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Traficantes debochavam de clientes com reações ao tomar anabolizantes

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Traficantes debochavam de clientes com reações ao tomar anabolizantes

Áudios obtidos pela coluna Na Mira revelam como era operado o esquema do império dos anabolizantes que produzia e traficava anabolizantes em grande escala no DF e em pelo menos 8 estados. Nas conversas, os envolvidos debocham dos clientes e falam sobre a produção dos medicamentos ilícitos. No último dia 12 de agosto, 43 suspeitos que faziam parte da organização criminosa foram presos durante a Operação Narciso deflagrada pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF).

O conteúdo mostra os traficantes zombando dos clientes que adquiriram os produtos e tiveram efeitos colaterais. Em um dos áudios, um dos suspeitos cita pessoas que relataram mal-estar e homens que tiveram ginecomastia, condição que causa aumento da glândula mamária.

“Quando já fala remédio, já não levo a pessoa a sério. ‘Ai, esse remédio, não me fez bem’. A pessoa não sabe nem o que que é se sentir bem ou mal. Entendeu? Só manda o feedback. Porque o povo é engraçado. O povo quer perder 10 kg, 15 kg, mas quer ter zero ‘colateral’. Quer ganhar 20 kg e não quer ter ‘colateral’… Quer socar a bomba para dentro, não quer ter gineco (ginecomastia), não quer ter nada“, debocha um dos traficantes.

Em outro áudio, enquanto discutem a forma de fazer os produtos, um dos suspeitos questiona se é normal a reação química de borbulhar. “Um monte de gente está tendo inflamação”, relata.

Termogênico com broncodilatador para cavalo

Além de anabolizantes, os traficantes produziam termogênicos, substância voltada para acelerar o metabolismo e aumentar a queima de calorias. Para fazer os termogênicos, eles utilizavam clembuterol, um remédio broncodilatador usado na veterinária para tratar problemas respiratórios em cavalos.

As investigações da Polícia Civil apuraram que o uso dos produtos ilegais não era informado para os clientes. As conversas interceptadas mostraram que os compradores chegaram a passar mal após consumir o termogênico.

“Clembuterol você não usa miligrama não, você usa micrograma. Senão tu mata um! Uma cliente minha, ela acordou de madrugada ofegante, que ela teve que ir para a janela porque ela estava com falta de ar“, destacou Carlos Henrique, um dos operadores do esquema.

Funcionamento do esquema

O diálogo dos traficantes mostra também como eles acobertavam todo o esquema. Eles chegaram a utilizar chip de telefone da Suíça para despistar qualquer tipo de investigação policial.

Em um dos áudios, o líder do esquema, Roberto Carlos Pereira, o “Jiraiya das Bombas”, dá uma bronca em um dos funcionários por detalhar que os anabolizantes eram feitos em fundo de quintal.

“Arrumei um chip da Suíça lá para você, para atender como se fosse, entendeu? Aí vai, acontece aquelas paradas lá, mano. Aí tu fica falando para os outros aí como que é o produto, aí nego fica soltando merda aí. Igual aquele Gil Thomas lá foi falar para menina que o trem era feito no fundo de quintal… E a menina era mó vendedora minha, pô. Você toma uma ideia, é só problema, mano. Tem que, tipo assim, fechar tua equipe e pronto, filho. E segredo, e ninguém sabe de onde veio, e pronto”, disse Roberto.

Investigações da PCDF apontaram que a matéria-prima usada na fabricação dos produtos entrava clandestinamente no Brasil pela fronteira com o Paraguai. Em um áudio, Carlos Henrique Rodrigues de Abreu detalha que ele transportava os produtos ao comprar uma peça de moto por meio da plataforma Mercado Livre. “O negócio é perder mercadoria para o ‘Correio’, pô. Entendeu? Os negócios chegam aqui sabe como? Mercado Livre. Compra uma peça de moto, filho, e vem tudo empacotado na peça de moto. Fica tipo assim, irreconhecível”, disse Carlos.

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O outro lado

O Metrópoles não conseguiu localizar as defesas dos envolvidos no esquema de anabolizantes que movimentou milhões. O canal para manifestação segue aberto.


Operação Narciso

  • A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), deflagrou em 12 de agosto a Operação Narciso, considerada a maior ação do ano contra o comércio ilegal de anabolizantes e outras substâncias proibidas no Brasil;
  • Ao todo, a Justiça expediu 43 mandados de prisão (preventivas e temporárias) e 64 mandados de busca e apreensão, além de determinar o bloqueio e sequestro de R$ 32 milhões em ativos financeiros e a quebra de sigilo bancário de 58 alvos;
  • O esquema contava com conexões em oito estados, além do DF, e uma ponte direta com a fabricação clandestina no Paraguai. As ações ocorrem nos seguintes estados: Santa Catarina, Acre, São Paulo, Goiás, Rio Grande do Norte, Paraíba, Paraná e Minas Gerais;
  • A investigação revelou uma complexa engrenagem criminosa voltada à fabricação caseira, ao fornecimento de insumos, à rotulagem, à divulgação e à comercialização de anabolizantes, medicamentos controlados, produtos veterinários e suplementos com substâncias ocultas;
  • Mais de 20 estabelecimentos comerciais foram lacrados, 10 veículos de luxo apreendidos e mais de 30 sites de venda ilegal acabaram sendo tirados do ar. A organização criminosa contava com a participação de nutricionistas, biomédicos, veterinários, personal trainers e influenciadores digitais;
  • De acordo com as investigações conduzidas pelo delegado Rodrigo Carbone, o coração do esquema operava sob o termo “cozimento”: a fabricação artesanal de substâncias injetáveis e orais em fundos de quintal, cozinhas residenciais, depósitos e locais improvisados, em fogo alto e sem qualquer assepsia ou controle sanitário;
  • “Esses produtos são feitos em fundo de quintal e isso coloca as pessoas em risco. Essa operação não investiga uma mera comercialização de anabolizantes, ela combate o submundo do underground de laboratórios clandestinos. Os alvos de hoje são verdadeiros traficantes”, afirmou o delegado Carbone;

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