Últimas

Conseguiu emprego? E dinheiro barato? (por Roberto Caminha Filho)

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Conseguiu emprego? E dinheiro barato? (por Roberto Caminha Filho)

Os brasileirinhos acordavam e vinham logo as perguntas:

— Onde está o emprego? E precisa trabalhar?

Agora começa a aparecer outras duas perguntas:

— Onde está o dinheiro barato? E precisa pagar?

O país conseguiu uma coisa extraordinariamente importante. A taxa de desemprego chegou a 5,6% no trimestre encerrado em maio. Um ano antes estava em 6,2%. O rendimento médio real do trabalhador também avançou na comparação anual.

Então, alguma coisa está funcionando. E o Paraguai se orgulhando. Ainda bem que o Governo desativou as modernas práticas do IBGE.

O brasileiro está trabalhando?

O problema é que, quando sai do trabalho e resolve comprar, financiar, construir ou investir, encontra outro Brasil esperando por ele. O Brasil dos juros. E esse sujeito não está para brincadeira. A taxa Selic está em 15% ao ano.

Selic soa como purgante ruim, mas seus efeitos aparecem na prestação do carro, no financiamento das empresas, nos empréstimos, no cartão de descrédito e no custo do dinheiro que nos sacaneia no bolso e na barriga.

É importantíssimo explicar uma coisa. Selic não é o juro do cartão de crédito.

É uma taxa básica da economia. A partir dela, os bondosos bancos e as amáveis instituições financeiras calculam seus custos, acrescentando, suavemente, riscos, impostos, despesas e margem. E aí os juros chegam ao freguês gordinhos, pra Mounjaro nenhum botar defeito.

Em abril, segundo o Banco Central, a taxa média das novas concessões de crédito estava em 33,8% ao ano. No chamado crédito livre, a média chegava a 49,5%. Para as pessoas físicas, atingia impressionantes e inimagináveis 63% ao ano. Só o Brasil consegue viver com essas taxas. E os ministros se acham o máximo! Não há cós de peruano que aguente!

É dinheiro caro! Muito caro! Caríssimo!  Imagine a pequena empresa, aquela que realmente emprega. Ela tem freguês. Tem funcionário. Tem produtos. Tem vontade de aumentar a loja.

Precisa de R$ 100 mil para comprar equipamentos, ampliar o estoque ou abrir uma segunda unidade. Vai ao banco e descobre que seu novo sócio pode ser o juro. E o pior sócio possível. Não trabalha. Não abre a loja. Não atende freguês. Não carrega caixa. Mas quer receber primeiro. A mesma história acontece dentro de casa.

O trabalhador conseguiu “emprego” e pensa em trocar o automóvel, reformar a cozinha, comprar uma geladeira ou financiar sua primeira casa.

A economia deveria responder:

— Vá em frente!

O juro responde:

— Vamos conversar…

E chega carregando uma calculadora vermelha, chinesa.

Conseguimos fazer o “emprego andar”. Precisamos fazer o crédito aparecer e andar junto. Isso não significa simplesmente mandar o Banco Central baixar os juros amanhã. Economia não funciona no grito.

O Banco Central do Brasil mantém os juros elevados porque continua preocupado com a inflação e com as expectativas de inflação. Se os preços voltarem a disparar, quem paga primeiro é justamente o trabalhador. E se fizer errado, as Casas Bahia terão várias companheiras na sarjeta e mais de 30.000 desempregados entre empregos diretos e indiretos. O Paraguai sorri!

Dinheiro barato com inflação descontrolada também não resolve. Seria trocar a lepra pelo câncer.

O desafio verdadeiro é criar as condições para que os juros possam cair de maneira sustentável.

E aí o assunto deixa de pertencer somente ao Banco Central. Entra o governo. Entra o Congresso. Entram as contas públicas. Entra a produtividade. Entra a concorrência bancária. Entra a confiança de quem empresta e de quem investe. Porque existe uma regra simples que funciona da quitanda ao mercado financeiro: quanto maior o risco, imenso será o preço do dinheiro.

É aí que Brasília precisa fazer sua parte.

O governo precisa demonstrar responsabilidade com gastos e dívida. O Congresso precisa compreender que orçamento não é árvore de Natal onde cada parlamentar pendura seu presente. E o Banco Central não pode ser amador.

Emprego e crédito são parceiros. O emprego dá confiança para consumir. O crédito permite antecipar investimentos e compras. O investimento cria empresas.

As empresas criam empregos. E novos empregos criam consumidores. É uma roda. Quando a “geringonça” funciona, chamamos de crescimento.

Quando o juro fica alto demais durante tempo demais, alguém tem que colocar um pedaço de pau-ferro nessa roda.

O Brasil já venceu batalha assim. Foi uma conquista que deve ser reconhecida, independentemente de preferência política.

Precisamos transformar emprego em renda, renda em consumo responsável, consumo em produção, produção em investimento e investimento em novos empregos.

Para isso, o brasileiro não precisa de dinheiro de graça. Precisa de dinheiro com preço civilizado. A invenção da Bolsa-Voto está custando muito caro. Existe outro lugar, no mundo, com Bolsa-Voto?

O Brasil conseguiu emprego. Agora falta uma coisa: Fazer o dinheiro trabalhar também.

Roberto Caminha Filho, economista, não leu nenhum livro lido pelo nosso Banco Central. Sugiro anestesiar e intubar, carinhosamente, Brasília, só por 30 dias e, depois, medir a inflação.