, dependendo de uma superfície para não morrer.
A análise mostrou que o bloqueio da SDC4 aumenta a produção da molécula p27, a qual é um inibidor natural da divisão celular, inibindo e equilibrando as proteínas CDKs, que são responsáveis pelo ritmo de multiplicação celular.
Apesar do bom resultado, os pesquisadores afirmam que os testes precisam ser feitos em células humanas. Além disso, atualmente a equipe da Unifesp conduz um estudo com canabidiol (CBD) — composto não psicoativo derivado da Cannabis sativa — para checar se a planta é capaz de modular a SDC4, para reverter esse comportamento celular resistente à anoikis.

