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Desmatamento e um futuro perigoso em Lábrea – 9: O significado dos resultados

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)

Por Beatriz Figueiredo Cabral, Aurora Miho Yanai, Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça, Maria Isabel Sobral Escada, Cláudia Maria de Almeida e Philip Martin Fearnside

Nossos resultados revelam uma intensificação significativa do desmatamento nos últimos anos na porção sul de Lábrea, especificamente nas proximidades das estradas secundárias Boi e Jequitibá. Isso contrasta com a porção norte do município, onde se localiza a cidade de Lábrea. Os fatores que impulsionam a consolidação e a expansão do desmatamento nessa região são diversos, abrangendo aspectos como o desmantelamento de políticas ambientais, o aumento de conflitos em áreas rurais, o enfraquecimento da fiscalização ambiental, a grilagem de terras, a extração ilegal de madeira e a proximidade com rodovias [1-5].

Estudos que identificam as relações entre a dinâmica de ocupação e as variáveis econômicas, sociais e ambientais são cruciais para definir ações estratégicas para conter o desmatamento que avança sobre as áreas florestais do município de Lábrea. Um estudo recente, aplicando técnicas Bayesianas, mostrou que a eficácia de medidas anteriores para desacelerar o desmatamento na Amazônia dependia fortemente da adequação dessas medidas aos tipos de atores presentes e ao grau de consolidação de cada área [6]. Estudos futuros devem explorar a relação entre os padrões de desmatamento observados e a ocorrência de incêndios, dada a sua estreita associação [7, 8]. Por fim, o presente estudo no município de Lábrea ilustra que essas variáveis-chave e suas trajetórias podem ser quantificadas por meio de sensoriamento remoto. A aplicação dessas técnicas pode contribuir para a compreensão dos padrões de desmatamento, fornecendo informações valiosas para subsidiar ações políticas voltadas à redução das taxas de desmatamento não apenas na região Pan-Amazônica, composta por oito países, mas também em outras áreas de floresta tropical em todo o mundo.

 

Conclusões

A dinâmica do desmatamento em áreas de fronteira de pecuária no município de Lábrea demonstra que os processos de ocupação e expansão da fronteira de desmatamento não ocorrem de forma uniforme. Identificar diferentes trajetórias de mudança é essencial para o desenvolvimento de ações que visem conter novas ocupações ilegais de terras e o aumento de padrões que mais contribuem para o desmatamento, como os padrões multidirecional e consolidado, que indicam estágios avançados de ocupação. É importante também concentrar esforços em áreas com trajetória de consolidação que, apesar de sua menor frequência, representam a maior área desmatada no município de Lábrea.

As áreas limítrofes de Lábrea, nos estados vizinhos de Rondônia e Acre, consistiam principalmente em áreas com trajetória de consolidação, que apresentaram o maior aumento na perda florestal no período de 2017 a 2021. O crescimento dessa trajetória está relacionado principalmente ao aumento do padrão multidirecional (ou seja, estágio avançado de ocupação). Além dessas trajetórias, foram identificadas zonas de expansão que avançam da porção sul do estado do Amazonas para novas áreas ao norte. Isso é particularmente preocupante para a vasta região Trans-Purus, localizada ao norte e oeste de Lábrea.

Os padrões e trajetórias de mudança no uso da terra indicam como e onde o desmatamento ocorre e permitem identificar os tipos de atores responsáveis por essa dinâmica. Essa técnica pode contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas para a conservação e proteção florestal em toda a Amazônia e em outras regiões tropicais. É necessário fortalecer as áreas protegidas, que demonstraram desempenhar um papel importante no controle do desmatamento. Medidas eficazes para o controle do desmatamento exigem que sejam adaptadas aos tipos de atores e ao grau de consolidação da ocupação. As técnicas desenvolvidas neste estudo podem facilitar a quantificação desses fatores em amplas áreas da Amazônia e de outras regiões tropicais. [9]


Notas

[1] Brito, B.; Barreto, P.; Brandão Jr., A.; Baima, S.; Gomes, P.H. 2019. Stimulus for land grabbing and deforestation in the Brazilian Amazon. Environmental Research Letters, 14(6), art. 064018.

[2] Ferrante, L.; Fearnside, P.M. 2019. O novo presidente do Brasil e “ruralistas” ameaçam o meio ambiente, povos tradicionais da Amazônia e o clima global. Amazônia Real, 30 de julho de 2019.

[3] Azevedo-Ramos, C. Moutinho, P.; Arruda, V.L.S.; Stabile, M.C.C.; Alencar, A.; Castro, I.; Ribeiro, J.P. 2020. Lawless land in no man’s land: The undesignated public forests in the Brazilian Amazon. Land Use Policy, 99, art. 104863.

