Foto: Marcio Nagano
Um refúgio de vida humana e silvestre no município de Capitão Poço, no nordeste do Pará, abriga um marco para a ciência regional: a primeira torre de monitoramento climático instalada em uma floresta secundária na Amazônia. Instalada em 2026, a estrutura de 20 metros de altura monitora a área de 56 hectares, que se tornou um laboratório vivo e estratégico para ações que ajudam na mitigação dos impactos climáticos no estado, ao criar corredores ecológicos, proteger o solo contra a erosão e regular o ciclo da água, aumentando sensivelmente a resiliência do ecossistema local.
Capoeiras são florestas secundárias que se regeneram de forma natural após uma área sofrer desmatamento, queimada ou uso agrícola. Funcionam como o próprio sistema de cicatrização da Amazônia, onde a natureza recupera sua força e brota novamente a partir do solo.
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Para entender como o território alcançou esse patamar, é preciso voltar pouco mais de 30 anos no tempo e conhecer a história de um guardião da floresta de passos largos e firmes, moldados por mais de nove décadas de intimidade com a terra. Manoel Geraldo de Carvalho, mais conhecido como seu Duquinha, tem uma grandiosidade inversamente proporcional ao seu tamanho físico. Essa grandeza se reflete na missão escolhida por ele mesmo para a sua vida e para os filhos, netos, bisnetos, que formam mais de 200 pessoas na sua linha de sucessão: a de parar de desmatar e começar a proteger.
Onde os olhos de quem passava pelo local enxergavam uma área de roçado e a pele sentia a atmosfera nublada de fumaça devido às queimadas, agora é possível experimentar um clima refrigerado ao caminhar por entre as árvores. O riacho que não mais vingava voltou a ser uma nascente depois do plantio de cerca de 30 mil mudas, entre castanheiras, jatobás e outras árvores frutíferas, como piquiás e bacurizeiros.
“Quando a gente chegou aqui, fazia tempo que aquele riachinho que é nascente não segurava; secava. A mata ciliar* estava muito degradada, então fomos fazendo a restauração. Hoje já está com um bom tempo que ele não seca”, lembra seu Duquinha, ao lado da esposa, Luiza Bezerra, sua companheira de jornada há 66 anos e com quem construiu a numerosa descendência.
*Mata ciliar: vegetação nativa que fica às margens de rios, lagos, nascentes e represas, funcionando como uma proteção para os cursos d’água.

Para dona Luiza, o sítio que o casal ergueu junto é um privilégio nos dias de hoje, um verdadeiro oásis que vai contra a corrente do desmatamento. O orgulho pelo chão protegido só compete com o tamanho do amor pela família que ajudou a criar – e da qual ela faz questão de listar, de cabeça e num fôlego só, os nomes de batismo dos filhos, numa rima afetuosa que revela a força dessa espécie de clã familiar.
“Me sinto feliz demais, porque hoje em dia para se achar um lugar como esse é raro, porque em todo canto o pessoal só pensa em desmatar, em fazer roçado, fazer capinzal”, emociona-se dona Luiza.
Sobre a prole, ela faz questão de dizer os nomes: “Geraldo, Genaldo, Genário, Genadio, Genebaldo, Gesseraldo, Genivaldo, Marilene, Margarete, Marizete e Laína. E o Igor, que é neto, mas nós criamos e são nossos filhos, é nosso filho”, orgulha-se a matriarca.
A mesma motivação é compartilhada pelo patriarca, que sempre quis garantir como herança às próximas gerações uma floresta com vida, e não uma terra de cinzas. A colheita desse plantio pode ser vista correndo e voando pela área: cutias, veados, guaribas, ou macacos bugios, além de diversos pássaros, agora dividem o terreno com essa família.
Os macacos-bugio (ou guaribas) são considerados um dos maiores primatas das Américas e são famosos por sua forte vocalização. Seus gritos ecoam em grupo ao amanhecer ou ao anoitecer e podem ser ouvidos a até cinco quilômetros de distância. Na ciência, a presença e o canto deles são fortes indicativos de que a floresta está saudável.
