O cessar-fogo na Faixa de Gaza enfrenta risco crescente de colapso, afirmou o subsecretário-geral de Assuntos Políticos da Organização das Nações Unidas, Khaled Khiari, em sessão do Conselho de Segurança.
Segundo ele, a continuidade de ataques israelenses e das atividades armadas do Hamas ameaça a manutenção da trégua. “O cessar-fogo está cada vez mais frágil, à medida que ataques israelenses e atividades armadas do Hamas e de outros grupos continuam”, declarou.
Khiari disse que as negociações para avançar à fase 2 do plano aprovado pela ONU seguem sem acordo, sobretudo no ponto central do desarmamento.
O alerta foi reforçado por integrantes do Conselho, que apontaram risco de retorno a um conflito em larga escala. A avaliação é de que a atual trégua representa uma janela limitada para implementar um plano apoiado pelos Estados Unidos, que prevê uma Gaza desmilitarizada, uma administração palestina temporária com apoio internacional e um amplo programa de reconstrução.
Na prática, porém, as negociações estão travadas. Países aliados de Washington responsabilizam o Hamas pelo impasse, enquanto representantes palestinos e Estados árabes acusam Israel de restringir a entrada de ajuda humanitária e avançar sobre territórios.
Há também avaliações de que o próprio plano perdeu força nas últimas semanas.
Khiari disse que os civis seguem como principais afetados. Dados do Ministério da Saúde de Gaza indicam cerca de 800 mortes desde o início da trégua, incluindo mais de 200 crianças e 7 trabalhadores humanitários. As Forças de Defesa de Israel afirmam que os alvos são combatentes e estruturas do Hamas.
A situação humanitária segue crítica. Segundo a ONU, cerca de 1,8 milhão de pessoas —quase toda a população de Gaza— estão deslocadas e dependem de ajuda. “As necessidades humanitárias permanecem esmagadoras […] serviços essenciais como água, saneamento e saúde estão novamente à beira do colapso”, disse Khiari.
Relatório conjunto da ONU, União Europeia e Banco Mundial estima em US$ 71,4 bilhões o custo da reconstrução de Gaza ao longo de 10 anos, com US$ 26,3 bilhões necessários nos primeiros 18 meses.
Na Cisjordânia, a escalada de violência e a expansão de assentamentos israelenses também preocupam. Autoridades avançaram planos para mais de 1.000 unidades habitacionais, enquanto ataques de colonos se intensificam e ampliam o deslocamento de comunidades palestinas.
Khiari afirmou que a solução política continua sendo o único caminho. “Não há alternativa a uma solução política […] um quadro que leve ao fim da ocupação e a um Estado palestino viável ao lado de Israel é essencial para uma paz duradoura”, declarou.
Segundo ele, sem desarmamento, acesso contínuo à ajuda e compromisso político, o cessar-fogo corre o risco de ruir —e os planos de reconstrução podem nem sair do papel.
