Marcelo Queiroga (PL-PB), ex-ministro da Saúde do governo Jair Bolsonaro (PL) e pré-candidato ao Senado pela Paraíba, é o mentor do média-metragem “O Trem do Destino”, inspirado em um livro de sua autoria. A obra, protagonizada pelos atores Rita Guedes e Humberto Martins, foi filmada entre 10 e 14 de julho de 2026 na cidade paraibana de Cabaceiras, conhecida como Roliúde Nordestina, e tem financiamento 100% privado.
A razão disso é que, segundo Queiroga, para alguém como ele, “conseguir Lei Rouanet no atual governo, é muito difícil. Pelo viés próprio que existe hoje no país”.
De acordo com o ex-ministro, houve dificuldade “até mesmo para conseguir atores que aceitem representar uma obra que tem como mentor intelectual alguém fortemente vinculado ao segmento político que a classe artística não é muito simpática”.
Queiroga, no entanto, não se diz contrário a mecanismos de fomento público à cultura. “Só acho que a destinação tem que priorizar os artistas que são menos conhecidos”, afirmou.
Apesar de não revelar o orçamento, o ex-ministro diz que o custo “não tem nada de outro mundo” e segue o padrão de obras dessa estrutura.
Segundo Thelmo Maia, que dirige o média, não foram captados recursos de empresas ligadas ao setor de saúde, por orientação de Queiroga. O objetivo era “preservar a independência do projeto e evitar potenciais questionamentos sobre conflitos de interesse”.
A obra deve ser lançada no fim de agosto.
FINANCIAMENTO PÚBLICO
O tema é sensível para setores ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Eles criticam o uso da Lei Rouanet e outras ferramentas estatais de incentivo a projetos culturais, como o Fundo Setorial Audiovisual, durante governos petistas.
O filme “Dark Horse”, inspirado na vida de Jair Bolsonaro, intensificou a discussão sobre financiamento audiovisual depois do vazamento de um áudio em que o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), solicita recursos ao fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, para financiar a produção do longa.
Em 2025, o valor liberado por empresas via Lei Rouanet a projetos culturais foi de R$ 3,4 bilhões. As principais beneficiárias foram instituições culturais, como o Masp (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), a Orquestra Sinfônica de São Paulo e o Instituto Inhotim.
Os projetos culturais precisam ser aprovados antes pelo governo para receber dinheiro pela Rouanet. A verba que as empresas destinam a essas ações deixa de ser paga na forma de impostos.
Apesar de críticas da direita, Luciano Hang, proprietário da Havan e apoiador de Jair Bolsonaro, já defendeu publicamente a Lei Rouanet. Em 2025, a rede de lojas do empresário incentivou cerca de 40 projetos por meio do mecanismo.
FILME NO SERTÃO
O média-metragem parte da obra lançada em maio de 2026, “Eu Venho Lá do Sertão — Um Sertanejo que Nasceu na Praia”, escrita por Queiroga, que assina também o argumento. “O livro tem questões autobiográficas e tem alguns temas que não são necessariamente ligados à minha biografia“, disse o ex-ministro.
A narrativa acompanha Fátima, vivida por Rita Guedes, uma jornalista brasileira de projeção internacional que retorna ao Cariri paraibano depois de décadas longe de sua terra. Humberto Martins vive o artesão do couro Bento.
“Não é uma história em verde e amarelo. É uma história em tons de sépia, que valoriza as raízes“, descreveu Queiroga, que almeja atualmente uma vaga na Casa Alta. Para ele “o que é arte, o que é cultura, transcende uma questão política, eleitoral”.
Cabaceiras, que é também onde se passa a história, foi escolhida por sua tradição como polo audiovisual e pelas condições que a tornam singular para produções do gênero. “As condições climáticas, a luminosidade, a paisagem característica do Nordeste”, justificou Queiroga.
Lá foram filmadas obras como “O Auto da Compadecida”, que adapta a peça homônima de Ariano Suassuna.


