O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que a condução da política monetária pela autarquia no Brasil não visa colaborar com um crescimento puxado por mais consumo e mais demanda, mas sim para chegar a um patamar contracionista.
Durante conferência do banco Santander nesta segunda-feira (17), em São Paulo, Galípolo destacou, ainda, que a autoridade monetária monitora indicadores que apontam para uma economia brasileira sob contínua pressão de demanda. Nesse contexto, o dirigente rechaçou qualquer hipótese de calibrar a Selic para estimular o consumo no curto prazo.
“Neste momento, o Banco Central não está pilotando a política monetária pensando em colocar a taxa de juros de uma maneira para colaborar com o crescimento puxado por mais consumo e mais demanda. A gente está muito mais pensando em botar um patamar contracionista”, declarou Galípolo.
O presidente do BC ponderou que o foco do debate deve migrar para o aumento da produtividade do país: “Entram questões sobre o que é preciso fazer para conseguir com que os juros de mais longo prazo — que vão financiar projetos que podem alterar a produtividade — possam se apresentar de maneira mais interessante para viabilizar esses investimentos necessários.”
O BC cortou a taxa Selic em 0,25 ponto percentual na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), reduzindo os juros a 14% ao ano.
Para analistas do mercado, o comunicado da autarquia “deixou a porta aberta” para novo corte de mesmo tamanho, apesar de essa visão não ser considerada correta pela maior parte dos agentes.
Galípolo disse que o Brasil está num momento de pleno emprego, com uma economia cresce com a demanda acima da oferta e, “quando você olha para a política monetária, é óbvio que o mandato é você conseguir reequilibrar a oferta e demanda, e é por isso que a gente coloca a taxa de juros em um patamar restritivo”.
Pix como patrimônio global e o risco de infraestruturas paralelas
Além do cenário macroeconômico, Galípolo abordou os avanços da agenda de inovação financeira e a consolidação do Pix no ecossistema de pagamentos.
Definido por ele como um “patrimônio da sociedade brasileira”, o sistema virou referência internacional e objeto de consulta por Bancos Centrais de países desenvolvidos.
O presidente do BC relembrou que, na concepção do projeto, existia o receio de que o setor privado não tivesse os incentivos adequados para bancar uma ferramenta pública desse porte.
No entanto, o tempo provou o contrário, ponderou. “Hoje é benéfico para o setor privado, pela inclusão de clientes e pela redução de custos operacionais, como o transporte de valores.”
Sobre a internacionalização e pagamentos transfronteiriços (cross-border), Galípolo fez um alerta regulatório. Segundo ele, a proliferação de redes e infraestruturas paralelas à margem do sistema tradicional impõe desafios inéditos.
“Elas oferecem ameaça a toda a estrutura regulatória e de supervisão que foi criada ao longo de décadas”, apontou, destacando que as prioridades do BC passam pelo fortalecimento da cibersegurança e pelo uso de Inteligência Artificial para aprimorar a experiência do cliente na escolha de crédito e investimentos.
Regulação, concorrência e limites do Banco Central
Ao detalhar a atuação institucional frente às transformações do mercado, Galípolo reconheceu que o Banco Central foi levado a ultrapassar as fronteiras tradicionais do seu arcabouço regulatório para assegurar a estabilidade do sistema e garantir a livre concorrência.
O dirigente citou a dinâmica de captação das instituições financeiras e o papel dos instrumentos de proteção, como os limites de garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos).
“Todos sabem que se começa a construir um banco pelo passivo para depois construir o ativo, porque um banco vive de tomar dinheiro mais barato do que empresta e receber antes do que precisa pagar. O BC teve que avançar limites para a instituição crescer antes de entrar em uma regulação mais estrita sobre o que pode ser colocado como colateral para captação garantida no varejo.”
Galípolo ressaltou o desafio pedagógico da autoridade monetária e do mercado em educar o investidor sobre a relação entre risco e retorno nos novos arranjos de pagamento e ativos digitais.
“É desafiador conseguir passar para o cliente que aquele ativo tem risco — e que só existe prêmio justamente porque existe risco. Mas essa é uma pauta que precisa ser enfrentada diante das ameaças e inovações que surgem a todo momento”, concluiu.

