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Sustentabilidade não pode ficar só no discurso

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Sustentabilidade não pode ficar só no discurso

Museus costumam ser associados à preservação do passado. São lugares onde objetos, obras, documentos e histórias são guardados para que outras gerações possam conhecê-los. Mas, diante de mudanças climáticas, perda de biodiversidade, aumento da produção de resíduos e crescimento acelerado das cidades, surge uma pergunta que muda essa lógica: qual deve ser o papel dos museus na construção do futuro?

É essa discussão que estará no centro do Festival Anual de 2026 do SESI Lab, em Brasília (DF), marcado para 19 de agosto, com o tema Museus e Sustentabilidade.

O evento reunirá profissionais de museus, pesquisadores, educadores, estudantes, representantes do setor produtivo e do poder público para discutir como instituições culturais podem transformar a sustentabilidade de um assunto apresentado em exposições em uma prática incorporada ao cotidiano.

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A escolha do tema não ocorre por acaso. Desde 2022, a própria definição internacional de museu adotada pelo Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus (ICOM Brasil) passou a incluir a sustentabilidade entre as características dessas instituições.

Segundo o texto aprovado naquele ano, museus devem ser acessíveis e inclusivos e promover diversidade e sustentabilidade, além de atuar com participação das comunidades.

Na prática, isso significa ampliar a ideia do que é um museu. Não basta falar sobre meio ambiente em uma exposição se a instituição não olha para a própria forma de consumir energia, utilizar água, administrar resíduos, escolher fornecedores, relacionar-se com o território e educar visitantes.

É justamente essa passagem do discurso para a prática que o SESI Lab pretende colocar em discussão.

Os museus são espaços de conhecimento, diálogo e construção de futuros.

Claudia Ramalho, superintendente de Cultura do SESI

Para ela, discutir sustentabilidade dentro de um museu significa reconhecer que questões como mudanças climáticas, biodiversidade e qualidade de vida não pertencem a uma única área do conhecimento.

Mulher aparece em pé dentro do espaço do SESI Lab, sorrindo para a câmera.
“Não queremos provocar apenas preocupação diante dos desafios ambientais; queremos estimular esperança, pertencimento e capacidade de agir”, afirma, Claudia Ramalho

Da exposição para a experiência

Uma das dificuldades quando se fala em sustentabilidade é transformar conceitos abstratos em algo que possa ser compreendido no cotidiano.

Termos como agroecologia, economia circular, sequestro de carbono, sucessão ecológica e transição energética podem parecer distantes para quem não trabalha com meio ambiente.

Um dos caminhos encontrados pelo SESI Lab é fazer com que o visitante deixe de apenas ouvir sobre esses assuntos e possa observá-los acontecendo.

É nesse ponto que entra o Cultiva Lab, inaugurado em junho deste ano.

O projeto ocupa aproximadamente 6,2 mil metros quadrados entre o SESI Lab e a Biblioteca Nacional, no centro de Brasília.

O espaço foi concebido como um sistema agroecológico educativo e reúne cerca de 90 espécies representativas do Cerrado, da Amazônia, da Mata Atlântica e da Caatinga. O projeto é permanente, aberto ao público e integrado à programação do museu.

A ideia é que a área funcione quase como uma sala de aula sem paredes.

Em vez de explicar a sucessão ecológica apenas por meio de um texto ou uma tela, por exemplo, o visitante pode acompanhar o processo diretamente no solo.

O que é sucessão ecológica?

Imagine uma área completamente degradada. A natureza não simplesmente “aperta um botão” e faz uma floresta surgir. A recuperação ocorre em etapas.

Primeiro aparecem espécies mais resistentes, chamadas de pioneiras. Elas ajudam a modificar as condições daquele ambiente, oferecendo sombra, matéria orgânica e nutrientes. Depois, outras espécies conseguem se estabelecer. Aos poucos, o sistema ganha complexidade até chegar a uma estrutura mais próxima de um ecossistema maduro.

No Cultiva Lab, a área foi organizada em núcleos que representam os quatro biomas selecionados. Ao lado das espécies permanentes, também são cultivadas plantas de ciclos diferentes, justamente para reproduzir, de maneira didática, as etapas de desenvolvimento de um sistema agroecológico.

