As mulheres são maioria entre os eleitores brasileiros, mas continuam sub-representadas entre aqueles que disputam as eleições. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o pleito de 2026 mostram que elas representam 35% das candidaturas, enquanto correspondem a 52,84% do eleitorado nacional.
Em números absolutos, o eleitorado feminino soma 83,8 milhões de pessoas, de um total de mais de 158 milhões de eleitores aptos a votar neste ano. A participação feminina nas candidaturas, portanto, permanece quase 18 pontos percentuais abaixo da presença das mulheres entre os eleitores.
O cenário fica ainda mais desigual quando são observados os cargos de maior projeção. Entre as candidaturas femininas, a maior concentração está nas disputas proporcionais. São 3.825 mulheres candidatas a deputada estadual e 2.789 a deputada federal, além de 149 candidatas a deputada distrital.
Já nas disputas majoritárias, a presença feminina é bem menor. O levantamento registra 33 candidatas a governadora (16,8% do total), 69 candidatas ao Senado (21,9% do total) e apenas duas mulheres na corrida presidencial (15%).
As mulheres aparecem mais como vice das chapas, mas mesmo assim ainda não são maioria. Ao cargo de vice-presidente, são cinco mulheres (38%), e para vice-governadora são 84 (42% do total).
Quem são as mulheres candidatas a presidente e vice
- Clariana Barão, candidata do DC à Presidência;
- Samara Martins, candidata do UP à Presidência;
- Fabiana Torquato, candidata do DC a vice-presidente;
- Suêd Haidar, candidata do Democrata a vice-presidente;
- Cleusa Santos, candidata do PCB a vice-presidente;
- Vanessa Portugal, candidata do PSTU a vice-presidente;
- Raquel Brício, candidata do UP a vice-presidente.
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Cinco principais chapas não têm mulheres
Em relação a disputa pelo Planalto, as mulheres não estão presentes nas cinco chapas que lideram as pesquisas de intenção de voto.
- Lula (PT): tem Geraldo Alckmin (PSB) como vice.
- Flávio Bolsonaro (PL): escolheu o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) para a vice.
- Ronaldo Caiado (PSD): tem Gilberto Kassab (PSD) como vice.
- Romeu Zema (Novo): tem como vice Eduardo Girão (Novo CE).
- Renan Santos (Missão): tendo como vice Aroldo Medina (Missão).
A ausência chama atenção porque as mulheres são justamente a maioria do eleitorado. Para 2026, o TSE contabiliza 83.877.126 eleitoras, o equivalente a 52,84% do eleitorado brasileiro.
Flávio chegou a defender uma vice mulher
A trajetória da escolha do vice de Flávio Bolsonaro é um exemplo de como a presença feminina chegou a ser considerada como estratégia eleitoral, mas não se concretizou na chapa.
Em junho, durante um evento voltado ao eleitorado feminino, Flávio afirmou que procurava uma pessoa preparada e que, de preferência, fosse uma mulher.
A possibilidade ganhou força nas semanas seguintes. A equipe do candidato chegou a avaliar nomes como Tereza Cristina (PP-MS), Daniella Marques (Republicanos), Priscila Costa (PL-CE), Simone Marquetto (PP-SP) e Bia Kicis (PL-DF). A escolha de uma mulher também era vista por aliados como uma forma de ampliar o diálogo com o eleitorado feminino.
Daniella Marques chegou a ser apontada como a preferência pessoal de Flávio. Priscila Costa, por sua vez, ganhou força entre integrantes da campanha e chegou a ser testada em pesquisas internas do PL.
A estratégia, no entanto, não avançou. Flávio acabou oficializando o deputado Alfredo Gaspar como vice. A chapa foi formada exclusivamente pelo PL.
Dias antes da definição, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também havia declarado preferência por uma mulher na vice de Flávio. Em entrevista recente, afirmou que gostaria que o posto fosse ocupado por uma candidata, embora tenha dito que o mais importante seria o compromisso com as causas femininas.
Cota de gênero chega ao limite
A Lei das Eleições determina que, nas disputas proporcionais, cada partido ou federação deve preencher no mínimo 30% e no máximo 70% das candidaturas com pessoas de cada gênero. A regra é aplicada às eleições para deputados e vereadores.
Na prática, os números de 2026 mostram que a participação feminina ficou apenas alguns pontos acima do limite mínimo. O percentual de 34,8% indica que, embora a legislação tenha ampliado a presença das mulheres nas urnas, os partidos ainda apresentam dificuldade para transformar essa participação em uma representação próxima da composição do eleitorado.
O próprio TSE reconhece que a participação feminina continua sendo um desafio. Em março, ao abordar a presença das mulheres na política, o tribunal destacou que elas representam quase 53% do eleitorado, enquanto a quantidade de candidatas eleitas permanece abaixo de 20%.
A regra também não impede que partidos apresentem exatamente o mínimo necessário. Assim, uma legislação criada para ampliar a participação feminina pode acabar funcionando, na prática, como um patamar que algumas legendas buscam atingir, em vez de um incentivo para aumentar efetivamente o número de mulheres competitivas.
O problema não está apenas no número de candidatas. A distribuição de recursos e a estrutura oferecida pelos partidos também influenciam a competitividade das campanhas. O Ministério Público Federal alerta, inclusive, para casos de possíveis candidaturas “laranjas” utilizadas para cumprir formalmente a cota de gênero. Entre os sinais de fraude estão votação zerada ou muito baixa, ausência de atos de campanha e falta de movimentação financeira.
Mais mulheres na urna, mas menos poder de decisão
O contraste entre eleitorado e candidaturas se repete na ocupação dos espaços de poder. Mesmo quando as mulheres conseguem chegar às urnas, a presença delas entre as eleitas continua proporcionalmente menor.
Nas eleições gerais de 2022, por exemplo, apenas quatro mulheres foram eleitas para o Senado e 91 chegaram à Câmara dos Deputados.
A diferença entre participação eleitoral e representação política ajuda a explicar por que o debate sobre gênero nas eleições não se resume ao preenchimento das vagas destinadas às candidaturas femininas. O desafio envolve também garantir que essas candidaturas tenham condições reais de disputar votos, recursos, tempo de propaganda e espaço dentro das próprias estruturas partidárias.
Em 2026, portanto, as mulheres continuam sendo maioria entre quem escolhe os representantes, mas minoria entre quem pode ocupar esses cargos. A diferença é especialmente visível nas disputas majoritárias, justamente aquelas que concentram maior exposição e poder político.

