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Ator de “Heated Rivalry” fez história como 1º atleta trans profissional

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Ator de “Heated Rivalry” fez história como 1º atleta trans profissional

Quando Harrison Browne estava no gelo, havia apenas velocidade, instinto e o ritmo familiar dos patins cortando o chão congelado.

Muito antes de se tornar o primeiro jogador profissional de hóquei abertamente transgênero, e antes de escrever um livro, criar um curta-metragem ou ter um papel coadjuvante na série canadense “Heated Rivalry”, Browne era simplesmente “Brownie” no vestiário. Era um apelido que, por um tempo, lhe serviu de escudo.

“O hóquei era o único lugar onde eu conseguia desligar minha cabeça. O único espaço em que meu corpo não era o inimigo. O que importava era a velocidade dos meus pés. Eu podia simplesmente dizer: ‘Ei, sou o mesmo Brownie — vocês podem usar os pronomes ele/dele?’. E meus companheiros de equipe diziam: ‘Sim, com certeza'”, recordou ele.

No time feminino de hóquei da University of Maine, essa aceitação chegou anos antes de Harrison se assumir publicamente. “Eu vivia uma vida dupla. Eu era Harrison no vestiário. Mas, quando saía em público — meu nome na lista de jogadores não era Harrison. Eu era anunciado com os pronomes ela/dela. Aquilo foi se tornando uma contradição cada vez maior”, contou.

A tensão ficou difícil de ignorar. Tendo experimentado o que era ser reconhecido — mesmo que em um espaço limitado —, ele acabou percebendo que não conseguia mais voltar para o armário toda vez que jogava.

“Eu tive aquele gostinho de ser eu mesmo no vestiário”, disse Browne. “E eu simplesmente soube: é isso que eu preciso.”

Quando Harrison se assumiu publicamente como homem em 2016, enquanto jogava pelo Buffalo Beauts — time profissional feminino de hóquei hoje extinto —, ele se tornou o primeiro atleta abertamente transgênero nas modalidades profissionais coletivas.

Na década seguinte, atletas transgêneros passaram a ser o foco de um debate global crescente sobre equidade, biologia e o próprio significado do esporte. A política em torno do atletismo para crianças, adultos e ligas profissionais mudou — e depois se alterou novamente. Mas, no centro de toda essa intensidade, há um pequeno número de atletas que simplesmente quer praticar os esportes que ama.

Pesquisadores e atletas afirmam que a conversa pública ultrapassou — e frequentemente distorceu — a ciência, deixando atletas como Browne carregarem o peso de uma questão muito mais complexa do que uma opinião impulsiva.

Quando Browne começou a escrever o livro “Let Us Play: Winning the Battle for Gender Diverse Athletes” com sua irmã, a jornalista Rachel Browne, os debates públicos sobre atletas trans estavam se intensificando. “Estávamos vendo essa onda de legislação anti-trans realmente decolar”, disse ele.

Uma reação tão feroz a um pequeno grupo de pessoas fazendo algo percebido como negativo tem todos os sinais de um pânico moral, completou. Após a primeira onda de projetos de lei sobre banheiros separados fracassar (desde então, mais foram aprovados), políticos e outros usaram essa retórica para “deixar as pessoas agitadas em relação aos cidadãos trans — o que distrai de questões mais amplas e mais complicadas de lidar — saúde, pobreza, direitos humanos”, disse ele.

A questão dos hormônios

A antipatia em relação às pessoas trans no esporte se concentrou em uma única ideia: que os hormônios — particularmente a testosterona — determinam o desempenho atlético.

Do ponto de vista de um jogador, Browne vê esse foco como reducionista e enganoso. “Quando nos concentramos tão exclusivamente em um hormônio, estamos ignorando as verdadeiras barreiras à equidade no esporte”, disse.

Treinamento, acesso a treinadores, nutrição, condição socioeconômica — esses fatores moldam os resultados atléticos de forma muito mais consistente do que qualquer variável biológica isolada. “O esporte nunca foi justo”, disse Harrison. “Se fosse, todos teriam a mesma altura e o mesmo acesso a recursos, mas essa simplesmente não é a realidade.”

Mais do que isso, ele teme que reduzir esportistas à fisiologia “desumanize as pessoas”, completou. “Você está falando apenas sobre seus corpos — não sobre suas vidas.” Um conjunto crescente de pesquisas mostra, como disse o ator, que a relação entre biologia e desempenho é muito mais complexa do que um único hormônio criando uma vantagem ou desvantagem na performance.

