Os títulos públicos atrelados à inflação passaram a maior parte de 2026 atrás dos pós-fixados e dos prefixados. Em agosto, essa ordem se inverteu e eles entregaram o melhor retorno entre as nove classes de renda fixa acompanhadas pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), em um mês marcado pela deflação do IPCA-15 e pela expectativa de mais um corte da Selic em setembro. A dúvida agora é se o movimento marca um ponto de virada para os títulos de inflação.
O IMA-B, índice que reúne os títulos públicos atrelados à inflação, subiu 1,58% em agosto e fcou à frente das debêntures atreladas ao IPCA não incentivadas (1,40%), das debêntures incentivadas (1,26%), dos títulos públicos pós-fixados do IMA-S (1,11%) e dos prefixados do IRF-M (1,04%), o pior resultado do mês.
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No acumulado de 2026, porém, a ordem se inverte. As debêntures pós-fixadas do IDA-DI lideram, com 9,81%, seguidas pelo IMA-S, com 9,47%. O IMA-B aparece com 6,75%, atrás dos prefixados do IRF-M (7,06%). Na última posição estão as debêntures incentivadas do IDA-IPCA Infraestrutura, com 3,74%.
| Ativos | Índice | Agosto (%) | No ano (%) |
| Títulos públicos | IMA – Geral | 1,2 | 8,25 |
| Títulos públicos prefixados | IRF-M | 1,04 | 7,06 |
| Títulos públicos de inflação | IMA-B | 1,58 | 6,75 |
| Títulos públicos pós-fixados | IMA-S | 1,11 | 9,47 |
| Debêntures | IDA – Geral | 1,17 | 6,93 |
| Debêntures atreladas ao DI | IDA – DI | 1,09 | 9,81 |
| Debêntures incentivadas | IDA – IPCA Infraestrutura | 1,26 | 3,74 |
| Debêntures IPCA não incentivadas | IDA – IPCA ex-Infraestrutura | 1,4 | 8,51 |
| Debêntures atreladas ao IPCA | IDA – IPCA | 1,26 | 3,88 |
O que explica o ganho
João Debom, sócio da Supernova Investimentos, atribui o resultado à duration (prazo médio de recebimento) e ao fechamento das taxas reais. “O IMA-B tem duration mais longa que os outros dois índices, e agosto foi o mês em que os juros reais de prazo mais longo recuaram de forma mais consistente”, afirma. “Duration longa mais queda de juro real resultam em ganho de marcação a mercado desproporcional.” Ele ainda explica que o IRF-M responde à curva nominal, que se moveu menos que a real.
O pano de fundo foi o IPCA-15, que registrou deflação de 0,40% em agosto, contra expectativa de queda de cerca de 0,30% do mercado. Em 12 meses, a prévia da inflação desacelerou de 4,52% para 4,24%. No início do mês, o Copom cortou a Selic para 14% ao ano e volta a se reunir em 16 de setembro.
Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, aponta ainda um fator técnico: “o vencimento do Tesouro IPCA+ 2026 no meio do mês de agosto ajudou a aumentar a demanda por títulos públicos, o que pressionou a taxa um pouco para baixo”, diz.
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Para Jocelin Thereza Lima, especialista em investimentos, houve também recuperação. “Os papéis indexados à inflação vinham de um desempenho mais modesto no ano e carregavam prêmios elevados. Agosto foi justamente um mês em que esses ativos conseguiram recuperar parte desse atraso”, afirma.
Começo de virada?
Lima vê o mês como ponto de partida para um movimento mais perene. “Eu interpretaria agosto mais como o início de uma recuperação do segmento indexado à inflação do que como um simples ponto fora da curva”, diz.
Debom discorda e classifica como “mais repique do que início de tendência consolidada. Precisaria de mais dois ou três IPCAs surpreendendo para baixo e sinalização fiscal mais clara para virar tendência. Por ora, é ganho de curva pontual, não mudança de regime”.
Magno também trabalha com a hipótese de repique e diz que “sem uma ancoragem fiscal clara e duradoura, as NTN-Bs longas tendem a sofrer com a volatilidade dependendo das notícias”. Ele acrescenta que, no curto prazo, os dados das pesquisas eleitorais vêm ajudando no fechamento da curva.