“Boa Vida, Farinha Acabou e Paciência”
A ligação de seu Duquinha com a terra começou muito antes – ele fincou raízes nas proximidades quando Capitão Poço sequer existia como município. Ainda na infância, ele deixou a vizinha Ourém – uma das vilas mais antigas da região nordeste – para acompanhar o pai e os tios em uma jornada que mudaria o destino da família.
O que começou como uma temporada de caça nas matas da comunidade de Nova Colônia precedia, na verdade, uma nova vida. Ao decidirem se mudar definitivamente para a mata, os pioneiros lotearam os terrenos vizinhos. Com o mesmo humor e simplicidade com que seu Duquinha se apropriou para resgatar essas memórias, batizaram os sítios, de acordo com o que o momento oferecia.
“Dormindo no mato, meu pai e meus dois tios falaram: ‘vamos se mudar para cá’. Naquele dia, tinha acabado a farinha do acampamento e a gente tinha que ir embora. Aí o tio mais velho disse: ‘o meu terreno vai ser esse aqui e vai se chamar Boa Vida’. O outro tio disse: ‘o meu vai ser abaixo do seu e vai ser Farinha Acabou’, porque a farinha tinha acabado mesmo. Aí o papai escolheu o dele logo abaixo e meu tio disse para ele: ‘o seu vai ser Paciência’. Ficou Boa Vida, Farinha Acabou e Paciência”, e foram as três primeiras casas feitas em Nova Colônia, recorda seu Duquinha.
Anos depois, durante outra caçada em que se perdeu na mata, o jovem Duquinha acabou dormindo exatamente no local onde hoje pulsa a cidade de Capitão Poço. Foi naquele mesmo chão onde passou a noite perdido que ele, após o casamento, fincou sua primeira casa e viu seus filhos nascerem, antes de finalmente se mudar para a área que protege até hoje.
Do serviço público a um chamado familiar
Antes de se tornar uma referência em conservação, a trajetória de seu Duquinha cruzou caminhos que moldaram a sua visão de mundo. O homem que hoje cuida da terra e ainda olha por seus familiares já foi o responsável por registrar e documentar a vida de milhares de pessoas na região.
Alfabetizado por meio de uma escola radiofônica e, posteriormente, finalizado o ensino médio, ele ingressou no serviço público e atuou como escrivão de polícia em Capitão Poço e Ourém. Pela Secretaria de Segurança Pública (SEGUP), viajou por diversas colônias emitindo carteiras de identidade e de trabalho, além de ter liderado a comunidade local como presidente de cooperativa.
O apego com o cultivo sempre esteve ali, desde os tempos em que plantava arroz, milho e pimenta para sustentar a família. Foi plantando e vendendo malva que ele garantiu o enxoval do casamento com a companheira que ele orgulhosamente chama de “a mulher mais bonita do mundo”. No entanto, o plano de transformar a antiga área de roçado em um refúgio verde ganhou um propósito definitivo graças a um dos seus 12 filhos, o padre Geraldo, que atende pela alcunha de “Gerê”.
Capoeira vs. SAF: Qual é a diferença?
Capoeira (Regeneração Natural): É a floresta que nasce inteiramente sozinha após o abandono de uma área de pasto ou roçado. A própria natureza se encarrega de cicatrizar a terra, trazendo de volta as espécies nativas ao longo dos anos, de forma espontânea e sem um objetivo econômico direto ou foco na produção de alimentos.
SAF (Sistema Agroflorestal): É uma floresta planejada, assistida e manejada pela ação humana. Em vez de apostar em uma única cultura (monocultura), o agricultor combina intencionalmente árvores nativas com plantas alimentícias e comerciais (como cacau, açaí, banana e essências florestais), unindo a restauração ecológica do solo com a geração de renda para as famílias do campo.
A guinada para a recuperação da área
Foi o filho sacerdote quem teve o estalo de mudança e incentivou o pai a parar de desmatar e focar na preservação daquela área, dando início ao projeto que hoje une a sabedoria do patriarca à tecnologia da torre de monitoramento climatico. Essa é uma das principais frentes de estudo do Centro Avançado em Pesquisas Socioecológicas para a Recuperação Ambiental da Amazônia (Capoeira) em conjunto com o projeto Enabling large-scale and climate-resilient forest restoration in the Eastern Amazon, do Global Centre on Biodiversity for Climate (GCBC). A iniciativa voltada para a recuperação de ecossistemas desmatados e degradados no bioma amazônico é coordenada pela Embrapa, sediada no Pará e integra mais de 180 pesquisadores de 33 instituições.
