Nos últimos anos, os medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1 vêm transformando o tratamento da obesidade. Apesar dos resultados significativos, eles ainda estão disponíveis apenas para uma parte da população, e não há previsão para a incorporação no Sistema Único de Saúde (SUS).
O endocrinologista Bruno Halpern, presidente da Federação Mundial de Obesidade (World Obesity Federation), defende que é preciso aliar a inclusão dos medicamentos no SUS com o aprimoramento dos médicos, acompanhamento multidisciplinar e uma linha de cuidados que tenha profissionais capacitados.
“Nós precisamos ter acesso a medicamentos para obesidade no SUS, e não só isso. Vou um pouco além: acho que precisamos de uma linha de cuidado de tratamento com obesidade”, afirma o médico, em entrevista ao Metrópoles.
Segundo Halpern, que participa do 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia (CBEM 2026), no Rio de Janeiro, a implantação dessa estrutura no SUS se justifica pelo impacto da obesidade, considerada um problema de saúde pública de grande dimensão.
Ele cita que, no Brasil, 30% da população tem obesidade e 68% apresenta sobrepeso. A condição está associada a mais de 200 outras doenças, como as cardiovasculares e câncer, além de diminuir a expectativa de vida.
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“Apesar de ser uma doença crônica de difícil tratamento, o único procedimento oferecido atualmente pelo governo é a cirurgia bariátrica. Teoricamente, são dois anos de tratamento clínico. Depois da cirurgia, o paciente ainda precisa ter acompanhamento com vitaminas”, observa.
Nesse cenário, uma opção de medicamento faz falta — principalmente para pacientes que não são candidatos à cirurgia. Halpern explica que já foram feitas tentativas de alteração nesse cenário, apresentadas à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) tanto pela Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) quanto por indústrias farmacêuticas. Porém, os pedidos recebem recorrentes negativas sob a justificativa de alto impacto orçamentário.
O médico reconhece os desafios orçamentários, mas alerta para o chamado “custo da inação”. A alternativa de não ofertar os medicamentos resulta em não fazer nada contra a obesidade, o que traz problemas a longo prazo e é prejudicial economicamente.
Estima-se que a obesidade cause gastos equivalentes a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, de modo que investimentos na área reduziriam hospitalizações futuras.
Democratização dos tratamentos
Para ele, sem a oferta no SUS, o cenário pode ser tido como elitista e desigual. Enquanto pessoas de maior renda conseguem acesso a tratamentos de ponta — algumas vezes até por desejo social de magreza e sem indicação médica —, a obesidade cresce mais em jovens e populações de baixa e média renda.
“As camadas sociais mais vulneráveis acabam sem tratamentos adequados ou expostas a produtos clandestinos e de origem duvidosa”, acrescenta.
Para mudar esse quadro, Halpern diz que algumas alternativas vêm sendo debatidas no setor, incluindo parcerias público-privadas, acordos com farmacêuticas e a delimitação inicial do público atendido.
Além disso, o surgimento de opções orais, genéricos mais acessíveis e medicamentos sem patente sinaliza uma mudança favorável que pode acelerar a democratização do acesso aos tratamentos de forma estritamente voltada à saúde, e não à estética.
Linha de cuidado eficaz
De acordo com o presidente da Federação Mundial de Obesidade, um dos gargalos identificados para a consolidação de uma linha de cuidado eficaz é a pouca capacitação de profissionais de saúde, visto que o tema não é ensinado de forma ampla nas universidades.
Halpern pontua que o atendimento exige preparo contra o estigma, consultas respeitosas e adequação da infraestrutura pública, com equipamentos, cadeiras e macas próprias para atender pessoas com obesidade severa, além de critérios específicos e reavaliações médicas contínuas.
Por fim, ele destaca que o entrave para a inserção de medicamentos de GLP-1 e preventivos no SUS pode envolver a dimensão da população afetada, a falta de análises de evidências recentes e a percepção equivocada de que apenas dieta e exercícios resolveriam o problema.