A irrigação também foi planejada para acompanhar a implantação das plantas, especialmente porque o início do projeto ocorreu durante um período de menor disponibilidade de chuva.

O visitante não vê apenas uma área verde. Ele acompanha um processo. E esse talvez seja o ponto mais importante do projeto.

“Sustentabilidade deixa de ser uma ideia abstrata” quando o público consegue observar a relação entre solo, água, plantas, alimentos, biodiversidade e tecnologia, explica Claudia Ramalho.

Uma galeria que também produz alimento

O Cultiva Lab não foi concebido apenas como um jardim ornamental.

A área combina espécies dos quatro biomas com cultivos agrícolas de ciclo curto, como milho, mandioca, feijão, hortaliças e outras plantas. A previsão é produzir entre três e cinco toneladas de alimentos nos primeiros dois anos, com destinação prevista para instituições sociais do Distrito Federal.

Sustentabilidade não pode ficar só no discurso - destaque galeria
5 imagens
Área verde do SESI Lab reúne espaços de cultivo e de paisagismo
Preparação do solo para o cultivo de plantas em área experimental do SESI Lab
Plantas cultivadas nos canteiros mostram a aplicação prática de técnicas de cultivo
Espécies cultivadas nos canteiros integram as ações de educação ambiental e sustentabilidade
Metrópoles
Organização dos canteiros evidencia a estrutura da área de cultivo do SESI Lab
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Organização dos canteiros evidencia a estrutura da área de cultivo do SESI Lab

VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto
Área verde do SESI Lab reúne espaços de cultivo e de paisagismo
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Área verde do SESI Lab reúne espaços de cultivo e de paisagismo

VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto
Preparação do solo para o cultivo de plantas em área experimental do SESI Lab
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Preparação do solo para o cultivo de plantas em área experimental do SESI Lab

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Plantas cultivadas nos canteiros mostram a aplicação prática de técnicas de cultivo
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Plantas cultivadas nos canteiros mostram a aplicação prática de técnicas de cultivo

VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto
Espécies cultivadas nos canteiros integram as ações de educação ambiental e sustentabilidade
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Espécies cultivadas nos canteiros integram as ações de educação ambiental e sustentabilidade

VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto

O projeto prevê monitoramento ambiental e práticas relacionadas à regeneração do solo e à agricultura regenerativa.

A intenção é que, ao longo do tempo, o espaço se transforme junto com as plantas.

Nos primeiros meses, o foco está na implantação e no estabelecimento das espécies. A partir da consolidação do sistema, começam a aparecer novas interações ecológicas e as primeiras colheitas. Depois, com o crescimento das plantas, aumenta também a diversidade biológica e a quantidade de experiências educativas possíveis.

É como acompanhar um museu cuja exposição não está pronta: ela cresce diante dos olhos de quem visita.

Sustentabilidade também está dentro do prédio

Mas, não é apenas do lado de fora que o SESI Lab tenta incorporar a sustentabilidade.

O próprio edifício passou por uma reforma que incorporou soluções de eficiência ambiental. Segundo informações do SESI, o projeto contempla, entre outras medidas, aproveitamento de água da chuva, reuso de águas cinzas, equipamentos economizadores e soluções de eficiência energética.

A arquitetura também utiliza recursos para reduzir a necessidade de climatização, como equipamentos mais eficientes, vidros de baixo fator solar e elementos de sombreamento.

O prédio, localizado no antigo Touring, foi construído na década de 60 com projeto de Oscar Niemeyer e precisou ser adaptado às características e limitações do conjunto arquitetônico de Brasília. Mesmo assim, a reforma permitiu incorporar sistemas automatizados para controlar diferentes elementos no funcionamento do espaço.

Brasília (DF), 13/01/26 - Festival Brinca + Sesi Lab Foto: VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto
Equipamentos e experiências aproximam ciência e tecnologia do público do SESI Lab.

A automação não é apenas uma questão de tecnologia. Ela pode ajudar a adequar o funcionamento do edifício às necessidades de cada momento.

