O relatório da Polícia Federal que trata da relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro foi produzido a partir de questionamento do ministro André Mendonça, do Superior Tribunal Federal (STF), sobre a identificação dos integrantes da suposta rede de monitoramento e influência gerenciada pelo banqueiro.
É nesse contexto que se encaixa o pedido de Mendonça para que o plenário do Supremo analise “de modo técnico e estritamente jurídico”, os novos elementos trazidos pela Polícia Federal, entre eles o relatório tornado público nesta quarta-feira (1/9).
Para justificar o pedido, o ministro lembra que inicialmente a PF apresentou indícios de que Vorcaro montou sua rede “com potencial infiltração nas mais elevadas instâncias de diversas instituições da República” para “servir aos interesses do grupo criminoso através da obtenção de informações sigilosas e da tentativa de obstaculizar a atuação das autoridades responsáveis pela condução de investigações e de procedimentos fiscalizatórios potencialmente danosos ao grupo”.
A rede, segundo Mendonça, tinha capacidade para obter informações sigilosas que poderiam nortear reorientações estratégicas nas negociações econômicas de “higidez duvidosa” e “na elaboração de sofisticado plano de fuga em caso de insucesso na empreitada delituosa, ou de descoberta de suas atividades pelas autoridades com competência investigativa”.
Documentos da PF, aponta o ministro, contaram que a análise técnica no celular de Vorcaro mostravam diálogos dele com outra pessoa, até então não identificada. O Metrópoles, na coluna de Andreza Matais, revelou na noite de segunda-feira (31/8) que a PF chegou à conclusão, a partir do cruzamento de dados, tratar-se de Moraes.
O relatório da PF mostra que as conversas entre Vorcaro e o número atribuído a Moraes acontecia pelo Whatsapp, através de imagens de visualização única, que não ficam no histórico da conversa. As imagens enviadas pelo banqueiro, porém, permaneceram no armazenamento do celular.
Elas mostram, entre outras coisas, de acordo com o despacho de Mendonça, que Vorcaro teve conhecimento da investigação que embasou sua prisão em 17 de novembro de 2025 com significativa antecedência. “Os diálogos reproduzidos permitiriam identificar que o investigado não só obteve conhecimento prévio de procedimentos investigatórios de natureza penal e de apurações em curso no Banco Central —que poderiam lhe ser prejudiciais e estariam na iminência de serem apreciadas pelo Poder Judiciário e pela diretoria do BACEN —, como também de informações que embasam hipótese investigativa segundo a qual Daniel Vorcaro demandava intervenção junto a autoridades públicas envolvidas nos respectivos processos decisórios”
Mendonça lembra que a rede construída por Vorcaro já havia sido alvo da sexta fase ostensiva da Operação Compliance Zero, mas até aquela ocasião, não havia informação nos autos sobre o andamento das investigações destinadas à efetiva identificação dos demais integrantes da rede.
“Foi diante dessa conjuntura investigativa (…) que determinei ao Coordenador de Inquéritos nos Tribunais Superiores que demande aos delegados (…) diretamente responsáveis pela condução das investigações da denominada “Operação Compliance Zero”, que apresentassem informações atualizadas sobre o atual estágio das investigações, notadamente no que concerne à identificação dos integrantes da suposta rede de influência e monitoramento gerenciada por Daniel Vorcaro”, explicou Mendonça.
Ao fazer essa determinação, o ministro foi específico: os delegados deveriam informar as pessoas que participaram e foram mencionadas em determinadas mensagens (possivelmente os prints do bloco de notas de Vorcaro) “incluídas eventuais detentoras de foro por prerrogativa de função, inclusive aquelas eventualmente sujeitas incidência do art. 5º, I, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal”
Incidem sobre esse artigo apenas o Presidente da República (atualmente Lula), o Vice-Presidente da República (Geraldo Alckmin), o Presidente do Senado Federal (Davi Alcolumbre), o Presidente da Câmara dos Deputados (Hugo Motta), os Ministros do Supremo Tribunal Federal e o Procurador Geral da República (Paulo Gonet). Investigações a respeito desses devem ser julgadas no plenário da corte.
Mendonça também exigiu que, uma vez que a PF identificasse os destinatários e demais mencionados nas referidas mensagens, deveriam também ser fornecidas a íntegra de todas mensagens e interações existentes que envolvam as mesmas pessoas. Por isso o relatório contém diversos diálogos de Vorcaro com outros interlocutores em que Moraes e Gonet são citados.
Em resposta, recebeu da PF o relatório tornado público nesta terça-feira, que trata diretamente da relação entre Vorcaro e Moraes, listando diálogos entre os dois, conversas do banqueiro com outros interlocutores e os contratos firmados pelo Master e pela Viking, firma do banqueiro, com o escritório de advocacia Barci e Moraes, da esposa do ministro.

