Uma revelação de Juliette durante o programa Saia Justa, do GNT, chamou a atenção das apresentadoras e repercutiu nas redes sociais. Ao contar alguns de seus “prazeres secretos”, a cantora afirmou que gosta de comer talco. A declaração, feita de maneira descontraída, levanta uma questão importante para a saúde: o que pode estar por trás da vontade de ingerir algo que não é alimento?
O episódio foi exibido nesta semana e ganhou repercussão após Juliette incluir o hábito entre outras preferências pessoais. Apesar do tom bem-humorado da conversa, a ingestão de talco não é considerada uma prática alimentar segura e, quando o desejo por substâncias sem valor nutricional acontece de maneira persistente, merece avaliação médica.
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Atenção às diferenças
Segundo o médico nutrólogo Patrick Ferreira, é importante diferenciar uma experimentação ocasional de um comportamento repetitivo.
“Quando uma pessoa relata vontade frequente ou necessidade de ingerir substâncias que não são alimentos, não devemos simplesmente interpretar isso como um gosto diferente. É preciso entender a frequência, há quanto tempo acontece, a quantidade ingerida e se existem alterações nutricionais ou outros fatores associados. O organismo pode apresentar sinais de maneiras pouco óbvias”, explicou.







A cantora Juliette
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Reprodução/InstagramSíndrome de pica
Um dos quadros que podem estar relacionados à ingestão persistente de substâncias não alimentares é a chamada síndrome de pica. A condição é caracterizada pelo consumo recorrente de materiais sem valor nutricional por pelo menos um mês, desde que o comportamento não seja compatível com a fase de desenvolvimento da pessoa nem faça parte de uma prática cultural.
Entre os itens relatados estão terra, argila, papel, cabelo e giz. A pica também é observada com maior frequência em algumas situações, como durante a gestação e em pessoas com anemia por deficiência de ferro.
“Deficiências nutricionais, especialmente a deficiência de ferro, precisam ser investigadas diante desse tipo de comportamento. Isso não significa que toda pessoa que sente vontade de comer algo incomum esteja com anemia, nem que o relato isolado permita fazer um diagnóstico. A avaliação clínica e, quando necessário, exames laboratoriais são fundamentais para descobrir se existe alguma carência nutricional”, destacou.
Outro ponto de atenção
No caso específico do talco, há ainda outro ponto de atenção. O produto foi desenvolvido para uso externo, e não para consumo. A ingestão ou inalação do pó pode provocar efeitos adversos, com possibilidade de irritação na garganta, tosse, vômitos, diarreia e, principalmente quando partículas chegam aos pulmões, problemas respiratórios.
Para o especialista, transformar hábitos como esse em uma curiosidade inofensiva pode fazer com que sinais importantes passem despercebidos.
“Quando o desejo é recorrente, a orientação é procurar um profissional de saúde e investigar. Além de avaliar ferro, vitaminas, minerais e o padrão alimentar, precisamos compreender o contexto geral do paciente. O mais importante é não tentar corrigir uma possível deficiência por conta própria, tomando suplementos sem saber se ela realmente existe”, afirmou.
O diagnóstico
A síndrome de pica não pode ser diagnosticada apenas pela preferência por uma substância específica. A persistência do comportamento, o contexto em que ocorre e a avaliação clínica fazem parte do diagnóstico. Quando há suspeita, também podem ser investigadas deficiências nutricionais e possíveis complicações provocadas pelas substâncias ingeridas.
“Nosso corpo pode dar pistas de que alguma coisa precisa ser investigada. Um desejo alimentar muito diferente do habitual, principalmente quando envolve produtos que sequer são alimentos, é uma dessas situações. Em vez de normalizar ou sentir vergonha, o melhor caminho é entender por que aquilo está acontecendo”, finalizou Patrick Ferreira.