Em determinados domingos, por exemplo, o museu promove uma programação com redução de estímulos sonoros e luminosos voltada a pessoas neurodivergentes. A estrutura automatizada facilita essa adaptação.

É um exemplo de como sustentabilidade pode ser entendida de maneira mais ampla: não apenas como preservação ambiental, mas também como a capacidade de uma instituição de criar espaços mais eficientes, acessíveis e adequados às pessoas.

E o lixo que o visitante não vê?

No SESI Lab, o programa de gestão de resíduos sólidos está em uma etapa de medição da quantidade e dos tipos de materiais produzidos, depois de uma fase inicial de separação.

A mudança parece simples, mas envolve comportamento.

Em áreas administrativas, por exemplo, a lógica deixou de ser ter uma lixeira individual em cada estação de trabalho. Os resíduos precisam ser levados até pontos de descarte coletivo, onde são separados.

O objetivo é saber quanto lixo o museu produz e qual é a composição desse material. Com esses dados, a instituição consegue planejar melhor a destinação e avançar para a contratação de uma cooperativa responsável pela coleta dos resíduos separados.

Consumo consciente

A discussão sobre resíduos também aparece na programação educativa.

Em parceria com o Movimento Plástico Transforma, o SESI Lab incorporou à exposição de longa duração o aparato “Reciclando Ideias”, que apresenta os diferentes tipos de plástico presentes em produtos do cotidiano, suas aplicações e possibilidades de reciclagem.

Há também a oficina “O Caminho do Plástico”, na qual os participantes assumem diferentes papéis dentro da cadeia: indústria, consumidor, cooperativa de reciclagem e indústria recicladora.

A proposta é mostrar que o destino de um material não depende apenas de quem joga algo fora.

Existe uma cadeia inteira por trás do produto: fabricação, consumo, separação, coleta, reciclagem e retorno à indústria.

É justamente essa lógica que está por trás da economia circular: em vez de imaginar que um produto nasce, é usado e termina no lixo, a ideia é manter materiais e recursos em circulação pelo maior tempo possível.

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Materiais organizados para atividades práticas de educação e experimentação
Pessoas utilizam instalação interativa durante uma atividade no espaço
Equipamentos e instalações interativas incentivam a participação do público
Atividades práticas aproximam visitantes de conceitos científicos por meio da experimentação
Metrópoles
Visitantes participam de atividades práticas em uma das instalações do SESI Lab
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Visitantes participam de atividades práticas em uma das instalações do SESI Lab

Divulgação
Materiais organizados para atividades práticas de educação e experimentação
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Materiais organizados para atividades práticas de educação e experimentação

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Pessoas utilizam instalação interativa durante uma atividade no espaço
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Pessoas utilizam instalação interativa durante uma atividade no espaço

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Equipamentos e instalações interativas incentivam a participação do público
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Equipamentos e instalações interativas incentivam a participação do público

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Atividades práticas aproximam visitantes de conceitos científicos por meio da experimentação
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Atividades práticas aproximam visitantes de conceitos científicos por meio da experimentação

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A sustentabilidade como experiência educativa

A programação do SESI Lab também utiliza jogos, oficinas e experimentos para discutir temas ambientais.

Entre as atividades estão a Jornada da Descarbonização, que trabalha decisões relacionadas à energia, transporte e consumo; a oficina Aerogeradores, sobre eficiência energética; Aves do Cerrado, voltada à biodiversidade; e Observadores da Natureza, que estimula diferentes formas de observar e registrar o ambiente.

Na oficina (Re)Criando 2050, os participantes utilizam inteligência artificial para imaginar possíveis cidades do futuro a partir das metas climáticas do Acordo de Paris.

A estratégia tem uma função importante: tornar compreensíveis assuntos que, muitas vezes, aparecem nas notícias acompanhados de números, termos técnicos e conceitos científicos difíceis.

Em vez de dizer simplesmente que é necessário reduzir emissões, por exemplo, uma atividade pode colocar o participante diante de escolhas sobre transporte e energia.