Mais do que um legado para o futuro da região, os 56 hectares (área equivalente, aproximadamente, ao tamanho do Parque da Cidade, em Belém) de floresta representam a herança material e espiritual que seu Duquinha deixa para os seus. Consciente do peso dos anos, o agricultor faz questão de lembrar os filhos e filhas de que a missão não termina com ele. Na verdade, perpetuar esse pensamento de conservação é o verdadeiro sentido de tudo o que foi construído, já que a terra passará de geração em geração, e que a responsabilidade de manter a floresta de pé é o que garante a continuidade da própria família naquele território.
“O prazer que eu tenho é de, aos 93 anos, estar mostrando para vocês o que eu fiz na minha vida, o que eu preservei. Eu desmatei, mas depois preservei, plantei, recuperei. O que eu construí hoje estou aqui mostrando para vocês”, compartilha.
O patriarca também reforça a continuidade do seu trabalho pelas novas gerações. “Sigam esse meu exemplo. Agora vocês já são técnicos, são doutores no assunto, são formados. Tomem conta disso e levem para frente, passem a mensagem”.
Ao ser questionado se toda uma vida dedicada a esse chão valeu a pena, seu Duquinha não hesita. Com o olhar de quem enxerga décadas à frente, ele resume o valor de sua obra na certeza de que aquele refúgio será, para sempre, uma memória viva da Amazônia, além de um lugar de acolhimento para a sua imensa linhagem e uma lição para as próximas gerações do mundo. “Quando vierem os seus netos que não conhecerem mata, aí vocês vêm aqui e a gente mostra a mata para eles”, finaliza o guardião.
Bióloga tem nas árvores da infância seu objeto de estudo

Aquele ditado “a palavra convence; o exemplo arrasta” nunca fez tanto sentido como na família de seu Duquinha e dona Luiza. As escolhas do casal não apenas moldaram uma parte da paisagem de Capitão Poço, mas também definiram o destino profissional da geração seguinte da família.
Criada pelos avós desde o nascimento como uma filha, a bióloga Laína Carvalho, de 33 anos, cresceu correndo entre as árvores da propriedade, batizada de Reserva Ecológica São Geraldo Magela. Esse contato precoce com a terra guiou a direção de seus passos: hoje, ela é doutoranda em Ciências Florestais pela Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) e estuda justamente o ecossistema que a viu crescer.
“Eu sempre tive vontade de fazer alguma coisa que trouxesse retorno à reserva”, conta Laína. Se seu Duquinha aprendeu a recuperar a floresta na prática, agora no doutorado, Laína dedica seus dias a decifrar a matemática desse processo através da ecologia. Sua pesquisa foca em quantificar a capacidade da floresta de produzir e armazenar sua própria energia nas famosas capoeiras, buscando entender como essas áreas gerenciam sua energia em tempos de extremos climáticos, como secas severas ou chuvas concentradas.
“A planta recebe energia pela fotossíntese. Parte dela usa para crescer e se recuperar, e a energia que sobra é distribuída para o tronco, folhas e raízes. Meu trabalho é entender como essa distribuição acontece ao longo dos anos. Analiso desde capoeiras jovens até mais antigas, de 15 até 60 anos, incluindo a floresta primária intacta, onde o Centro Capoeira instalou, recentemente, outra torre de monitoramento”, explica a pesquisadora.
Para medir essa engrenagem viva, a cientista não olha apenas para o topo da torre, mas para o que cai no chão. A metodologia envolve coletar e analisar a “serrapilheira”, uma camada de folhas, galhos e frutos que cobre o solo, além de calcular até mesmo a perda de energia provocada por insetos que se alimentam das folhas (a herbivoria).
Esse monitoramento minucioso do funcionamento da floresta ajuda a prever como a natureza reage para sobreviver. Para Laína, ao identificar os momentos de seca em que a floresta investe mais energia para esticar as raízes em busca de água profunda, ou aqueles em que derruba as folhas para não desidratar, se torna possível criar estratégias melhores de conservação.
