Frequentemente retratada no imaginário popular como uma entidade ligada apenas à sedução e à sexualidade, a Pombagira ocupa um lugar muito mais amplo nas religiões afro-brasileiras.
Para sacerdotes e estudiosos dessas tradições, a associação exclusiva com a sensualidade é resultado de estigmas históricos, do machismo e da intolerância religiosa, que acabaram reduzindo uma figura marcada pela liberdade, autonomia e força feminina.
O arquétipo da mulher livre, inclusive, voltou a ganhar destaque com o lançamento de “Equilibrivm II“, novo projeto de Anitta. Ao incorporar referências à força feminina em sua narrativa estética e musical, o projeto apresenta, em diversos momentos, uma entidade feminina que surge para conduzir a artista em uma jornada de autoconhecimento, oferecendo conselhos profundos e reflexões sobre coragem, não submissão, liberdade e transformação.
Nas giras de Umbanda e em diferentes tradições afro-brasileiras, a Pombagira é reconhecida por atuar em demandas ligadas à justiça, aos caminhos, à proteção espiritual e ao fortalecimento da autoestima. Embora também dialogue com aspectos da afetividade e da sexualidade, essas dimensões representam apenas uma parte de sua atuação.
Segundo o babalorixá Alexandre Meireles, dirigente há 30 anos do terreiro de Umbanda Círculo de Irradiações Espirituais São Lázaro, na zona sul de São Paulo, a própria origem da entidade ajuda a compreender como parte dos estereótipos foi construída ao longo do tempo.
“No candomblé de rito Congo-Angola existem os inquices (nkisi), divindades equivalentes aos orixás. Há um inquice chamado ‘Bombo Njila’, que tem uma proximidade muito grande com a energia de Exu na África. Isso pode ter trazido essa referência ao ‘Exu mulher’. Ao mesmo tempo, uma forma de designar prostitutas no Nordeste era ‘pomba’, e daí também surge o nome Pombagira”, explica à CNN Brasil.
O sacerdote afirma que, em sua casa, a entidade é chamada de “Pombogira”, justamente como uma forma de romper com a leitura que reduz sua importância.
“Falamos Pombogira na casa, tentando quebrar essa imagem que associa a entidade apenas a essa visão. Não se trata de ser contra a prostituição, mas de não diminuir o tamanho dessa presença espiritual”, diz.

Liberdade feminina e a mulher indomável
Para Alexandre Meireles, a Pombagira também representa um arquétipo de emancipação feminina que desafia padrões historicamente impostos às mulheres.
“Ela traz como força arquetípica a mulher livre, a mulher dona do próprio corpo, do próprio destino, do próprio caminho, inclusive da própria sexualidade. Representa a ousadia, a coragem e atributos que são castrados dentro do patriarcado e vistos de forma negativa quando expressos por mulheres”, afirma.
Essa leitura ajuda a explicar por que a entidade costuma despertar reações tão intensas, seja de devoção ou de preconceito. Ao representar uma mulher que decide sobre a própria vida, a Pombagira confronta estruturas sociais que historicamente buscaram controlar o comportamento feminino.

Símbolo frequentemente incompreendido
Na cultura popular, filmes, novelas e produções audiovisuais frequentemente reforçaram a imagem da Pombagira como uma entidade voltada exclusivamente para amarrações amorosas ou para a sedução. Especialistas em religiões afro-brasileiras apontam que essa representação ignora a diversidade de manifestações da entidade e contribui para perpetuar estereótipos sobre a Umbanda e outras tradições de matriz africana.
Para Alexandre Meireles, limitar a Pombagira à energia sexual significa desconsiderar sua principal mensagem.
“Reduzir a Pombagira apenas como uma entidade de energia sexual é muito pouco. Ela fala muito mais sobre a potência e a liberdade feminina que não se submete, que não se permite castrar e que toma o destino com as próprias mãos”, pontua.
Mais do que um símbolo de sensualidade, a Pombagira representa, para milhares de fiéis, coragem, autonomia, proteção e a capacidade de romper amarras sociais. Sua força, afirmam os praticantes, está justamente em lembrar que liberdade também é uma dimensão do sagrado.
Assista a “EQUILIBRIVM II”:
