O senador Jaques Wagner (PT-BA) e sua mulher, Maria de Fátima Carneiro de Mendonça, visitaram em outubro de 2023 a Ilha da Paixão, associada a Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master, segundo investigadores da PF (Polícia Federal).
A informação foi incluída em relatório da PF sobre Jaques Wagner, alvo da corporação na operação Compliance Zero. O documento reúne mensagens, registros de voo e fotografias extraídas de aparelhos celulares apreendidos. Nesta 5ª feira (30.jul.2026), o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, tornou pública a investigação ao senador. Leia a íntegra da decisão que autorizou o monitoramento do celular do senador (PDF – 19 MB).
Em 11 de outubro de 2023, Wagner enviou um áudio a Augusto Lima informando que ele e a mulher haviam aceitado um convite para o sábado seguinte.
“Bom dia, Guga. Tudo indica que Fatinha topa ir no sábado. Aí a gente combina mais pra frente, abraço”, disse o senador.
Dois dias depois, Augusto encaminhou a Wagner o prefixo de uma aeronave e o horário do deslocamento. Para a PF, a sequência indica que o voo tinha como destino a Ilha da Paixão.
O número de matrícula da aeronave enviado por Lima a Wagner é, segundo consta em base da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), de um helicóptero de modelo Bell Helicopter 206L-4 de propriedade da RG8 Táxi Aéreo LTDA. No site Jetphotos, que agrega fotografias de aviões e helicópteros de todo o mundo, consta uma imagem do modelo (veja aqui). De acordo com a página, a foto foi tirada no Aeroporto Internacional Deputado Luís Eduardo Magalhães, em Salvador.
A inferência também se apoia em fotografias e mensagens publicadas no grupo de WhatsApp “Família Brahia”, formado majoritariamente por parentes de Lima e de sua mulher.
Os registros mostram integrantes das famílias reunidos no local. Depois do fim de semana, o contato identificado como “Fatima JAQUES” –que segundo a PF se trata da mulher do senador Jaques Wagner– enviou agradecimentos a Lima e escreveu: “A gente ama vcs”. Ele respondeu: “Amamos vocês!! Bj no coração”.
A ilha, segundo a PF, estava sob posse e controle de Augusto Ferreira Lima, embora não constasse formalmente em seu nome. Augusto foi sócio de Daniel Vorcaro no banco e é apontado pelos investigadores como um dos gestores envolvidos no esquema apurado pela Compliance Zero. O relatório afirma que ele exercia sobre a ilha poderes típicos de uso, fruição e disposição.
De acordo com o relatório, o empresário e Wagner se comunicavam frequentemente e demonstravam “afeto” um pelo outro.
O Poder360 procurou o senador Jaques Wagner e também a assessoria de Augusto Lima, para perguntar se gostariam de se manifestar a respeito das citações no relatório da PF. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso uma manifestação seja enviada a este jornal digital.
COMPLIANCE ZERO
As apurações sobre as fraudes no Banco Master estão no escopo da Compliance Zero, autorizada inicialmente pela 10ª Vara Federal de Brasília em novembro de 2025. A 1ª fase prendeu provisoriamente os principais executivos ligados à instituição liquidada pelo BC. Ainda em novembro, o TRF-1 autorizou o uso de tornozeleira eletrônica e o retorno dos investigados para casa.
O caso passou a tramitar no STF a partir de dezembro de 2025, sob o comando do ministro Dias Toffoli. Ele autorizou a 2ª fase em janeiro de 2026, mas deixou a relatoria em 12 de fevereiro. André Mendonça assumiu. Vorcaro voltou a ser preso no início de março. Está detido na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Ele entregou uma proposta de delação premiada, cuja análise por parte do ministro do Supremo deve levar semanas.
Eis as fases da operação:
- 1ª fase (18.nov.2025) – Daniel Vorcaro foi preso pela 1ª vez em 17 de novembro de 2025, um dia antes de a operação ser deflagrada. Ele tentava deixar o Brasil. A ação cumpriu 7 mandados de prisão e 25 de busca e apreensão em 4 Estados e no DF. O ex-banqueiro foi solto em 29 de novembro;
- 2ª fase (14.jan.2026) – a PF realizou buscas em endereços ligados a Vorcaro. Foram apreendidos carros, relógios e dinheiro. Os valores bloqueados ou sequestrados na ação superaram R$ 5,7 bilhões. Tinha o objetivo de apurar o uso de fundos fraudulentos para maquiar os caixas do Master. Leia as íntegras das decisões que autorizaram a operação;
- 3ª fase (4.mar.2026) – Vorcaro voltou a ser preso. De acordo com a PF, o ex-banqueiro tinha um grupo que intimidava adversários e pagava propina para 2 funcionários do BC. No mesmo dia, um homem que trabalhava para o fundador do Master tentou se matar enquanto estava sob a custódia da PF –ele morreu em 6 de março. Leia a íntegra da decisão que deu aval à ação;
- 4ª fase (16.abr.2026) – a operação da PF prendeu Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. É investigado por suspeita de permitir operações sem lastro com o Master. Segundo a Polícia Federal, Costa recebeu propina de Vorcaro em imóveis de luxo. Leia a íntegra da decisão que autorizou a ação;
- 5ª fase (7.mai.2026) – o senador Ciro Nogueira (PP-PI) foi alvo. A PF cita o pagamento de propina de Vorcaro para o congressista –que negou. O relator do Master no STF, ministro André Mendonça, disse que a relação entre o político e o ex-banqueiro “extrapola a amizade”. Houve o bloqueio de R$ 18,85 milhões. Leia a íntegra da decisão que autorizou a operação;
- 6ª fase (14.mai.2026) – foram cumpridos 7 mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão em SP, MG e RJ. O pai de Vorcaro foi preso. Era ele quem articulava o grupo de intimidação e espionagem do ex-banqueiro, de acordo com a PF. Leia a íntegra da decisão que autorizou a operação;
- 7ª fase (19.mai.2026) – a PF deflagrou uma operação para apurar o vazamento de informações sigilosas ligadas ao Master. Mendonça mandou afastar um perito da corporação;
- 8ª fase (26.mai.2026) – o ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ) foi alvo de mandados de busca e apreensão. A ação apura a suspeita de crimes envolvendo o Master e o Rioprevidência. O total movimentado é de R$ 3 bilhões, segundo a PF. Leia a íntegra da decisão que autorizou a operação.
- 9ª fase (18.jun.2026) – o senador Jaques Wagner (PT-BA) foi alvo de medidas cautelares autorizadas por André Mendonça. O ministro proibiu o congressista de atuar com empresas ligadas ao caso Master e de falar com investigados, salvo exceções familiares. Leia a íntegra (PDF — 256 kB).
