Ex-embaixadores consultados pelo Metrópoles avaliam que o período eleitoral brasileiro impactou as negociações sobre o tarifaço com os Estados Unidos. O Brasil foi alvo de duas novas tarifas nessa semana, mesmo após meses de conversas entre os dois países.
Na avaliação de Rubens Barbosa, que foi embaixador do Brasil em Londres e Washington, o governo brasileiro politizou internamente a disputa com os EUA, em virtude das eleições presidenciais que acontecem em outubro.
Para o diplomata, o governo de Donald Trump “mudou a regra do jogo” na relação com todos os países, não apenas com o Brasil.
“O que vale é a lei da selva, cada país defende seus interesses. A gente está misturando política externa com partidarismo e política interna”, avalia. “Uma coisa é o interesse nacional como política de estado na área econômica, outra coisa é a ideologia e o partidarismo. Precisamos separar isso no Brasil, senão vamos sair prejudicados. O que acontece é que está prevalecendo a política interna sobre a política nacional do país”, pontua Barbosa.
Ainda segundo ele, o governo brasileiro, ao afirmar que pretende adotar a reciprocidade, adotou um discurso que eleva o tom contra os Estados Unidos, o que pode ser prejudicial na relação entre os dois países, sobretudo em um período eleitoral, em relação ao qual Washington já demonstrou demasiado interesse em uma possível interferência.
“Temos que ter estratégia de negociação com os Estados Unidos e, durante esse período atual, acho que vai haver um problema político ainda maior, porque vai ter inferência direta americana no Brasil. Vai ter contaminação com desinformação e, nesse período, não pode ter negociação. A partir de janeiro, o país precisa pensar em uma estratégia para negociar com os Estados Unidos, porque agora prevalece a narrativa de política externa”, pontua.
Tarifas dos EUA contra o Brasil
- Em cinco oportunidades, desde o início do atual governo Trump, os Estados Unidos anunciaram tarifas contra o Brasil.
- No chamado Dia da Libertação, em 2025, Trump anunciou taxas recíprocas de 10% contra o Brasil.
- Em seguida, no dia 9 de julho de 2025, Trump anunciou mais 40% de taxas a produtos brasileiros, que se somaram aos 10% já aplicados, totalizando 50% de alíquota.
- A taxa foi justificada, inicialmente, como retaliação pelo o que Trump chamou de “caça às bruxas” contra os ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
- Em fevereiro de 2026, após a Suprema Corte derrubar o tarifaço de 50%, Trump anunciou uma nova alíquota global de 10% para todos os países.
- Em junho deste ano, o USTR, órgão comercial dos EUA, concluiu uma investigação contra o Brasil e sugeriu a aplicação de 25% de taxas ao país.
- A nova tarifa foi aprovada por Trump e entrou em vigor no dia 22 de julho.
- Por último, nessa quinta-feira (23/7), os EUA aplicaram mais 12,5% de taxas ao Brasil e outros países, como resultado de uma investigação sobre suposto trabalho forçado.
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As tarifas e a narrativa interna
Para um outro ex-embaixador consultado pelo Metrópoles, que pediu para não ser identificado, a avaliação é de que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) buscou singularizar a política comercial adotada por Donald Trump ao Brasil.
“Não é só o Brasil que está sendo afetado pelas taxas, o mundo inteiro está sendo afetado, não é algo exclusivo do Brasil”, pontua ele.
O diplomata avalia que a narrativa adotada pelo governo tem viés eleitoral. “Brigar com os Estados Unidos é uma medida que pode dar voto, isso é uma decisão política e comumente adotada por governos populistas, a narrativa do inimigo externo funciona com o eleitor”, diz ele.
A política tarifária adotada pelos Estados Unidos endossou o discurso de polarização política no Brasil, nos últimos meses. As taxas aplicadas por Trump têm sido usadas por Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário de Lula na corrida eleitoral, como argumentos para criticar o atual governo. No sentido oposto, a gestão Lula utiliza as taxas para respaldar um discurso eleitoral de soberania nacional.
Pouco espaço para negociar
No ponto de vista do ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, diplomata e ex-embaixador do Brasil em Washington, a postura adotada pelos Estados Unidos tem um viés político contra o Brasil, o que prejudicou as negociações entre as duas nações.
“A medida teve motivação político-ideológica e nunca houve negociação de boa fé da parte norte-americana. As razões mencionadas por Rubio e outras autoridades dos Estados Unidos mostram isso claramente”, avalia ele.
Embora reconheça um “padrão geral unilateral e protecionista de Trump”, Ricupero acredita ter havido “intenção particularmente agressiva em relação aos produtos brasileiros”.
Na percepção do Palácio do Planalto, as tarifas contra o Brasil têm a intenção de pressionar o governo Lula de maneira negativa e com a intenção de influenciar as eleições brasileiras, de modo a favorecer Flávio Bolsonaro, com quem a gestão Trump tem certa proximidade.
Nesse sentido, o ex-embaixador vê pouco espaço para uma reversão das taxas durante o atual governo nos Estados Unidos. Ainda segundo o ex-ministro, é preciso pensar em um momento sem Donald Trump para buscar uma negociação com o objetivo de reverter as tarifas.
Reciprocidade pode ser perigosa, mas governo prega cautela
Após o anúncio da segunda sobretaxa contra o Brasil, o governo Lula voltou a falar em acionar “imediatamente” os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade. A legislação, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, autoriza o Brasil a retaliar ou aplicar sobretaxas equivalentes contra países que imponham barreiras comerciais unilaterais aos produtos brasileiros.
A medida, contudo, não é bem vista pelos ex-embaixadores consultados pelo Metrópoles. Na avaliação dos diplomatas, a reciprocidade pode escalar a tensão política entre os dois países e prejudicar ainda mais o setor industrial brasileiro.
Integrantes do governo consultados sob reserva pela reportagem, no entanto, pregam que a medida será adotada com cautela. Ainda de acordo com interlocutores do presidente Lula, nenhuma medida será adotada sem uma consulta ao setor produtivo brasileiro.
“Tudo vai ser cuidadoso e vamos encontrar um caminho que possa causar impacto neles (Estados Unidos) mas sem prejudicar nossos produtores e nossos setores”, revelou um membro do governo ligado às negociações com Washington.

