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Com que roupa Lula vai às urnas? (por Hubert Alquéres)

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Com que roupa Lula vai às urnas? (por Hubert Alquéres)

Lula retirou do fundo do baú a fantasia do antissistema, que estava mofando desde que chegou ao poder, em 2002. A viagem no tempo está escancarada no programa de sua candidatura, registrado no Tribunal Superior Eleitoral. Diz o documento, logo nas suas primeiras páginas: “Somos o verdadeiro novo porque enfrentamos o velho sistema que mantém o Brasil no atraso, na desigualdade e na dependência”.

A frase combina com os primórdios do PT, quando se dizia ser “diferente de tudo o que está aí”. Aliás, em seu discurso no comício do lançamento de sua campanha de 2026, no estádio da Vila Euclides em São Bernardo, Lula tentou vender a imagem de ser o candidato antissistema, relembrando seus tempos de sindicalista e de fundação do PT. Mas isso foi na sua pré-história, nos tempos em que era contra tudo e contra todos: contra a eleição de Tancredo, contra o Plano Real e contra qualquer governo que não fosse seu espelho.

Esses tempos ficaram para trás quando Lula, depois de perder três eleições presidenciais, percebeu ter chegado a hora de deixar a pureza ideológica de lado e aderir ao pragmatismo para se erigir em poder.

Em outras palavras: deixou de ser o antissistema para se integrar ao sistema. A via para a metamorfose foi a “Carta aos Brasileiros”, de 2002, quando abandonou as teses aprovadas no encontro do PT de 2001, cujas resoluções pregavam a “ruptura com o neoliberalismo” e “mudanças estruturais”.

Elegeu-se presidente pela primeira vez comprometendo-se a respeitar os contratos e as obrigações assumidas pelo país. Em vez de ruptura, manteve, no seu primeiro governo, os fundamentos econômicos de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, como superávit primário, metas de inflação e câmbio flutuante, que antes eram chamados de “neoliberais” pelo credo petista.

Construiu sua governabilidade da forma mais tradicional possível, ao estabelecer um pacto entre o Poder Central e as oligarquias regionais. Sarney, no Maranhão; Renan, em Alagoas; os Barbalho, no Pará. Mesmo na Bahia, onde o PT deslocou a oligarquia de ACM, cooptou parte dos caciques regionais, como Otto Alencar e outros. Michel Temer, hoje demonizado, foi peça-chave no leque de alianças construído por Lula em seus dois primeiros mandatos.

Não foi diferente no plano econômico. Seus governos, por meio da política de “campeões nacionais”, estabeleceram relações umbilicais com grandes empresas e empreiteiras. Os bancos, muitas vezes estigmatizados, nunca ganharam tanto dinheiro como nos governos Lula. Ele mesmo vivia alardeando isso.

É difícil caracterizar como antissistema um presidente cuja governabilidade se assegurou por meio do “presidencialismo de coalizão”, quando não por um “presidencialismo de cooptação”, mediante métodos não republicanos, como o “mensalão” e o “petrolão”.

Na verdade, seria mais apropriado definir o lulismo não como uma corrente antissistema, mas como uma força integrada ao sistema. Ou seja, mais do que uma aliança com antigos adversários, o sistema de poder implantado por Lula levou à absorção paulatina de forças políticas anteriormente de oposição, levando à sua desmobilização.

Num rasgo de sinceridade, Lula afirmou, em abril deste ano: “Nós nos tornamos o sistema.” Na mesma toada, fez uma espécie de mea culpa, ao reconhecer que a direita ocupou o espaço do “antissistema” porque a esquerda se limitou a ganhar eleições e “gerir o neoliberalismo”. Ou seja, o presidente, de uma hora para outra, fez a crítica mais cáustica aos seus governos. Por quê?

Eis aí a chave para entender por que o programa de governo de Lula reivindica representar o novo em luta permanente contra o sistema. Tese que está em sintonia com várias declarações de Edinho Silva, presidente do PT, que reivindica para o lulismo o papel de verdadeiro antissistema. Mas a história de Lula e de seu partido neste século é outra.

É a de sua transformação de uma força antissistema em um partido da ordem institucional e econômica, hoje parte dominante do núcleo de poder.

A transmutação abriu espaço para a emergência de uma nova força disruptiva, o bolsonarismo, que, como o PT nos seus primórdios, se arvora ao papel de santo guerreiro na luta do bem contra o mal, agora corporificado nos grupos políticos e burocráticos que dão as cartas em um sistema institucional percebido por parcelas da sociedade como distante de suas demandas.

Ou seja, a ultradireita também conseguiu construir uma identidade política alicerçada na ideia de que existe um sistema contra o qual ela luta, formado por partidos tradicionais, Congresso, STF, imprensa, elites políticas, “velha política” e establishment.

O problema da estratégia de Lula de resgatar a bandeira do antissistema é que se trata apenas de um recurso de retórica. Não há uma práxis condizente com a afirmação programática. Ao contrário, houve a preocupação de retirar do Programa de Governo bandeiras defendidas pela ala esquerda do Partido dos Trabalhadores, para não assustar o mercado.

Não há no programa registrado no TSE proposta econômica ou social que contrarie frontalmente os interesses dos grandes grupos econômicos.

No Congresso tampouco se vislumbra a desconstrução do pacto que vinculou Lula às oligarquias regionais e à elite política brasileira. Se houve momentos de tensão, onde o lulismo ensaiou um giro à esquerda por meio do slogan “Congresso inimigo do povo” e sofreu derrotas importantes nas duas casas legislativas, o movimento agora é de retomada dos laços com os presidentes das duas casas legislativas. É um movimento que não se limita às relações institucionais entre os chefes de dois poderes da República e que transborda para alianças eleitorais, informais ou não.

E nada mais pró-sistema do que Lula e Alcolumbre estarem no mesmo palanque eleitoral, trocando os tapas do passado por afagos e beijos. Na barca eleitoral de Lula sempre cabe mais um. Cabe Hugo Motta e até Ciro Nogueira, com quem o presidente se articulou para a Federação União Progressista ficar neutra na disputa eleitoral. É assim desde os tempos da velha República. O Poder Central e as elites regionais podem até ter momentos de desentendimentos, mas ao final, tudo se acerta, dado o poder de atração de quem tem a caneta presidencial na mão.

Vestir a fantasia de antissistema pode ser um expediente eleitoral para Lula não deixar essa bandeira nas mãos do bolsonarismo, mas o fato é que essa roupa já não lhe serve mais.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.

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