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Trump usa tarifaço e Flávio de olho nas eleições, dizem especialistas

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 6 horas)

A máxima da Doutrina Monroe —”América para os americanos”— parece ganhar uma nova roupagem sob Donald Trump (Partido Republicano). O lema agora é “Make America Great Again“, mas a lógica continua sendo preservar a influência dos Estados Unidos sobre a América Latina e conter o avanço de potências rivais, especialmente a China, afirmam especialistas ouvidos pelo Poder360.

Se no século 20 o canal do Panamá simbolizava a projeção de poder da Casa Branca na região, hoje disputas em torno do Pix passaram a ocupar esse espaço. Na busca por preservar sua esfera de influência, os especialistas buscam responder ao menos parte da questão: até onde vai a “Doutrina Trump”?

O presidente dos Estados Unidos não inaugura uma nova política com os vizinhos latinos, mas intensifica uma estratégia de governos anteriores, como os de Joe Biden, Barack Obama e George W. Bush: preservar a influência norte-americana na região.

Com a China consolidada como principal parceiro comercial brasileiro, Brasília passou a ocupar posição central na disputa geopolítica entre as duas potências. Para especialistas ouvidos pelo Poder360, a escalada das tensões com o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —marcada pelo tarifaço e pela aproximação de Trump com o adversário, o pré-candidato à presidência, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ)— vai além da disputa comercial. Trata-se de uma estratégia para ampliar a capacidade de influência dos Estados Unidos sobre um aliado estratégico.

INTERFERÊNCIA OU INFLUÊNCIA

Enquanto alguns analistas enxergam sinais de interferência no processo eleitoral, outros preferem o termo influência, por considerarem que ainda não há evidências de ações voltadas diretamente para alterar o resultado das eleições.

Na visão do professor Gustavo Macedo, do Insper, toda ação de um país sobre outro envolve algum grau de interferência. A questão, segundo ele, é identificar se essa atuação está acompanhada de uma intenção política específica. As tarifas impostas ao Brasil pelos Estados Unidos fazem parte de uma política comercial adotada contra diversos países. No entanto, o professor considera que o contexto brasileiro ganhou características próprias quando Trump recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca e passou a fazer gestos políticos direcionados ao senador.

“Quando Trump convida o Flávio Bolsonaro para tirar uma foto com ele poucos dias depois que o próprio Lula esteve na Casa Branca, isso é, ao mesmo tempo, uma influência e uma interferência. Em termos de efeito, o que você poderia dizer dessa ação midiática certamente reforça a imagem do Flávio Bolsonaro frente à sua base leal de apoiadores e gera uma repercussão no debate doméstico brasileiro. Então, você tem as duas, influência e interferência, em diferentes níveis”, disse o professor.

Já Rafael Cortez, professor do IDP, adota uma interpretação diferente. Para ele, a atuação dos Estados Unidos na América Latina segue uma lógica de defesa de seus interesses estratégicos. Trump alterna instrumentos de pressão e negociação enquanto tenta ampliar sua capacidade de influência sobre o cenário político brasileiro.

“O Trump opera nas duas frentes. Vai alternando as negociações, mas também usa a eleição brasileira apostando que pode influenciar o resultado. Isso já aparecia nas declarações do secretário de Estado, Marco Rubio, ao classificar o Brasil como um país ‘não amigável’ aos Estados Unidos na América Latina”, afirma.

INTERESSE NAS ELEIÇÕES

No plano doméstico, a Casa Branca busca fortalecer a popularidade de Trump antes das midterms, as eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos. Demonstrar firmeza diante de adversários externos é uma estratégia recorrente de presidentes norte-americanos para mobilizar sua base e melhorar o desempenho eleitoral do Partido Republicano. O Brasil passou a integrar essa agenda ao lado de países como China e Cuba.

No plano internacional, o objetivo seria recuperar a hegemonia dos EUA na América Latina, hoje reduzida pelo avanço da China, principal parceira comercial da maior parte dos países da região. Segundo o professor Gustavo Macedo, essa estratégia também passa pela defesa de empresas norte-americanas, especialmente as big techs que apoiaram politicamente Trump e agora querem o retorno dos ganhos. Na avaliação do professor, críticas ao Pix refletem uma tentativa  de proteger empresas de cartões de crédito e meios de pagamento dos Estados Unidos diante da crescente competitividade do modelo brasileiro.

Macedo também afirma que o endurecimento da política norte-americana em relação ao crime organizado, classificando facções como terroristas, cria justificativas para ampliar a pressão sobre o sistema financeiro brasileiro. 

“O governo americano pode alegar: ‘Se o sistema financeiro brasileiro está corrompido e não consegue combater a presença de grupos terroristas, logo nós americanos precisamos agir sobre o sistema financeiro brasileiro’. Uma forma de se fazer isso pode ser pelo Pix”, afirmou Macedo.