A pessoa passa a perceber que sustentabilidade não é apenas uma decisão tomada por governos ou grandes empresas, ela envolve escolhas individuais.

O que esperar do festival

É justamente esse conjunto de experiências que será colocado em perspectiva durante o Festival Anual de 2026.

A programação começa às 9h, com credenciamento e café de boas-vindas. Às 10h, Fábio Scarano fará a palestra de abertura.

Scarano é curador do Museu do Amanhã (RJ), professor de Ecologia da UFRJ e titular da Cátedra Unesco de Alfabetização em Futuros.

O primeiro painel discutirá “Cultura regenerativa para o presente e futuro: experiências que conectam arte, ciência, sustentabilidade, território e educação”.

Participam representantes do Instituto Terra, da Fazenda Bananal e do Museu do Pontal, trazendo experiências que aproximam recuperação ambiental, patrimônio, agrofloresta, arte, educação e território.

Depois do almoço, o segundo painel parte para uma pergunta ainda mais prática: como sair do discurso e implementar planos de sustentabilidade dentro dos museus?

A conversa reunirá representantes do ICOM SUSTAIN, do Museu do Jardim Botânico e do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

A programação termina com o lançamento da pesquisa “Revisitando Vozes”, do ICOM Brasil, que pretende atualizar o panorama do campo museal brasileiro.

Para Claudia Ramalho, a resposta passa por compreender que natureza e cidade não são mundos separados.

“As cidades do futuro precisarão ser mais verdes, resilientes e preparadas para os efeitos das mudanças climáticas”, afirma.

O desafio, portanto, não é transformar todos os museus em jardins ou fazendas urbanas. É entender que cada instituição pode encontrar a própria maneira de incorporar sustentabilidade à gestão, à educação, à arquitetura e à relação com a comunidade.

Quando o museu também vira laboratório

A proposta do festival e das iniciativas do SESI Lab parte de uma mudança de perspectiva: o museu não precisa apenas falar sobre o futuro. Ele também pode experimentar futuros possíveis.

No Cultiva Lab, isso ocorre por meio de plantas que crescem, solos que se recuperam e alimentos que serão produzidos. Dentro do edifício, aparece no controle do consumo de água e energia e na gestão dos resíduos. Nas oficinas, surge em jogos, experiências científicas e discussões sobre consumo, clima e biodiversidade.

E no festival, a proposta é reunir quem trabalha com cultura, ciência, educação e sustentabilidade para discutir o que funciona, o que ainda precisa mudar e como transformar boas ideias em políticas e práticas permanentes.

Para Cândida Oliveira, gerente de Desenvolvimento Institucional do Sesi Lab, o desafio é fazer com que a sustentabilidade atravesse diferentes dimensões da atuação do museu, das experiências educativas e expositivas às parcerias.

A pergunta, no fim, talvez seja menos sobre o que um museu pode ensinar sobre sustentabilidade e mais sobre o que ele próprio está disposto a aprender e transformar.

Debate com a Cândida Oliveira, gerente de Desenvolvimento Institucional do Sesi Lab aborda práticas de sustentabilidade e inovação.
Cândida Oliveira: “Conectar cultura, educação e inovação está no DNA do SESI Lab”

Festival Anual SESI Lab 2026

Tema: Museus e Sustentabilidade
Data: 19 de agosto de 2026
Horário: das 9h às 18h30
Local: SESI Lab, Setor Cultural Sul, Bloco A, Brasília (DF)

Entrada: gratuita e aberta ao público, mediante inscrição.

O Festival Anual 2026 do SESI Lab conta com apoio da Shell e do Ministério da Cultura.

A iniciativa também se insere em uma agenda mais ampla de parcerias do museu com empresas e instituições para desenvolver ações educativas e culturais relacionadas à sustentabilidade. Entre os projetos apresentados pelo SESI Lab está o Cultiva Lab, promovido em parceria com a Bayer e o TikTok.

A proposta é aproximar diferentes setores da sociedade da discussão sobre sustentabilidade e mostrar, na prática, como ciência, tecnologia, cultura e educação podem trabalhar juntas na construção de soluções para os desafios ambientais.

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