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Análise: Os desafios do novo presidente da Colômbia

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Análise: Os desafios do novo presidente da Colômbia

Após conquistar uma vantagem apertada na apuração preliminar dos votos na Colômbia, o segundo turno mais disputado na história do país, Abelardo de la Espriella pode ter um desafio ainda maior: conseguir governar com uma escassa representação no Congresso.

Por sua vez, Iván Cepeda, que mantém esperanças de reverter o resultado na contagem final, também não enfrentaria um cenário simples.

Apesar de ter tido recorde de votos na Colômbia, quase 13 milhões de eleitores, Abelardo de la Espriella ficou apenas 250 mil votos a mais que Cepeda, segundo dados do órgão eleitoral. A diferença é menor do que previam as últimas pesquisa, o que já se refletiu na retórica do líder da direita.

“Acho que o resultado o fez mudar um pouco o discurso. Ele achou que ia vencer por uma margem maior. Tinha que ler o clima”, disse o analista político Pedro Viveros à CNN. “Ele teve muito cuidado com as questões sociais, para não mexer nas conquistas desse governo. Se tivesse vencido por uma diferença de um milhão de votos, o discurso seria outro”, afirmou.

Necessidade de alianças

Após as eleições legislativas realizadas em março, ficou claro que quem substituir Gustavo Petro em 7 de agosto não terá maioria legislativa. De la Espriella anunciou que preparou decretos executivos, enquanto Cepeda conta com a capacidade de mobilização social do Pacto Histórico.

De la Espriella, que concorreu como independente, tem apenas três senadores do Partido da Salvação Nacional e deverá contar com o apoio dos 17 do Centro Democrático, mas não está claro quantos legisladores do Partido Liberal, do Partido Conservador, Cambio Radical e La U o apoiarão. A minoria mais forte continuará sendo a bancada de 25 senadores do Pacto Histórico.

Para o analista político Pedro Viveros, De la Espriella – que durante a campanha atacou os partidos tradicionais – agora enfrenta as negociações a partir de uma posição mais fraca, mas que pode facilitar o diálogo. “A necessidade de fazer uma agenda para o que ele quer fazer vai levar muitos partidos e setores a aproximarem-se, até por solidariedade. O discurso dá a entender que ele está chamando os partidos, está a dizendo que não há inimigos”, indicou Viveros.

Nesta formação, o Uribismo é cotado como o aliado mais forte, uma vez que existem coincidências ideológicas. “Temos que ver como o Centro Democrático vai estabelecer os limites. Em questões como a Paz Total, não haveria muitas dificuldades”, disse o cientista político Alejo Vargas, professor da Universidade Nacional da Colômbia, à CNN.

O pesquisador lembrou ainda que o vencedor desta eleição poderia incluir figuras de outros partidos em seu gabinete para buscar governabilidade, assim como fez Gustavo Petro, apesar de sua coalizão ter se desintegrado em questão de meses.

Como fica a eventual oposição

Se a votação final confirmar a derrota do Pacto Histórico, o partido de esquerda é cotado como a principal força de oposição, com Cepeda à frente. De la Espriella já pediu a Petro e Cepeda que não “desencadeiem um incêndio social” na Colômbia.

“A oposição continua muito viva. Cepeda como líder e Petro como cidadão livre são oposição nas ruas. Eles têm as ruas e têm o Congresso, com 25 senadores e 36 deputados”, disse Viveros.

Além disso, o analista destacou que a votação confirma que o primeiro governo progressista do país não foi exceção. “Cepeda diz com seus votos que a esquerda está se consolidando na Colômbia, que não foi temporário como muitos pensavam. Ele está dizendo ‘estamos aqui para ficar, vamos defender este trabalho governamental’”.

Por sua vez, o cientista político Alejo Vargas avalia que, como estratégia para 2030, Cepeda não deve adotar uma postura de oposição obstrucionista, mas sim alternar entre posições construtivistas e pressão popular. Assim, demonstraria toda a experiência acumulada em mais de 15 anos no Congresso, onde se tornou uma das maiores referências do anti-uribismo.

“Se Cepeda perceber que pode se consolidar como líder da esquerda e da oposição, poderá se convencer de que pode ser o próximo presidente e brincar de ser um líder da oposição sério, crítico, mas colaborativo”, comentou.

De la Espriella também teria que participar desse jogo para não inflamar o clima das ruas. “Não creio que De la Espriella esteja interessado em lançar todo um protesto social quando poderia neutralizá-lo com alguns acordos com Cepeda”, disse Vargas.

Cepeda também não teria vida fácil: como seria a continuidade?

Embora o candidato do Pacto Histórico tenha feito no domingo (20) algumas declarações que falam de uma possível derrota, o partido mantém a esperança de que a apuração altere significativamente a contagem preliminar, algo que nunca aconteceu em uma eleição presidencial colombiana.

Se for esse o caso, Cepeda enfrentaria inicialmente uma oposição feroz, um cenário de elevado conflito. Mas, por outro lado, a continuidade de um governo, com maior força no Congresso que o atual, oferece sinais de governabilidade.

“Eles estão no poder há quatro anos, não seria uma mudança, é uma continuidade para se consolidar”, disse Viveros.

Nesse caso, De la Espriella teria que ocupar a posição de líder da oposição, onde também não tem experiência. “Ele não tem o pulso político nem a força do Petro ou do Cepeda, seria uma oposição mais fraca”, acrescentou Viveros, que também destacou que o Uribismo foi muito diminuído pela sua escassa votação no primeiro turno, quando Paloma Valencia não atingiu 7% dos votos.

O desafio do outsider

De la Espriella foi rapidamente parabenizado no domingo como “presidente eleito” por vários líderes da região, a maioria deles aliados ideológicos. Embora as comparações mais imediatas sejam com o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, devido aos problemas de segurança da Colômbia e às suas duras promessas, a figura de um outsider sem uma bancada forte é mais parecida com a do argentino Javier Milei.

O advogado e empresário de 47 anos, sem carreira política e com a promessa de enfrentar “a casta”, poderia seguir os passos do líder de La Libertad Avanza, que se aliou ao Macrismo e outros grupos quando iniciou seu governo no final de 2023. Milei conseguiu aprovar leis transformadoras e receber poderes, mas também cometeu erros típicos da inexperiência.

De la Espriella confirmou as suas capacidades como candidato na campanha, mas se a apuração o confirmar como presidente, ele terá de mostrar capacidade em uma frente muito diferente para governar.

“De la Espriella diz que vem com os ‘nuncas’ para vencer os habituais, mas tem que aprender com eles, são eles que sabem administrar o Estado”, explicou Viveros. “Não estou dizendo que ele deve liderar ‘os de sempre’, mas deve aprender como se lida com o poder. Caso contrário, ficará enredado à procura de uma nova forma de liderar, com os erros de quem nunca esteve no Governo”, acrescentou.

O analista indicou que é difícil sustentar a promessa de lutar sempre contra as castas e lembrou que o Petro “demorou a aprender e virou um governo incompetente”.

O cientista político Vargas indicou que a figura chave em um governo De la Espriella seria o seu companheiro de chapa, José Manuel Restrepo, que ganhou maior visibilidade nas últimas semanas da campanha. “Ele tem experiência como ministro do Comércio e Finanças, foi reitor de quatro universidades, sabe administrar”, afirmou.

Também foi destacada a figura de Mauricio Gómez Amín, ex-senador que foi gestor de campanha dos Defensores da Pátria e está sendo promovido como possível ministro do Interior.

Eleições na Colômbia: Quem é Abelardo de la Espriella

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