Cortez avalia que, por enquanto, a estratégia de Trump tem como principal objetivo aumentar o custo político do governo Lula, usando a possibilidade de apoiar um governo alternativo como instrumento de pressão sobre Brasília. Segundo ele, caso a disputa presidencial de 2026 se aproxime e a Casa Branca decida intensificar sua atuação, Washington poderá adotar medidas com impacto mais direto sobre o ambiente eleitoral brasileiro.

O interesse norte-americano também decorre da posição ocupada pelo Brasil na política internacional. Como integrante dos Brics e defensor de maior autonomia nas relações exteriores, o país frequentemente adota posições divergentes das defendidas por Washington. Nesse cenário, afirma o pesquisador, o bolsonarismo surge para Trump como um interlocutor potencialmente mais alinhado aos interesses estratégicos dos Estados Unidos.

EFEITO DO TARIFAÇO

Rafael Cortez avalia que a aproximação de Flávio Bolsonaro com Trump buscava reforçar um dos principais eixos de sua pré-campanha: a segurança pública. A mudança da classificação das facções para terroristas permitiria ao senador associar sua imagem a um tema valorizado pelo eleitorado de direita e fortalecer seu vínculo com a Casa Branca.

Porém, a estratégia perdeu força quando o endurecimento comercial dos Estados Unidos coincidiu com a visita de Flávio a Washington. O anúncio do 2º tarifaço fez com que a aproximação com Trump deixasse de ser associada apenas à agenda de segurança e passasse a carregar também o desgaste provocado pelo conflito comercial entre os 2 países. O que tende a dificultar sua expansão entre os eleitores independentes.

“Eu não vejo o tarifaço um grande benefício para campanha de Lula para além do movimento que já ocorreu. Acho que o benefício para o petista vai ser essa dificuldade do Flávio entrar num eleitorado mais independente. Na prática, é provável uma uma taxa de votos brancos e nulos mais altas, uma taxa de abstenção mais alta”, declarou Cortez.

Para o professor Gustavo Macedo, os primeiros sinais apontam para um efeito mais favorável ao Planalto. A pesquisa da Quest mostra que 51% dos brasileiros culpam Flávio Bolsonaro pelo tarifaço, o que acaba fortalecendo o discurso de defesa da soberania adotado por Lula. A longo prazo, no cenário polarizado, parte do eleitorado responsabiliza o governo brasileiro pela crise diplomática, enquanto outra parte atribui o conflito ao bolsonarismo.

O professor também avalia que Washington busca provocar uma reação mais dura do governo brasileiro para ampliar o conflito político. Segundo ele, a estratégia do Planalto de manter a resposta no campo institucional, evitando transformar o embate em uma disputa pessoal entre Lula e Trump, reduz o potencial de exploração política dessa crise.

A estratégia da Casa Branca pode estar produzindo resultado oposto ao esperado. Em vez de desgastar o governo brasileiro, o tarifaço reforça a imagem de Lula como defensor dos interesses nacionais e amplia o custo político da associação entre o bolsonarismo e Trump.

OS EFEITOS DE LULA 4 OU DE FLÁVIO

Para o professor Gustavo Macedo, um eventual governo de Flávio Bolsonaro teria como principal risco um alinhamento automático aos interesses de Washington. Segundo ele, a aproximação ideológica entre o bolsonarismo e Trump poderia levar o Brasil a priorizar interesses norte-americanos em detrimento de sua própria estratégia econômica e diplomática.

“O risco é colocar os interesses dos Estados Unidos acima dos interesses do Brasil. Isso pode significar perdas concretas para empresas e investidores brasileiros”, afirma.

Rafael Cortez lembra que a política externa adotada durante o governo Jair Bolsonaro apostou na proximidade com Trump e com movimentos conservadores internacionais sob a expectativa de que esse alinhamento geraria vantagens para o Brasil. Na prática os ganhos foram limitados.

A política externa de Trump é marcada pelo unilateralismo, mesmo que prejudique aliados históricos para atender aos interesses norte-americanos. Por isso, um eventual alinhamento automático de Brasília não garantiria tratamento privilegiado por parte de Washington. Além disso, haveria o risco de deterioração das relações com parceiros estratégicos como China e União Europeia.

Por um lado, caso Washington intensifique a pressão sobre o Brasil, setores fortemente dependentes do mercado norte-americano podem sofrer impactos econômicos relevantes em um eventual governo Lula 4. Por outro lado, avalia que o governo petista tenderia a aprofundar a estratégia de diversificação de parceiros comerciais, fortalecendo relações com China, Brics e outros mercados como forma de reduzir a dependência dos Estados Unidos.