“As florestas primárias estão se perdendo com muita frequência. Precisamos proteger as secundárias, que se regeneram sozinhas e são fundamentais para estocar carbono, regular as chuvas e frear as mudanças climáticas que já estamos sentindo na pele”, defende Laína.
Duas torres, duas florestas: a ciência que olha o céu e o chão
Para dar conta de monitorar um ciclo de vida tão complexo, que vai das capoeiras mais jovens à mata mais antiga, a pesquisa de Laína conta com um reforço de peso em outra área: uma segunda torre de monitoramento ainda maior, com 40 metros de altura, foi instalada em uma floresta primária localizada dentro de um sítio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuária e da Pesca (Sedap) em Capitão Poço.
Enquanto a primeira estrutura acompanha a regeneração da capoeira, a torre maior vigia um fragmento de 500 hectares de floresta primária intacta, uma área equivalente a 500 campos de futebol de mata nativa que serve de espelho para a ciência e torna possível monitorar por cima das copas das árvores mais altas da região. É nessa intersecção entre a floresta que se regenera e a que permaneceu de pé que a bióloga caminha ao lado do seu co-orientador de doutorado, o pesquisador Fernando Elias da Silva – Museu Paraense Emílio Goeldi.

Doutor em Ecologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Fernando é especialista em restauração florestal e estuda justamente o impacto humano nas florestas – como os danos causados pelo fogo e pelo corte seletivo de madeira, além de pesquisar áreas desmatadas que hoje passam por regeneração natural ou restauração ativa, incluindo experimentos com semeadura direta no Pará e no Mato Grosso.
A estrutura de 40 metros que hoje se sobrepõe à copa das árvores nasceu de um projeto coordenado por ele, financiado pelo Instituto Serrapilheira e desenvolvido em colaboração com o professor doutor Divino Silvério – Ufra, cujo grupo de pesquisa lidera os estudos na região de Capitão Poço. Inicialmente desenhada de forma independente, a iniciativa científica ganhou ainda mais corpo ao ser incorporada ao grande guarda-chuva que hoje é o Centro Capoeira.
De acordo com Fernando, o coração do projeto bate na defesa e na compreensão das florestas secundárias – aquelas áreas que, após sofrerem desmatamento para dar lugar a pastagens ou à agricultura, acabaram abandonadas e iniciaram um processo de regeneração natural.
O pesquisador explica que essas capoeiras prestam um serviço ambiental inestimável para o planeta, atuando diretamente na recuperação da biodiversidade local e oferecendo serviços ecossistêmicos cruciais, como a regulação do clima e o acúmulo de carbono, funcionando como verdadeiras esponjas que absorvem gases de efeito estufa. É justamente para medir a precisão e a velocidade dessa engrenagem invisível da natureza que as torres de monitoramento entram em cena no território.
“Bomba biótica”: como as florestas regulam o clima na prática
Para decifrar o mecanismo invisível que faz a floresta funcionar como um ar-condicionado natural do planeta, as duas estruturas receberão uma série de sensores microclimáticos instalados em diferentes alturas ao longo das torres. Esses aparelhos vão medir em tempo real variáveis como a umidade e a temperatura da superfície, do ar e do solo. O objetivo é visualizar e quantificar a capacidade real que a floresta tem de resfriar a paisagem através da reciclagem de água, um processo conhecido na ciência como “bomba biótica”, onde as árvores bombeiam água do solo para a atmosfera, regulando o clima.
Quando a mata original é derrubada para virar pasto ou roça, esse serviço ambiental é completamente perdido. No entanto, a Amazônia possui hoje uma estimativa de 15,9 milhões de hectares de florestas secundárias. O grande mistério que a pesquisa busca compreender é como, e em que velocidade, essas capoeiras em regeneração conseguem restaurar a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos que foram apagados pelo desmatamento.
“A ideia é comparar uma capoeira de 30 anos e uma floresta primária. A partir desses dados coletados no campo, aqui na floresta, a gente vai conseguir ajustar com dados já coletados pelo sensoriamento remoto e fazer uma extrapolação para todas as florestas da Amazônia”, projeta o pesquisador Fernando.
