A Polícia Federal apresentou nesta quinta-feira (6) o relatório final do Inquérito Policial que apurou as circunstâncias da queda de um avião da Voepass no interior de São Paulo, em agosto de 2024. Segundo Carlos Eduardo Palhares, diretor do Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal, o acidente foi resultado de uma “soma de violações”.
Segundo o diretor, voos anteriores da companhia aérea já haviam registrado alertas para o problema no sistema de degelo.
“Aqueles pilotos sabiam que aquele componente estava em falha. Era obrigação do piloto reportar [o problema] à equipe de manutenção. Mas não foi reportado […] Existia conhecimento dos pilotos sobre a condição da aeronave e que deveriam impedir o voo. A soma de todas essas violações levaram à queda do avião”, disse Palhares.
Durante a coletiva, o diretor explicou que, logo nos minutos iniciais após a decolagem, o painel emitiu o primeiro alerta de gelo. Posteriormente, outros dois alertas foram enviados dentro da cabine, sendo eles:
- Cruise speed low (velocidade abaixo do recomendado – luz azul no painel): exige providências imediatas de recuperação de velocidade;
- Degraded performance (luz e aviso sonoro): indica perda crítica de performance aerodinâmica;
- Increase speed (aumentar velocidade e alertas sonoros severos): estágio que antecede a perda total de sustentação.
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O perito ressalta que cada um dos alertas deveria ter sido acompanhado de procedimentos operacionais de emergência, no entanto, foi constatada uma “cultura de não ação” por parte dos tripulantes, que não executaram nenhuma das correções previstas.
Segundo o delegado André Ribeiro, a diretoria da companhia aérea orientava os funcionários a não registrarem falhas operacionais.
Depois do acidente, a Anac impôs restrições operacionais à companhia e, em 2025, cassou definitivamente seus certificados de operação e manutenção.
Relatório do Cenipa
Segundo a investigação, a aeronave não deveria sequer ter decolado nas condições em que foi liberada para o voo, pois operava com o sistema Airframe De-Icing, responsável pela proteção contra o acúmulo de gelo, inoperante.
O ATR-72 de matrícula PS-VPB fazia o voo entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP) quando encontrou condições severas de formação de gelo durante o cruzeiro.
O gelo acumulado nas superfícies críticas da aeronave degradou o desempenho do avião, provocando perda de velocidade, estol aerodinâmico, perda de controle e, posteriormente, a queda em uma área residencial de Vinhedo (SP). Os 58 passageiros e os quatro tripulantes morreram.
Omissão e falhas da aeronave
O avião que caiu em Vinhedo (SP) em agosto de 2024 teria apresentado falhas no sistema de degelo — mecanismo usado para remover o acúmulo de gelo — em quatro voos antes do acidente, segundo relatório final da Polícia Federal.
O laudo pericial detalha uma série de falhas técnicas e de manutenção que ocorreram nos voos anteriores ao acidente com o PS-VPB, sobretudo na inoperância recorrente do sistema de degelo e na omissão de registros por parte das tripulações.
Segundo a PF, o alerta de falha na asa direita foi registrada em todos os quatro voos que antecederam o acidente. Já o sistema de Airframe Fault foi alertado oito vezes.
O documento levantou ainda que a tripulação não registrou formalmente as falhas do sistema de degelo no Diário de Bordo (TLB). Por exemplo, no voo PTB2293, o comandante registrou “nothing to report” (nada a declarar), apesar de o sistema ter apresentado falhas e passado por resets durante o trajeto.
Para os peritos, “ciente da intermitência do sistema, caberia ao comandante recusar o despacho da aeronave em uma rota com alerta vigente para formação de gelo.”
A comissão de investigação concluiu que a decolagem ocorreu em desacordo com os requisitos operacionais, uma vez que o sistema de proteção pneumática contra gelo estava indisponível.
Além da falha no despacho da aeronave, o relatório identificou erros da tripulação durante o voo. Segundo o Cenipa, os pilotos demoraram a reconhecer a gravidade da degradação de desempenho provocada pelo gelo e não executaram, em tempo oportuno, os procedimentos previstos pelo fabricante para abandonar a área de formação severa de gelo e manter a velocidade mínima de segurança.
O documento ressalta, contudo, que ambos estavam regularmente habilitados e haviam recebido treinamento específico para operações em condições de gelo e recuperação de perda de controle.
O que diz a Anac
Em nota enviada à CNN Brasil, a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) informou que iniciará a etapa de análise técnica detalhada das conclusões apontadas e das recomendações relacionadas às competências da Anac.
“As investigações conduzidas pelo Cenipa têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, mas à identificação de fatores que contribuíram para o acidente e de recomendações para aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil”, diz a nota.
Segundo o relatório, a empresa não adotou medidas efetivas para tratar esses eventos, permitindo a normalização de desvios operacionais e reduzindo a percepção de risco entre pilotos e gestores.
Cenipa: avião da Voepass apresentava falhas no sistema antes da queda