Por que os isentos ficaram para trás
A distância entre as debêntures incentivadas (3,74% no ano) e as não incentivadas atreladas ao IPCA (8,51%) chega a quase cinco pontos percentuais, apesar do mesmo indexador.
Debom aponta dois fatores que ajudam a explicar a diferença: prazo e oferta. Ele estima duration de 12 a 15 anos nos papéis de infraestrutura, contra 5 a 7 anos nas não incentivadas, e cita o alargamento de spread depois do volume de emissões do segmento em 2025 e 2026. “O mercado de incentivadas cresceu rápido demais e o spread pagou o preço”, diz.
Magno acrescenta o componente de crédito: “como estamos passando por um ano mais turbulento com algumas recuperações judiciais, o spread de crédito aumentou, o que joga essa rentabilidade um pouco para baixo desses ativos”, afirma.
Sobre investir agora ou não, os dois convergem para seletividade. “Pode ser ponto de entrada, mas só para quem aceita duration longa e tem horizonte de vários anos. Não é posição tática para 2026”, diz Debom. Lima segue a mesma linha: “Vejo mais uma oportunidade seletiva do que uma oportunidade generalizada”.
E os CDBs?
Na renda fixa bancária, os CDBs prefixados entregaram em agosto taxa média de 13,16% ao ano para 6 meses e 13,35% para 12 meses. Nos papéis atrelados à inflação, a média ficou em IPCA + 7,58% para 12 meses e IPCA + 8,06% para 36 meses.
Já nos pós-fixados, as médias ficaram próximas de 100% do CDI em todos os prazos, com distância maior apenas nos papéis de 12 meses, que pagaram 98,73%.
| Retornos de CDBs emitidos entre 02 de agosto e 01 de setembro de 2026 | |||||
| CDBs pós-fixados | |||||
| Prazo (meses) | Taxa mínima (% CDI) | Taxa média (% CDI) | Taxa máxima (% CDI) | Número de títulos | Emissor da maior taxa |
| 3 | 90,00% | 100,02% | 106,00% | 53 | Paraná Banco |
| 6 | 97,50% | 99,97% | 102,50% | 36 | Banco Mercantil do Brasil |
| 12 | 90,00% | 98,73% | 105,00% | 60 | Banco C6 |
| 24 | 92,50% | 99,70% | 109,00% | 38 | Banco Fator |
| 36 | 96,50% | 100,48% | 106,00% | 93 | Banco Mercantil do Brasil |
| CDBs de inflação | |||||
| Prazo (meses) | Taxa mínima (IPCA+) | Taxa média (IPCA+) | Taxa máxima (IPCA+) | Número de títulos | Emissor da maior taxa |
| 12 | 6,85% | 7,58% | 8,45% | 52 | Haitong Brasil |
| 24 | 7,02% | 8,11% | 8,82% | 115 | Haitong Brasil |
| 36 | 7,39% | 8,06% | 8,59% | 182 | Haitong Brasil |
| CDBs prefixados | |||||
| Prazo (meses) | Taxa mínima | Taxa média | Taxa máxima | Número de títulos | Emissor da maior taxa |
| 6 | 13,02% | 13,16% | 13,48% | 10 | ABC Brasil |
| 12 | 13,15% | 13,35% | 13,62% | 30 | Haitong Brasil |
| 24 | 13,30% | 14,00% | 14,60% | 67 | Sinosserra Financeira |
| 36 | 13,56% | 14,33% | 15,58% | 136 | Sinosserra Financeira |
Onde investir na renda fixa em setembro
Debom prefere alongar em inflação e reduzir pós-fixados da carteira, “aproveitando a compressão de juro real que começou em agosto, sem exagerar em duration extrema”. Para ele, os pós-fixados “perdem atratividade relativa conforme o ciclo de corte avança e o carrego futuro cai”.
Lima também sugere aumentar o peso dos papéis de inflação, mas mantém o pós-fixado em carteira: “não vejo motivo para abandonar essa exposição”. Ele afirma que “aumentaria a exposição de forma gradual em títulos indexados à inflação, principalmente em prazos intermediários e longos, mas com bastante seletividade”.
Magno separa horizontes e sugere que aumentar a parcela de pós-fixados e prefixados nos investimentos de curto prazo. No médio e no longo, reduziria os dois e elevaria a fatia em IPCA, “pelo nível de taxa e momento”.
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