Até hoje, a ciência não dispunha de dados específicos sobre esse processo nessa porção do território. A escolha de Capitão Poço como laboratório vivo desse estudo não foi por acaso: o Nordeste Paraense é uma região de colonização antiga, marcada por sucessivos ciclos de uso da terra e desmatamento crônico. A facilidade logística pela proximidade com Belém, somada à presença de cientistas locais como o professor Divino Silvério – especialista em clima -, transformou a Reserva São Geraldo Magela no ponto zero para desvendar o futuro climático da região.

Embora a Amazônia já conte com outras torres de monitoramento em florestas primárias, a grande inovação do projeto está na base. “Torres em florestas maduras existem várias na região, mas para a capoeira, esta é a primeira”, destaca Fernando. Enquanto ele lidera o monitoramento da diversidade da vegetação lenhosa e o professor Divino Silvério comanda a análise climática, o estudo investiga o que a floresta guarda de biodiversidade e o quanto ela ganha de carbono ao longo do tempo.
Na mata preservada, o trabalho de campo se ancora em parcelas de monitoramento de 0,25 hectares instaladas logo no início da floresta, algumas delas acompanhadas de perto pelos cientistas desde 1999. Ali, o inventário florestal acompanha o desenvolvimento de espécies imponentes como massarandubas, jutaís, breus e jatobás, além de palmeiras nativas.
A vida que pulsa sob as copas também é alvo de investigação minuciosa. O Centro Capoeira, em parceria com o GCBC, estendeu o olhar científico para os insetos através de armadilhas do tipo malaise (estruturas especiais para a captura de abelhas e polinizadores), sob a coordenação do professor doutor José Correia Neto, entomólogo (biólogo especializado no estudo de insetos) do Centro.
Devido a esse histórico severo de uso da terra, a mata local estoca menos carbono e abriga uma diversidade de fauna e flora menor quando comparada ao Oeste da Amazônia. “Mas em um raio de 500 quilômetros ao redor, você não encontra um fragmento melhor que esse. Já estamos no melhor cenário possível”, pontua o pesquisador, ressaltando o apoio logístico fundamental da Sedap, que fornece tratores para viabilizar o difícil acesso à área.
Para que os resultados ganhem robustez, a torre de 40 metros (quase o tamanho da Estátua da Liberdade, nos Estados Unidos, e maior que o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro) é equipada com pelo menos 10 sensores de alta precisão e precisará operar por, no mínimo, um ano.
“Precisamos dessas medidas tanto na estação seca quanto na chuvosa. O clima é extremamente volátil e sofre muita alteração ao longo do ano, por isso precisamos de 12 meses consecutivos de dados para ter um recorte seguro de comparação”, explica Fernando.
O período ajudará a quantificar em números o que a pele já sente na prática ao cruzar a fronteira entre as duas matas: o microclima da floresta primária é visivelmente mais agradável e fresco do que o de uma capoeira, embora a vegetação secundária já represente um alívio térmico gigantesco frente a uma área de solo nu. Segundo os pesquisadores, análises preliminares indicam que áreas florestadas podem apresentar temperaturas entre 2 °C e 3 °C mais baixas do que ambientes desmatados ou com pouca cobertura vegetal, reforçando o papel da floresta na regulação térmica da paisagem.
No fim das contas, a engenharia climática das capoeiras joga luz sobre uma urgência ainda maior: a proteção irrestrita dos santuários que nos restam. “Nós trabalhamos com restauração e com regeneração natural porque sabemos o papel que essas florestas secundárias desempenham na biodiversidade e nos serviços climáticos. Mas as florestas primárias, as matas não perturbadas, são imprescindíveis na paisagem. Elas são insubstituíveis”, defende o cientista.
Para o grupo de pesquisa, reforçar a manutenção dessas áreas de pé é a única garantia de sobrevivência regional. “Temos que evitar o desmatamento ao máximo para garantir a regulação climática e a biodiversidade pulsando. Isso tudo é perdido, de forma irreversível, quando se desmata”, conclui Fernando.