[4] Vale, M.M.; Berenguer, E.; de Menezes, M.A.; de Castro, E.B.V; de Siqueira, L.P.; Portela, R.C.Q. 2021. The COVID-19 pandemic as an opportunity to weaken environmental protection in Brazil. Biological Conservation, 255, art. 108994. https://doi.org/10.1016/j.biocon.2021.108994

[5] Wenzel, F. 2023. Os cupins da floresta: Com Bolsonaro, Ministério do Meio Ambiente abriu mão de área na Amazônia onde madeireiros derrubam 45 mil caminhões de árvores. The Intercept Brasil, 17 de janeiro de 2023.

[6] Brandão, F.; Befani, B.; Soares-Filho, J.; Rajão, R.; Garcia, E. 2023. How to halt deforestation in the Amazon? A Bayesian process-tracing approach. Land Use Policy, 133, art. 106866.

[7] Silva, C.A.; Santilli, G.; Sano, E.E.; Laneve, G. 2021. Fire occurrences and greenhouse gas emissions from deforestation in the Brazilian Amazon. Remote Sensing, 13(3), art. 376.

[8] Dutra, D.J.; Anderson, L.O.; Fearnside, P.M.; Graça, P.M.L.d.A.; Yanai, A.M.; Dalagnol, R.; Burton, C.; Jones, C.; Betts, R.; Aragão, L.E.O.e.C.d. 2023. Fire dynamics in an emerging deforestation frontier in southwestern Amazonia, Brazil. Fire, 6(1), art. 2.

[9] Esta série traduz o trabalho Cabral, B.F., A.M. Yanai, P.M.L.A. Graça, M.I.S. Escada, C.M. de Almeida & P.M. Fearnside. 2024. Amazon deforestation: A dangerous future indicated by patterns and trajectories in a hotspot of forest destruction in Brazil. Journal of Environmental Management 354:art. 120354.


Sobre os autores

Beatriz Figueiredo Cabral possui graduação em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Lavras e mestrado em Ciências de Florestas Tropicais (CFT) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Atualmente é doutoranda em CFT no INPA, onde desenvolva uma tese sobre “Projeções para a Expansão da Fronteira Amazônica: Simulação do Desmatamento e da Degradação Florestal sob Futuros Cenários Climáticos”. Ela tem experiência em análise e manipulação de dados de sensoriamento remoto, sistemas de informação geográfica, programação nas linguagens R e Python e simulação do desmatamento no software Dinamica-EGO para análises espaço-temporais na Amazônia.

Aurora Miho Yanai é engenheira florestal pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e tem mestrado e doutorado pelo Inpa em ciências de florestas tropicais. Atualmente é pesquisadora no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), onde ela continua suas pesquisas iniciadas como pós-doutoranda no mesmo instituto trabalhando com modelagem de desmatamento na região Trans-Purus. Ela tem experiência na análise e modelagem de desmatamento no sul do Amazonas.

Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça é doutor pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ele tem mestrado em ciências florestais pela Universidade de São Paulo, (USP-Esalq) e graduação em Engenharia Florestal pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Ele é pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), atuando junto ao laboratório de agroecossistemas. Ele tem publicado artigos sobre mapeamento de exploração madeireira utilizando técnicas de sensoriamento remoto, modelagem espacial do uso da terra, impacto do desmatamento, e eficiência de queima de biomassa florestal, entre outros.

Maria Isabel Sobral Escada possui doutorado e mestrado em sensoriamento remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e graduação em ecologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Ela é pesquisadora na Divisão de Observação da Terra e Geoinformática da Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), São José dos Campos, São Paulo. Ela atua nos seguintes temas: monitoramento de floresta por satélite, análise da paisagem e de padrões e processos mudança de uso da terra com técnicas de processamento de imagens, mineração de dados e análise espacial, técnicas aplicadas a estudos sobre degradação florestal, desmatamento, regeneração, atividades econômicas associadas ao uso e cobertura da terra e saúde.

Cláudia Maria de Almeida possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – USP, Mestrado em Infrastructure Planning pelo Centre for Infrastructure Planning, Universität Stuttgart, Alemanha, e Doutorado em Sensoriamento Remoto pela University College London, Inglaterra / Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Tem experiência na área de Sensoriamento Remoto aplicado ao Planejamento Urbano e Regional, com ênfase em Técnicas de Previsão e Avaliação Urbana e Regional, atuando principalmente nos seguintes temas: Modelagem Dinâmica Espacial, Modelos de Autômatos Celulares, Sensoriamento Remoto de Alta Resolução Espacial, Análise de Imagens Baseada em Objeto e Geoinformação.

Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador 1A de CNPq. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 850 publicações científicas e mais de 850 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis aqui.


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