A possibilidade de formação de um ciclone-bomba no Atlântico Sul colocou parte do Brasil em alerta nesta semana. O fenômeno pode provocar temporais, granizo e fortes rajadas de vento, principalmente na Região Sul do país.
Apesar do nome assustador, um ciclone-bomba não é um tipo completamente diferente de ciclone. O termo é usado quando um ciclone extratropical se intensifica muito rapidamente, com forte queda da pressão atmosférica em um curto período. O processo é chamado de ciclogênese explosiva ou bombogênese.
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o sistema começou a se organizar a partir de uma área de baixa pressão sobre o norte da Argentina e o Paraguai e evoluiu para um centro de baixa pressão entre o Uruguai e o litoral do Rio Grande do Sul.
A previsão do modelo COSMO, do INMET, indicava que a pressão no centro do sistema poderia chegar a aproximadamente 967 hectopascais (hPa) nesta sexta-feira (7/8) e cair para cerca de 941 hPa no sábado (8/8). A redução próxima de 26 hPa em 24 horas é compatível com um processo de bombogênese.
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Como se forma um ciclone-bomba?
A formação começa de maneira semelhante à de outros ciclones extratropicais. Um dos principais “ingredientes” é a presença de massas de ar com temperaturas muito diferentes próximas umas das outras.
O ar frio é mais denso, enquanto o quente é mais leve. O forte contraste de temperatura ajuda a acelerar os ventos nas camadas mais altas da atmosfera e, junto a outros mecanismos atmosféricos, favorece a queda da pressão próxima à superfície.
O meteorologista Micael Cechinni, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), apoiado pelo Instituto Serrapilheira, explica que a diferença de temperatura é fundamental para a formação dos ciclones extratropicais.
“Mais praticamente, o que importa é a diferença de temperatura na superfície e nessa interface entre o ar e a superfície”, explica.
Com a queda da pressão, o ar ao redor se desloca em direção à região de baixa pressão e, por influência da rotação da Terra, passa a circular ao redor do centro do ciclone. Ao mesmo tempo, o ar frio avança por baixo e força o ar quente a subir, favorecendo a formação de nuvens carregadas e tempestades.

Por que ele recebe o nome de “bomba”?
A diferença está na velocidade com que o ciclone ganha força. Quanto maior o contraste entre as massas de ar e mais favoráveis forem as condições atmosféricas, mais rapidamente a pressão no centro do sistema pode cair.
“Se você tem uma diferença mais drástica de temperatura, essa corrente em altos níveis vai ser mais forte, o que vai fazer a pressão em superfície diminuir mais rápido”, afirma Cechinni.
Um parâmetro clássico para identificar a ciclogênese explosiva considera uma queda de 24 hPa em 24 horas na latitude de 60 graus. O limite é ajustado de acordo com a latitude onde o ciclone ocorre.
Portanto, nem todo ciclone extratropical é um ciclone-bomba. A classificação depende de uma intensificação suficientemente rápida, medida pela queda da pressão atmosférica.
Quais são os principais riscos?
Os maiores perigos estão associados aos ventos fortes e às tempestades que acompanham o ciclone e a frene fria. Para o atual episódio, o INMET prevê possibilidade de chuva, temporais, descargas elétricas, granizo e rajadas de vento.
Os ventos mais intensos devem ocorrer sobre o Oceano Atlântico e podem superar 100km/h perto do centro do ciclone. Na faixa costeira e em áreas da Região Sul, principalmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, também são esperadas rajadas superiores a 60 km/h.
Ventos intensos podem derrubar árvores e postes, destelhar imóveis e interromper o fornecimento de energia. Temporais podem provocar alagamentos, enquanto o granizo pode causar danos a plantações, veículos e construções.
Segundo Cechinni, um contraste maior entre as massas de ar favorece tempestades mais fortes. “Na prática, isso gera tempestades muito intensas, granizos”, afirma.
Depois da passagem do sistema e da frente fria, uma massa de ar frio deve avançar sobre o centro-sul do país, provocando queda das temperaturas, inclusive em áreas do Centro-Oeste e do Sudeste.

Brasil já registrou ciclone-bomba
O fenômeno não é inédito no país. Um episódio oficialmente classificado pelo INMET como ciclone-bomba atingiu o Sul do Brasil entre 29 e 30 de junho de 2020.
Na ocasião, o contraste entre uma massa de ar quente ao norte e outra fria ao sul, combinado a condições favoráveis na atmosfera, levou à rápida intensificação de um ciclone extratropical.
O episódio provocou fortes tempestades e rajadas de vento na Região Sul. O INMET registrou vento de 116 km/h em Santa Vitória do Palmar, no Rio Grande do Sul, e apontou rajadas que chegaram a cerca de 120 km/h em áreas atingidas pelas instabilidades.
O fenômeno já ocorreu no país, mas a classificação de cada episódio depende da análise do comportamento da pressão atmosférica. O nome “ciclone-bomba”, portanto, não significa que o sistema vá necessariamente provocar uma catástrofe. O termo descreve a rapidez com que um ciclone se intensifica. A dimensão dos impactos depende da força, da trajetória e das áreas atingidas.

