A Confederação Brasileira de Levantamento de Peso (CBLP), uma das menores entidades olímpicas do país, pagou R$ 650 mil em verbas públicas entre 2022 e 2024 para comprar três carros que nunca foram incorporados à sua frota. A entidade reclama nunca ter tido a posse de um deles, apesar de estar registrado em seu nome.
Os veículos eram utilizados pelo então presidente, o analista do Banco Central Enrique Montero Dias, de acordo com denúncia apresentada à polícia civil de Minas Gerais por Ranier Rezende, seu ex-melhor amigo, também servidor do BC e (por enquanto) presidente da confederação.
De acordo com essa denúncia, nos últimos dias antes de deixar o cargo, em 2025, Enrique assinou documentos “vendendo” dois desses carros para si mesmo, deixando a confederação dotada de veículos mais velhos. Mas a gestão que o sucedeu, de Ranier, não encontrou registros de que a entidade tenha de fato recebido o dinheiro.
Enrique só saiu formalmente da presidência em 2025 porque não podia mais se reeleger, após três mandatos. Mas fez o sucessor, Ranier Rezende, seu colega no Banco Central, com o compromisso de que voltaria na próxima eleição.
Até lá, se autonomeou gerente de esporte (com salário de R$ 32 mil, maior que do presidente) e indicou a própria esposa para um cargo de supervisão. Juntos, ganhavam cerca de R$ 50 mil por mês, pagos com recursos das Loterias.
No final de julho, Ranier decidiu demitir o casal. No dia que perderia o cargo, Enrique apresentou atestado médico e entrou de licença. Na sexta-feira retrasada (7) uma denúncia anônima – com todas as digitais de Enrique -, chegou ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) contra Ranier. Em questão de horas, o presidente foi afastado por 30 dias e substituído pela vice, uma aliada histórica de Enrique.
Ranier só ficou sabendo na segunda-feira (11) do afastamento e, antes que pudesse pensar em como se defender das supostas acusações, uma assembleia já estava marcada para destituí-lo do cargo nesta quarta-feira (20) – depois, foi remarcada para o dia 26.
Só têm direito a voto atletas, árbitros (o pai de Enrique) e cinco federações nanicas e praticamente informais (uma delas a Mineira, também do pai de Enrique), porque, nos 12 anos em que ficou no cargo, o cartola impediu que o levantamento de peso chegasse a outros estados e/ou que novos clubes se filiassem às federações já existentes.
Rejeitou pedidos de filiação e manteve a confederação propositalmente pequena, de forma a não perder controle sobre ela e sobre os documentos de sua gestão.
Carros pagos com dinheiro público para uso particular
A decisão que afastou Ranier do cargo também impedia que ele tivesse acesso ao e-mail da confederação e a todos os documentos de sua gestão e das anteriores. Mas o dirigente já havia guardado denúncias contra Enrique. Parte delas ele decidiu expor.
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No fim da semana passada, Ranier abriu boletim de ocorrência na Divisão Especializada em Prevenção e Investigação a Furto e Roubo de Veículos Automotores informando que, em 6 de outubro de 2024, a confederação adquiriu um Jeep Commander que jamais foi colocado à disposição da CBLP e que vem sendo tratado como bem particular por Enrique.
Rezende diz que só sabe da existência do veículo porque ele está registrado em nome da confederação e entre a documentação na CBLP, existe uma nota fiscal de aquisição de um Commander com essas mesmas características por R$ 281 mil.
“A confederação nunca pagou IPVA e nunca pôde fazer seguro, porque o carro não aparece”, diz Ranier. Segundo ele, o veículo já foi visto diversas vezes por funcionários da confederação, com o lado do passageiro batido, estacionado na garagem de Enrique Montero, a menos de 200m da sede da confederação.
Só nesta quarta-feira, intimado a devolver o veículo, Enrique enviou notificação extrajudicial informando que a confederação, se quiser, pode buscar o carro. À coluna, afirmou, via assessoria de imprensa, que o carro está “sob responsabilidade dele” porque ele continua exercendo funções como funcionário da CBLP.
“O veículo foi adquirido para atender às necessidades operacionais da Confederação e, desde então, permaneceu vinculado às atividades da entidade, sendo utilizado em deslocamentos, viagens para competições e demais compromissos institucionais”. A assessoria disse que “existe um documento” que Enrique fez enquanto presidente, autorizando a si mesmo a usar o carro, e que não foi atualizado depois da saída dele do cargo.