“O maior equívoco é que a testosterona é uma espécie de droga permanente para melhoria do desempenho e que, uma vez exposto a ela, as vantagens ficam fixadas para sempre”, escreveu Ada Cheung, endocrinologista e especialista em saúde trans da Universidade de Melbourne, na Austrália, em um e-mail.

“As pessoas ouvem ‘puberdade masculina’ e presumem que ela cria um superpoder atlético irreversível”, disse Cheung. “Mas não é isso que a ciência mostra.”

A terapia hormonal de afirmação de gênero, ela explicou, remodela o corpo de maneiras mensuráveis. Em mulheres trans, a supressão da testosterona e a terapia com estrogênio levam ao aumento da massa de gordura e à diminuição da massa muscular magra.

Em homens trans como Browne, a testosterona produz o efeito oposto — aumento da massa muscular magra e diminuição da massa de gordura — embora não na mesma extensão observada em homens cisgêneros, eles acabam em um ponto intermediário. Os efeitos no desempenho não são claros e variam de acordo com o indivíduo.

“A realidade é muito mais matizada do que a narrativa de ‘uma vez homem, sempre em vantagem’ que domina o debate público”, declarou Cheung.

O que a ciência diz sobre atletas trans

Uma metanálise publicada em fevereiro no British Journal of Sports Medicine — abrangendo 52 estudos e mais de 6.400 participantes — constatou que, após um a três anos de terapia hormonal, mulheres trans não apresentaram diferenças significativas em relação a mulheres cisgênero na força da parte superior ou inferior do corpo, nem na aptidão aeróbica.

Embora algumas diferenças na massa magra absoluta tenham permanecido, elas não se traduziram em vantagens de desempenho mensuráveis. As análises mais recentes refletem a nuance descrita por Cheung.

Trabalhos anteriores, incluindo a revisão de Cheung no The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, chegaram a conclusões semelhantes: ao longo do tempo, os principais indicadores de desempenho de mulheres trans se aproximam dos de mulheres cisgênero após a terapia hormonal.

Mesmo no nível molecular, o corpo parece responder de forma dinâmica às mudanças hormonais. Um estudo de 2025 publicado na Nature Medicine descobriu que a terapia hormonal feminizante alterou centenas de proteínas circulantes em mulheres transgênero, remodelando seu perfil biológico em direção ao de mulheres cisgênero em sistemas ligados ao metabolismo, à imunidade e à saúde cardiovascular. Resultados semelhantes foram demonstrados em homens trans.

Esta pesquisa sugere repetidamente que os efeitos fisiológicos da terapia hormonal são contínuos e afetam uma variedade de sistemas do corpo. Com o tempo, tanto homens trans como Harrison, quanto mulheres trans que são atletas apresentam desempenhos mais semelhantes ao de homens e mulheres cisgêneros.

Por isso, não foi uma grande surpresa para os pesquisadores que uma equipe formada por uma pessoa não binária e um homem trans tenha ficado em terceiro lugar na categoria masculina em uma recente competição Ironman em Oceanside, Califórnia.

Questões importantes permanecem em aberto. Grande parte da pesquisa existente é observacional, com amostras relativamente pequenas, poucos estudos longitudinais e dados limitados sobre atletas de elite ou resultados específicos por modalidade esportiva.

“A direção das evidências é consistente. Mas precisamos de estudos mais bem elaborados, particularmente em populações de atletas”, afirmou a especialista. É importante destacar que Cheung escreveu que a composição corporal por si só não determina o desempenho.

“As pessoas veem que mulheres trans podem reter uma massa magra um pouco maior e saltam diretamente para ‘vantagem injusta'”, disse ela. “Mas a massa magra absoluta por si só não dita o que seu corpo é capaz de fazer. Assim como uma mulher maior não necessariamente supera uma menor”.

Massa gordurosa, resistência, níveis de hemoglobina, condicionamento cardiovascular, treinamento, habilidade e acesso a recursos desempenham papéis na determinação do desempenho atlético e de possíveis vantagens ou desvantagens, declarou Cheung.

“A relação entre músculo e desempenho é muito mais complexa do que uma simples equação de mais músculo equivale a mais potência”, afirmou.

Atletas transgêneros são sub-representados nos esportes de elite — um fato que desafia as ideias de dominância fácil e generalizada. Enquanto mais pesquisas são realizadas e os temas são debatidos, atletas não binários, intersexos e trans continuarão a existir e a praticar os esportes que amam.

