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Bioeconomia: a floresta precisa gerar riqueza — mas para quem?

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Bioeconomia: a floresta precisa gerar riqueza — mas para quem?

Arte: Divulgação

Por Olímpio Guarany

A palavra bioeconomia ganhou força no debate sobre a Amazônia. Tornou-se presença constante nos discursos políticos, nas conferências climáticas e nas promessas de um novo modelo de desenvolvimento para a região. Na COP de Belém, voltou ao centro das discussões como uma possível resposta ao velho dilema amazônico: conservar a floresta e, ao mesmo tempo, gerar prosperidade para quem nela vive.

Mas existe uma pergunta anterior a qualquer conceito sofisticado ou discurso bem-intencionado: bioeconomia para quem?

Como amazônida, economista, jornalista e alguém que navegou por dois anos os rios da Amazônia — desde a foz do grande rio até a Amazônia peruana e equatoriana, alcançando o rio Napo, próximo aos Andes — aprendi uma lição simples: nenhuma proposta para a região terá sentido se não alcançar os povos da floresta.

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Recentemente, durante a gravação dos meus programas na CBN Amazônia e na Rede Amazon Sat, acompanhei em Macapá o encerramento do projeto Nossa Terra, Nossas Aldeias, promovido pelo Instituto Iepé, reunindo experiências de comunidades indígenas do norte do Amapá e do Pará. O encontro trouxe um debate que considero essencial: como transformar a floresta em fonte de renda sem destruir aquilo que a mantém viva?

A coordenadora do Programa Oiapoque do Instituto Iepé, Tereza Arari, apresentou um conceito que merece atenção: a sociobioeconomia. Mais do que comercializar produtos da floresta, trata-se de reconhecer o conhecimento ancestral existente nos territórios indígenas — formas próprias de manejo, respeito aos ciclos naturais e práticas de produção que não enxergam a floresta apenas como ativo econômico.

No caso do açaí, por exemplo, não se trata simplesmente de extração comercial. Há conhecimento tradicional, formas específicas de manejo e uma lógica produtiva que busca manter o equilíbrio do ambiente. Em vez da monocultura e da exploração intensiva, prevalecem a diversidade e o respeito aos tempos da natureza.

Isso não significa romantizar a pobreza ou defender isolamento econômico. Os povos indígenas também querem renda, qualidade de vida, acesso a mercado, educação e oportunidades para seus filhos — e têm toda razão.

A questão central é outra: que modelo de prosperidade queremos construir na Amazônia?

Bioeconomia: a floresta precisa gerar riqueza... mas para quem?
Às margens do rio Arapiuns, no oeste do Pará, durante a expedição que percorreu a Amazônia até os Andes. A convivência com comunidades ribeirinhas revelou que a floresta não é apenas um patrimônio ambiental, mas também um espaço de vida, cultura e produção de conhecimento. Foto: Olimpio Guarani/Acervo pessoal

Durante minha travessia pela bacia amazônica, convivendo com indígenas, quilombolas e ribeirinhos, percebi algo que muitas vezes escapa aos grandes centros de decisão: a floresta nunca foi improdutiva. Seus povos sempre produziram riqueza, ainda que fora da lógica convencional da economia industrial. O problema histórico da Amazônia talvez nunca tenha sido a ausência de riqueza, mas a incapacidade de fazê-la permanecer onde é gerada.

A fala da liderança indígena Mitoli Cachoana, da Terra Indígena Tumucumaque, ajuda a compreender a dimensão do desafio. Em pleno século XXI, comunidades ainda enfrentam dificuldades de acesso à saúde, educação e assistência pública, muitas vezes dependendo exclusivamente de pequenas aeronaves para conexão com o restante do país.

Essa realidade impõe uma reflexão inevitável: não haverá bioeconomia consistente sem inclusão territorial e infraestrutura mínima para os povos da floresta.

A Amazônia precisa, sim, de alternativas econômicas sustentáveis. Precisa gerar renda, agregar valor aos produtos da sociobiodiversidade e criar oportunidades. Mas seria um erro repetir a velha lógica histórica em que riqueza sai da floresta enquanto seus povos permanecem pobres.

A floresta em pé só fará sentido como projeto econômico se também mantiver de pé a dignidade de quem vive nela.
Se indígenas, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas não forem protagonistas desse processo, a bioeconomia correrá o risco de se transformar apenas em mais uma palavra bonita nos documentos internacionais — distante da Amazônia real.

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Sobre o autor

Olimpio Guarany é jornalista, documentarista e professor universitário. Realizou expedição histórica, navegando o rio Amazonas, desde a foz até o rio Napo (Peru), por onde atingiu o sopé da cordilheira dos Andes (Equador) no período 2020-2022 refazendo a saga de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia (1637-1639). A expedição deu origem ao livro ‘A Nova Conquista da Amazônia’. É apresentador do programa Amazônia em Pauta no canal Amazon Sat.

*O conteúdo é responsabilidade do colunista

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