Enrique atuava dos dois lados do balcão
Outros documentos mostram que a CBLP comprou uma Fiat Toro nova em 7 de fevereiro de 2024 por R$ 187 mil. O carro nunca foi utilizado pela confederação, também ficou parado na garagem da casa de Enrique Montero, e acabou adquirido, com 1.832 quilômetros rodados, pelo próprio dirigente em 17 de abril de 2025, onde dias antes de deixar o cargo.
Pouco antes, em 27 de março, Enrique já havia comprado outra Fiat Toro da CBLP, por R$ 197 mil, esta com 11 mil quilômetros rodados, depois de dois anos e meio de uso. Ambos os documentos de transferência têm a assinatura de Enrique como comprador e como vendedor, sem autorização prévia de qualquer outro membro da confederação – ele decidiu vender o bem da confederação para si mesmo, por valores abaixo da tabela FIPE.
Ainda que a CBLP seja uma confederação extremamente pequena, sem centro de treinamento ou política de carro corporativo para seus dirigentes, com poucos atletas filiados e sem poder transportar material de treinamento em carros de passeio – as barras e anilhas se deslocam de caminhão – ela tinha três veículos leves até meados de 2022.
A frota à disposição é a mesma até hoje, ainda que três carros tenham sido comprados por Enrique no período. “Se havia a necessidade dos carros, por que eles não ficaram à disposição da confederação e por que foram vendidos? Se não havia a necessidade, por que foram comprados?” questiona Ranier.
À coluna, Enrique disse que “as decisões foram submetidas às instâncias competentes e contaram com o conhecimento de Rainer Rezende, que integrava o Conselho Fiscal da entidade naquele período”. A coluna perguntou se as decisões constavam em alguma ata do órgão. Em resposta, a assessoria dele documentos que não contêm qualquer tipo de autorização para a transação.
Golpe sincronizado
Responsável por afastá-lo do cargo, Juliana Siqueira renunciou à presidência do STJD no sábado (15). Na carta de renúncia, a advogada – que foi indicada por Marcelo Jucá, advogado de Enrique – disse que só teve acesso ao e-mail institucional no dia 7, dois dias após o envio da denúncia anônima. Automaticamente, sem ouvir Ranier ou qualquer outro membro do STJD, determinou o afastamento.
Quando o caso veio à tona, revelado por esta coluna, Juliana voltou atrás. Reconheceu o óbvio: que o STJD, que julga questões esportivas, não tem competência para julgar sobre eventuais irregularidades na gestão da confederação, e arquivou a representação. Ato contínuo, renunciou ao cargo.
No mesmo dia, o presidente do Conselho de Ética da Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM), Gustavo Lopes, outro amigo de Marcelo Jucá, também renunciou. Ele também havia, com um despacho relâmpago, afastado o presidente da confederação, depois de uma denúncia anônima e nomeando como interventor exatamente Jucá, que havia sido braço direito de Alaor Azevedo, por sua vez amigo e aliado político de Enrique.
Uma comparação entre as denúncias “anônimas” encaminhadas aos órgãos presididos pelos amigos de Jucá mostram diversas coincidências. Os textos seguem rigorosamente o mesmo padrão de formatação, com o mesmo preâmbulo e uma lista idêntica de normas e leis correlatas.
As denúncias repetem as mesmas expressões incomuns, como “agentes de governança” em títulos de tópicos, e trazem parágrafos idênticos sobre “transparência ativa”, “controle social” e menções aos mesmos artigos Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD).
Os pedidos também foram formulados com as mesmas palavras, como o pedido de “afastamento preventivo” dos dirigentes “em caráter cautelar e pelo prazo necessário à conclusão da apuração”.
Até mesmo o parágrafo de encerramento foi clonado termo a termo: “Esta comunicação é apresentada de boa-fé, com a finalidade exclusiva de contribuir para o fortalecimento da integridade, da governança, dos controles internos, da adequada aplicação dos recursos e da confiança das partes interessadas na confederação”.
No tênis de mesa, Vilmar Schindler não corre mais risco de perder o cargo, ao menos politicamente. O STJD derrubou a decisão do Conselho de Ética que havia determinado intervenção e o próprio presidente do Conselho, antes de renunciar, também reviu a própria decisão. Além disso, Vilmar tem apoio da ampla maioria das federações e Alaor Azevedo, agora seu desafeto, está isolado.

