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Lenda, poesia e tragédia: por que a Serra do Rola-Moça tem esse nome?

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Lenda, poesia e tragédia: por que a Serra do Rola-Moça tem esse nome?

Belo Horizonte – A Serra do Rola-Moça tem uma das paisagens mais bonitas de Minas Gerais: o parque se estende pelos municípios de Belo Horizonte, Brumadinho, Nova Lima e Ibirité e é o terceiro maior em área urbana do país. O acesso é feito pela BR-040 e diariamente a região recebe muitos carros, além de visitantes que percorrem as trilhas da área verde.

Nos últimos seis meses, porém, além da beleza extraordinária, a serra chamou atenção por ter sido palco de tragédias: a morte de uma mulher após o carro em que ela estava cair em uma ribanceira e o caso de outra, que sobreviveu depois de ser arremessada de um penhasco pelo ex-companheiro. Mas o que essas histórias dizem sobre o lugar? 

O que muita gente não sabe é que o nome da serra pode ter surgido por causa de uma tragédia que, até hoje, ninguém sabe ao certo se realmente aconteceu. A lenda conta que um casal de recém-casados atravessava a serra a cavalo em direção à nova morada, quando o animal montado pela jovem escorregou no cascalho à beira de um grotão, provocando sua queda. Na tentativa de salvá-la, o marido também acabou caindo, e ambos morreram no local.

Essa versão se eternizou depois que o poeta Mário de Andrade (1893-1945) ouviu a história e a transformou em versos que começam assim: “A Serra do Rola-Moça / Não tinha esse nome não…”. Leia:

Eles eram do outro lado,
Vieram na vila casar.
E atravessaram a serra,
O noivo com a noiva dele
Cada qual no seu cavalo.

Antes que chegasse a noite
Se lembraram de voltar.
Disseram adeus pra todos
E se puserem de novo
Pelos atalhos da serra
Cada qual no seu cavalo.

Os dois estavam felizes,
Na altura tudo era paz.
Pelos caminhos estreitos
Ele na frente, ela atrás.
E riam. Como eles riam!
Riam até sem razão.

A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não.

As tribos rubras da tarde
Rapidamente fugiam
E apressadas se escondiam
Lá embaixo nos socavões,
Temendo a noite que vinha.

Porém os dois continuavam
Cada qual no seu cavalo,
E riam. Como eles riam!
E os risos também casavam
Com as risadas dos cascalhos,
Que pulando levianinhos
Da vereda se soltavam,
Buscando o despenhadeiro.

Ali, Fortuna inviolável!
O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto
Precipitados no abismo.
Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte,
Na altura tudo era paz …
Chicoteado o seu cavalo,
No vão do despenhadeiro
O noivo se despenhou.

E a Serra do Rola-Moça
Rola-Moça se chamou.

O Parque Estadual da Serra do Rola-Moça ocupa uma área de 4.006 hectares e abriga uma rica fauna, com animais como lobo-guará, onça-parda, cachorro-do-mato, carcará e diversas outras espécies de aves. A unidade de conservação foi criada oficialmente em 27 de setembro de 1994, por meio do Decreto Estadual nº 36.071, segundo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad). Antes disso, não há registro oficial sobre como a região era chamada.

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Parque Estadual Serra do Roça Moça
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Parque Estadual Serra do Roça Moça
Metrópoles
Parque Estadual Serra do Rola Moça, em MG
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Parque Estadual Serra do Rola Moça, em MG

Evandro Rodney/ Secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais/ Divulgação
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Evandro Rodney/ Secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais/ Divulgação
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Parque Estadual Serra do Roça Moça

Segundo o historiador e poeta Isaías Gabriel Franco, o poema em que Mário de Andrade menciona a Serra do Rola-Moça integra “Noturno de Belo Horizonte”, uma das composições centrais do livro “Clã do Jabuti”, lançado em 1927 e que reúne textos escritos entre 1923 e 1926.

“Escrito em versos livres, ‘Noturno de Belo Horizonte’ realiza uma espécie de percurso poético por Minas Gerais, articulando diferentes temporalidades e imagens. Ao longo do poema, o eu lírico transita entre a Minas do presente, a Minas do passado, povoada por lendas e pelas cidades históricas, e a Minas moderna, representada, naquele momento, por Belo Horizonte, cidade dos ‘milhares de brilhos vidrilhos'”, contou.

Isaías conta que o poema já estava em andamento em abril de 1924. Em uma carta enviada a Manuel Bandeira, Mário de Andrade faz referência aos seus “versos mineiros”, indicando que começou a escrevê-lo logo após a viagem a Minas Gerais durante a Caravana Modernista.

Na ocasião, ele esteve acompanhado de Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Paulo Prado, Blaise Cendrars, entre outros intelectuais da época. “Eles vieram em busca de uma arte “genuinamente nacional”, cujo símbolo por excelência seria o Aleijadinho”, contou.

Essa, porém, não foi a primeira visita de Mário de Andrade a Minas. Segundo o historiador, ele esteve no estado pela primeira vez em 1919, para visitar o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens.

Isaías afirma que Mário de Andrade era profundamente apaixonado pela cultura brasileira. “O próprio Macunaíma pode ser lido como uma rapsódia que incorpora lendas, narrativas populares e elementos do folclore. Além disso, durante suas viagens, Mário registrava inúmeros aspectos etnográficos, folclóricos e musicológicos, demonstrando um interesse sistemático pelas manifestações da cultura popular”, disse.

Ao incorporar a lenda da Serra do Rola-Moça à sua obra, Mário de Andrade ajudou a ampliar a circulação dessa história. No entanto, não só isso: Isaías faz uma reflexão sobre, também, o futuro da área verde:

“É inevitável perguntar: por quanto tempo esse poema continuará a ser lido e a ocupar um lugar no cânone da literatura brasileira? Talvez haja uma questão ainda mais importante: será que, daqui a muitos anos, as transformações na paisagem provocadas, por exemplo, pela mineração ainda permitirão a existência da Serra do Rola-Moça e do parque que hoje a preserva?”, questionou.

A mineração na Serra do Rola-Moça

No ano passado, o parque voltou ao centro do debate após moradores, ambientalistas e deputados questionarem uma possível retomada da mineração na unidade de conservação.

Segundo Clara Paiva, moradora de Casa Branca e integrante do Movimento Águas e Serras de Casa Branca (MASCB), o parque foi criado para proteger mananciais que abastecem a Grande Belo Horizonte.

Hoje, a principal discussão envolve a Mina Casa Branca. A empresa tenta retomar atividades para descaracterizar barragens e vender o minério retirado. Moradores questionam se o risco de rompimento foi superestimado para justificar a operação.

“A empresa mencionou a Lei Mar de Lama Nunca Mais ao tratar do tema de risco de liquefação e do possível rompimento da Barragem B1. Também classificou uma de suas barragens como nível 1 de atenção em 2020. Com essa abordagem, foi firmado um TAC em 2023 relacionado ao processo de descaracterização da barragem, estabelecendo obrigações e prevendo a continuidade das atividades necessárias ao fechamento da mina e à recuperação da área. Persistem questionamentos públicos sobre a forma como esse processo foi conduzido e sobre a comunicação adotada ao longo do período”, disse.

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