Física da floresta: o balanço de energia e o efeito ar-condicionado
Para decifrar a engrenagem climática que opera sob as copas, a pesquisa ganha o reforço da física aplicada com o professor doutor Divino Silvério. Natural de Mato Grosso e radicado no Pará há seis anos, onde atua diretamente em Capitão Poço, Divino estuda a Amazônia há mais de uma década.
Se o foco de Fernando Elias está na contabilidade do carbono e da diversidade de plantas, o de Divino está na atmosfera: ele quer entender a velocidade com que uma capoeira recupera a capacidade original que a floresta tem de moderar o clima. Afinal, a regeneração natural via florestas secundárias é um dos meios de restauração ecológica mais eficientes e de menor custo que existem no planeta, mas a ciência ainda carece de respostas sobre o tempo que essa ferida leva para cicatrizar do ponto de vista térmico.
O coração do monitoramento está no que os dois cientistas chamam de balanço de energia. Divino lembra, novamente: a principal fonte de força da Amazônia é o sol, que despeja diariamente uma quantidade massiva de radiação sobre as copas. Ele explica que em uma floresta primária intacta, a maior parte dessa energia solar é retida e consumida pelas próprias árvores para transformar a água do solo em vapor (o processo de evapotranspiração). Esse consumo de energia para produzir vapor d’água gera um efeito resfriador local imediato.
“Por isso, quando entramos na floresta, a temperatura está muito mais amena. A floresta usa essa energia do sol a seu favor, funcionando como um verdadeiro ar-condicionado natural”, explica Divino.
Quando a floresta é derrubada e convertida em pastagem ou agricultura anual, a perda desse serviço ambiental é drástica. Sem a cobertura vegetal para processar a radiação, a energia solar que sobra incide diretamente sobre o solo nu, provocando um superaquecimento da terra e do ar. Dados de estudos anteriores coordenados pelo pesquisador mostram que o desmatamento reduz em até 30% a ciclagem de água por evapotranspiração na região. O resultado prático na paisagem é severo: a temperatura média da superfície pode subir mais de 5 °C ao longo do ano, tornando o clima local muito mais seco e desafiador.
Do chão ao espaço: calibrando satélites para toda a Amazônia
A grande virada de chave do experimento em Capitão Poço é descobrir onde as capoeiras se encaixam nesse balanço térmico. “Sabemos que há uma diferença considerável na forma como uma floresta primária e uma área de pastagem geram o ciclo da água e da energia. O que estamos tentando entender com as capoeiras é como ocorre a recuperação desta capacidade de produzir vapor de água e manter a temperatura local amena”, aponta Divino. Os sensores de alta tecnologia instalados nas duas estruturas vão gerar, pela primeira vez na região, dados reais e contínuos de campo para desvendar esse mistério.
A relevância dessas medições locais deve ultrapassar as fronteiras do nordeste paraense. Atualmente, a ciência utiliza produtos de sensoriamento remoto (dados de satélite) para estimar o clima e a umidade na Amazônia, mas ainda não há certeza se esses modelos matemáticos funcionam com precisão quando aplicados às florestas secundárias. Ao cruzar as informações coletadas no chão com as imagens que vêm do espaço, a equipe do Centro Capoeira conseguirá calibrar os produtos de satélite, permitindo fazer inferências climáticas precisas para toda a extensão da bacia amazônica.
Essa calibração é crucial para o futuro da região e do país. A capacidade da Amazônia de ciclar chuva e transportar grandes massas de umidade para outras regiões do Brasil é o que garante a estabilidade das estações chuvosas e, consequentemente, a pujança da própria produção agrícola nacional.
No centro dessa engrenagem, a união entre a física do clima de Divino e a biologia da vegetação de Fernando tenta responder a uma pergunta fundamental: será que a água, a energia e o carbono andam juntos no relógio do tempo? “Queremos entender o que se recupera primeiro em uma floresta secundária. É uma colaboração para integrar os dados existentes e começar a responder a essas perguntas”, conclui Divino.
A reportagem é fruto de uma colaboração entre o Amazônia Vox e o Centro Avançado em Pesquisas Socioecológicas para a Recuperação Ambiental (Capoeira), que tem atuação efetiva na Amazônia. O Centro Capoeira é coordenado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e tem apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Amazônia Vox, escrito por Natália Mello, com revisão de Carla Fischer e imagens de Marcio Nagano
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