Foi estabelecida pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), de forma imediata e por prazo indeterminado, a suspensão das operações da Total Linhas Aéreas, na última terça-feira (1º).
A empresa de frota cargueira presta serviços para os Correios, e sua suspensão pode gerar dúvidas em relação a continuidade do transporte de encomendas da estatal.
Segundo Ruy Amparo, consultor de aviação e ex-diretor na TAM (atualmente Latam Airlines), o impacto pode ser mitigado a curto prazo por meio da realocação das mercadorias de forma emergencial.
“Isso pode ser feio por meio de serviços de outras empresas já contratadas, pelo abastecimento de porões de aviões comerciais ou até mesmo via terrestre, com caminhões”, afirma Amparo.
Além disso, se a decisão da Anac perdurar e a Total não regularizar a sua situação, o consultor afirma que os Correios poderão, possivelmente, interromper o contrato vigente e fazer uma licitação de serviços de outra empresa aérea.
No entanto, apesar da Total não ser a única prestadora de serviços da estatal, Amparo salienta que a interrupção das operações, realocação emergencial e novo contrato podem trazer custos operacionais para os Correios – que já enfrenta dificuldades financeiras há tempos.
No primeiro semestre de 2026, os Correios registraram prejuízo líquido de R$ 5,55 bilhões, enquanto em 2025 o resultado negativo somou R$ 8,5 bilhões.
De acordo com a empresa, o rombo foi influenciado pelo provisionamento de obrigações judiciais e pelo aumento de custos operacionais.
Contudo, Amparo salienta que, caso haja, de fato, um prejuízo sobre os custos de realocação de mercadorias, os Correios podem exigir um ressarcimento para a companhia aérea responsável pelo serviço.
Já Gilberto Braga, economista e professor de Finanças do Ibmec-RJ, diz que, com relação a eventuais atrasos de mercadorias devido a essa intercorrência, os clientes prejudicados poderão tomar as medidas de consumidor cabíveis.
“Muito provavelmente eles poderão ser ressarcidos e indenizados caso tenha algum prejuízo comprovado ou alegado por conta de eventual descumprimento daquilo que foi contratado, atrasos ou não entrega ou perda mesmo no pior cenário de uma determinada carga ou encomenda”, adiciona.
De melhor do mercado à operação suspensa
Há cerca de 38 anos em atividade, a Total Linhas Aéreas é responsável pelo transporte aéreo de cargas, operações dedicadas, fretamento cargueiro, transporte postal e soluções para indústria e e-commerce.
Segundo o site oficial da empresa, sua frota é composta por quatro aviões Boeing 737-400F e oito bases estratégicas pelo Brasil.
Ao logo dos anos, além de prestar serviços para os Correios, a Total afirma que trabalhou com diversas grandes empresas brasileiras, como a Petrobras.
A aérea também foi considerada a melhor companhia aérea regional do Brasil em 2006 e 2007, de acordo com a companhia.
No entanto, no início desta semana, a Anac suspendeu suas atividades por tempo indeterminado por meio da Decisão nº 755, de 1º de setembro de 2026.
Segundo a agência, a suspensão está relacionada à existência de condições de risco e não conformidades ainda em aberto na empresa.
Entre os problemas mencionados estão falhas classificadas como de nível crítico e alto, relacionadas à aeronavegabilidade continuada, aos sistemas e procedimentos de segurança operacional e à segurança da aviação civil contra atos de interferência ilícita.
De acordo com o professor do Ibmec-RJ, a proibição temporária serve para que a companhia se ajuste e minimize os riscos com relação à possibilidade de algum tipo de problema grave, como acidentes.
A Total também terá de recompor o quadro de administração exigido pelo RBAC (Regulamento Brasileiro da Aviação Civil) nº 119.
Os gestores indicados pela empresa precisarão ser validados pela Superintendência de Padrões Operacionais da Anac.
Outro requisito para a retomada é a comprovação da efetividade do SGSO (Sistema de Gerenciamento da Segurança Operacional) e do Sistema de Análise e Supervisão Continuada (SASC), de modo a garantir um nível de segurança considerado aceitável pela agência.
A companhia deverá ainda regularizar os controles de aeronavegabilidade continuada das aeronaves e adequar os processos internos de identificação, reporte e tratamento de eventos e riscos operacionais.
A suspensão não é definitiva, mas a companhia só deve voltar a operar depois de comprovar o cumprimento de todas as exigências determinadas pela agência.
A CNN Brasil busca contato com a Anac e com a Total Linhas Aéreas sobre a determinação. O espaço segue aberto.
*Com informações de Manuella Dal Mas, da CNN Brasil

