As eleições brasileiras, dentro de um mês, começam a entrar no radar da imprensa internacional. E o que os sensores estrangeiros procuram identificar é um outro tipo de resultado: quem sairia vitorioso nas urnas, os Estados Unidos ou a China?
Em um mundo marcado pela rivalidade cada vez maior entre as duas grandes potências, a escolha brasileira soa como mais um passo na disputa por influência global.
A América do Sul já está tomada por governos de direita – ou mesmo de extrema-direita. Com duas exceções: Uruguai e Brasil. O governo progressista do vizinho ao Sul está apenas começando. O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva está próximo do fim.
Segundo a ótica internacional, uma possível vitória de Flávio Bolsonaro consolidaria a guinada sul-americana à direita. E o presidente americano Donald Trump consolidaria a sua influência naquilo que a direita estadunidense gosta de chamar de quintal dos Estados Unidos.
Se Lula vence, ao contrário, os analistas mais preocupados com uma guerra por influência acreditam que o Brasil não apenas se afastaria da órbita americana, como também passaria a se consolidar como grande aliado da China na América do Sul.
Segundo a ótica realista das relações internacionais, o que está em jogo nas eleições de outubro não é tanto o futuro do Brasil, mas, principalmente, o desdobrar de uma disputa cada vez mais acirrada entre duas grandes potências.
Escapam dessa visão temas como a manutenção da democracia brasileira, a redução da pobreza e das desigualdades e a busca por um modelo de desenvolvimento compatível com a preservação do meio ambiente. Nenhum desses temas tem papel relevante em uma visão de mundo mais preocupada com a disputa entre grandes potências.
Se Flávio Bolsonaro sai vitorioso nas urnas, apontam analistas internacionais, o Brasil entra diretamente na órbita dos Estados Unidos. Nesse ponto estão corretos, como admite o próprio filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Se Lula ganha, prosseguem, o Brasil permaneceria em sua rota de oposição a Trump e aproximação com a China. Ou seja, seria uma vitória de Pequim. Mesmo?
Um episódio recente coloca em questão essa visão simplista. O governo brasileiro começou a colocar em marcha seu projeto de investimento em inteligência artificial. Havia duas questões a resolver: a localização de um novo supercomputador e a origem do equipamento.
No âmbito regional, a disputa se desenhava entre o Sudeste e o Nordeste. No internacional, a dúvida estava na busca do fornecedor: o novo supercomputador viria dos Estados Unidos ou da China?
A solução foi inovadora e equilibrada. Em vez de apenas um supercomputador, o governo optou por comprar dois. Um deles, de produção americana, ficará no Rio Grande do Norte. Outro, em projeto conjunto com a China, será instalado no Rio de Janeiro.
O que eles têm em comum? Ambos estarão ligados a um amplo projeto brasileiro de inteligência artificial, que abrirá espaço para pesquisas acadêmicas, produção de novas tecnologias e criação de um banco nacional de dados, isento de influências estrangeiras.
Ao abrir espaço para a cooperação com os Estados Unidos e a China, o governo brasileiro emitiu um sinal de que não pretende escolher um lado nessa disputa de poder. E de que existe espaço para boas relações com as duas grandes potências.
E assim deve ser. Para os brasileiros, o que importa é a busca de um projeto próprio de desenvolvimento, que permita pouco a pouco oferecer melhores condições de vida para a população.
Tomar um lado na disputa entre duas grandes potências não nos levará a lugar nenhum. O Brasil é grande demais para isso.