Ver a si mesmo em seus ídolos

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Protagonistas da série “Heated Rivalry” • Divulgação/HBO Max

A representatividade importa: para atletas mais jovens que vêm atrás dele, a visibilidade de Browne ofereceu algo que muitos nunca tinham visto antes: um caminho.

Carly “CJ” Jackson, jogador de hóquei profissional não binário do Seattle Torrent que aparece no filme “Pink Light”, teve o primeiro contato com sua história à distância. “Ver ele se assumir — isso me deu espaço para me aceitar pelo que sou”, disse Jackson.

Anos depois, suas vidas se cruzariam de maneiras inesperadas. Browne e Jackson haviam jogado pelos mesmos times na Universidade do Maine e, posteriormente, profissionalmente — com apenas alguns anos de diferença e com carreiras que correram em paralelo antes de finalmente se encontrarem nas gravações.

“Penso no impacto que Harrison teve na minha vida”, compartilhou CJ. “E eu sou apenas uma pessoa. Há tantas pessoas que ele jamais conhecerá.” Para muitos atletas transgêneros, o debate sobre justiça é inseparável de uma questão mais básica: quem tem o direito de pertencer ao esporte?

“O esporte é onde as pessoas constroem amizades, aprendem trabalho em equipe e se tornam mais saudáveis”, defendeu Alex Schmider, diretor sênior de entretenimento da GLAAD, uma organização de defesa e monitoramento de mídia LGBTQ.

“Pessoas trans praticam esportes pelos mesmos motivos que todos os outros — e negar esses benefícios é desnecessário e cruel.”

Schmider argumenta que a atual onda de restrições vai além de limitar a participação. “Proibições politicamente motivadas contra atletas trans não apenas os prejudicam, mas também transmitem mensagens imprecisas e prejudiciais sobre quem pertence a esse espaço.”

Mudando corações e mentes

Nos últimos anos, Browne recorreu à narrativa — aparecendo na série de destaque “Heated Rivalry” e escrevendo e produzindo seu curta-metragem, “Pink Light” — como forma de reformular a compreensão sobre as vidas transgêneras.

“A maioria das pessoas diz que não conhece ninguém transgênero em sua vida pessoal”, disse Schmider. “Muitas vezes, a primeira apresentação se dá por meio de personagens na televisão ou no cinema.”

Hóquei tem "dialeto" próprio
Hóquei no gelo tem “dialeto” próprio • Instagram/usahockey

Histórias como “Heated Rivalry” têm sucesso em parte porque retratam atletas não como símbolos, mas como companheiros de equipe — unidos por um amor compartilhado pelo esporte.

“Quando cada jogador e cada torcedor pode ser ele mesmo, todos ganham”, completou Schmider. As políticas parecem caminhar na direção oposta a essa visão.

O marco do Comitê Olímpico Internacional de 2021 avançou em direção a uma abordagem mais baseada em evidências e específica para cada modalidade esportiva em relação à inclusão de pessoas transgêneras. Mas as diretrizes mais recentes, de março de 2026, instauraram um regime de testes generalizado — porém apenas para o esporte feminino.

Ao longo de mais de duas décadas em que mulheres trans foram elegíveis para competir em nível olímpico, apenas uma participou: a levantadora de peso neozelandesa Laurel Hubbard, que não concluiu sua prova.

“Como isso justifica uma proibição generalizada? Não há absolutamente nenhuma prova — e ainda assim estamos vendo as políticas caminharem nessa direção”, continuou Browne.

Rachel, irmã de Harrison, disse que se preocupa com os efeitos secundários. “Tantos esportes tentam se alinhar às políticas olímpicas. E isso reverbera nos níveis amador e juvenil — espaços onde as pessoas deveriam ter mais liberdade para simplesmente jogar.”

Para que servem os esportes?

Muitos atletas dizem que a emoção da vitória não é tão importante para eles quanto a camaradagem e os relacionamentos com os companheiros de equipe. O esporte é uma experiência e uma expressão humana.

“É onde você constrói amizades. É onde você descobre quem você é”, disse Harrison. “Todo mundo merece esse escape.”

Talvez, em vez de ser rígido e binário, o atletismo pudesse ser algo mais amplo e mais humano, como tanto Browne quanto Jackson mencionaram ao pensar no futuro. “O esporte é arte. É autoexpressão. E negar isso é diminuir o que é possível”, finalizou Jackson.

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