Três pessoas foram presas nesta terça-feira (15) em Salvador (BA), durante uma operação da Polícia Civil (PC) que apura um esquema de criação e negociação de mais de mil títulos de crédito e recebíveis fraudulentos, entre eles duplicatas falsas. Conforme a investigação, os documentos movimentaram mais de R$ 32 milhões e causaram um prejuízo superior a R$ 15 milhões.
Para dar aparência de legalidade ao esquema, os suspeitos se valiam de empresas do setor veterinário, voltadas à venda e ao armazenamento de ração e insumos, o que possibilitava a emissão dos títulos no mercado financeiro.
Batizada de Operação Sem Lastro, a ação cumpriu oito mandados de busca e apreensão em endereços residenciais e comerciais, segundo informações do g'1. Um casal foi detido no bairro Jardim Armação, e a terceira prisão ocorreu no Jardim das Margaridas. Celulares, tablets, escrituras, cadernos e comprovantes bancários foram apreendidos e devem auxiliar no andamento das apurações.
Como agia o grupo
Segundo a polícia, os investigados fabricavam títulos que simulavam dívidas de empresas reais, negociando-os no mercado financeiro como se fossem resultado de operações comerciais genuínas, o que, na prática, nunca aconteceu. Ao todo, foram identificadas mais de mil duplicatas falsas, associadas a mais de 200 empresas apontadas como devedoras sem terem, de fato, realizado qualquer negócio.
Para sustentar a fraude, o grupo recorria ao chamado autopagamento: quitava parte dos próprios títulos com dinheiro de empresas ligadas ao esquema, criando uma falsa impressão de solidez financeira que permitia colocar novos títulos em circulação. Mesmo após a descoberta das primeiras irregularidades, o principal suspeito chegou a oferecer uma nova carteira de títulos fraudulentos, avaliada em R$ 17 milhões.
Papéis dentro do esquema
Conforme a investigação, cada um dos presos desempenhava uma função específica:
- Caio Vinícius Sande Santos, contador, cuidava das áreas financeira e comercial, sendo o responsável pela criação, falsificação e negociação dos títulos, além de participar dos pagamentos usados para simular normalidade nas operações.
- Kaliana Argolo de Oliveira, administradora, atuava na área financeira e contábil, manipulando balanços e dados para passar uma imagem de solidez econômica às empresas envolvidas.
- Adriana Gonçalves Sande Santos, médica-veterinária e esposa do principal investigado, respondia pela área patrimonial e societária.
As defesas dos suspeitos foram procuradas, mas não houve retorno até a publicação desta matéria.
Separação sob suspeita
Um ponto que chamou atenção dos investigadores foi a transferência, em 24 de março de 2026, da totalidade das cotas de uma empresa, avaliada em R$ 1 milhão, para a terceira presa. A movimentação ocorreu já com as investigações em curso e estaria ligada a uma separação que a polícia considera simulada, já que publicações em redes sociais sugerem que o casal seguia convivendo normalmente.
Para os investigadores, a manobra societária pode ter tido como objetivo proteger o patrimônio do grupo e dificultar a recuperação dos valores desviados.
Vítimas e prejuízos
O delegado José Nélis, responsável pela operação, afirmou que o esquema atingiu diretamente comerciantes e investidores. Segundo ele, "o esquema atingiu comerciantes e investidores, além de diversas pessoas que tiveram seus nomes protestados indevidamente por títulos que não correspondiam a dívidas reais. Os prejuízos foram especialmente graves para pequenos comerciantes, levando alguns deles à falência".
O delegado destacou ainda que a movimentação de bens e empresas por parte dos investigados tornou mais difícil localizar e recuperar os valores obtidos com a fraude.
A Polícia Civil (PC) informou ao g1 que as investigações prosseguem para apurar a participação individual de cada envolvido, rastrear o destino dos recursos desviados e identificar eventuais outros integrantes do grupo.

