Os promovidos juvenis da Espanha ganharam a COPA DO MUNDO DAS TRÊS NAÇÕES. Preparemo-nos para eles com 22 e 23 anos. Eles voltarão voando para o TRI. Teremos quatro anos para formar meio-campistas como Clodoaldo e Gerson alem de laterais como Carlos Alberto e Nilton Santos.
Depois da decisão da primeira Copa do Mundo nos três países, a de 2026, fiquei lembrando de uma entrevista do inesquecível Franz Beckenbauer.
O “Kaiser” dizia admirar profundamente o futebol brasileiro. Contava que, para aprender a jogar na Alemanha, precisou entrar numa escolinha. Ali, treinava fundamentos durante horas. Trinta cobranças de escanteios pela direita. Trinta pela esquerda. Pênaltis com dois lados dos pés. Passe curto. Passe longo. Domínio. Posicionamento. Tudo repetido até virar reflexo.
O Kaiser repetia que os brasileiros aprendiam na praia. Nos quintais. Nos terrenos baldios. Nos corredores e recreios das escolas. Na rua fechada, depois do almoço. Na pelada em que o gol era feito com dois chinelos e a gorduchinha terminava dentro da casa da vizinha com a vidraça quebrada pela bola de plástico ou de cernambi (borracha coagulada no fundo da tigela de coleta que encapa um balão, durante a noite).
O drible surgia para escapar do mais velho. A trivela aparecia para fugir da marcação e da barreira. O improviso era consequência da falta de espaço. O talento nascia naturalmente. E era nos morros que a criatividade assombrava com os campeonatos de dribles. O Kaiser Beckenbauer tinha razão. Mas tudo mudou.
Desapareceram as fábricas de craques. Os quintais encolheram. Os terrenos vazios viraram condomínios. As ruas ficaram perigosas. As praias estão cada vez mais ocupadas. As escolas, muitas vezes, já não possuem espaço para uma boa pelada.
Enquanto isso, as escolinhas européias e americanas cresceram. São excelentes. Mas, aqui, custam algum dinheirinho para os brasileirinhos. Mensalidade. Uniforme. Chuteira. Transporte. Falta o Bolsa Pelada.
Talvez esteja aí uma das maiores missões da Confederação Brasileira de Futebol, das federações, dos clubes, das prefeituras e das escolas. Não basta descobrir talentos.
É preciso reconstruir os lugares onde eles nascem. Cada bairro deveria ter um campo. O futebol sempre foi uma das maiores ferramentas de inclusão social do Brasil.
E talvez a maior distância entre a Seleção Brasileira e a próxima Copa do Mundo não seja medida em quilômetros. Nem em pontos nas Eliminatórias. Ela é medida na distância entre uma criança e uma bola.
Enquanto outros países constroem milhares de campos, nós fechamos os nossos. Enquanto eles multiplicam horas de treino, nós multiplicamos horas de tela entre a criança e o celular. Enquanto eles transformam o futebol em política pública, nós desmoralizamos um esporte que, para muita gente, ficou caro demais até para sonhar.
Depois, quando a Copa chega, perguntamos por que o Brasil já não encanta o mundo como antes.
A resposta talvez esteja bem debaixo dos nossos pés: faltam campos, sobram pedágios.
Está na hora de diminuirmos os pedágios entre a verba da Loteria da Caixa e o brasileirinho. Alguém diga se estou errado nesse caminho em que a grana da loteria se esforça pra chegar no atleta: Loterias, Ministério, Comitê Olímpico, Confederação, Federação, Clube ou Escola e o pobre do brasileirinho. Em nenhuma dessas entidades treina-se futebol.
Está na hora da CBF, das federações, dos clubes, dos prefeitos, dos governadores e do Governo Federal lançarem o maior programa de recuperação dos campos de várzea, das quadras escolares e das peladas de bairros da nossa história. Não seria um gasto. Seria um investimento na saúde, na educação, na segurança pública e, de quebra, no futebol que fez o planeta aprender a pronunciar Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho e Neymar.
Porque craque não nasce em laboratório. Craque nasce onde há bola, espaço, amigos e liberdade para brincar com professor peladeiro.
Que tal os Jogos Estudantis Brasileiros coordenados por uma equipe de quatro Campeões Mundiais como Ronaldo, Ronaldinho, Rivelino e Clodoaldo. Sempre renovando, a cada ano?
Se não diminuirmos essa distância entre a infância e o futebol, corremos o risco de assistir, às próximas Copas, como espectadores saudosos de um passado glorioso, enquanto países que um dia sonharam em nos enfrentar passam a comemorar as nossas derrotas.
E aí, meu amigo, o problema já não será perder uma partida. Será perder a nossa identidade. O futebol brasileiro nunca foi um milagre. Sempre foi consequência. Consequência de milhões de meninos e meninas que aprendiam… jogando.
Se quisermos voltar a ser a maior escola de futebol do planeta, a primeira matrícula não deverá ser feita numa escolinha mas na escola.
O problema da camisa amarela é que ela nunca foi feita para escapar. Ela foi costurada e ungida para chegar nas finais.
E, se continuarmos aumentando a distância entre as nossas crianças e a bola, um dia vamos descobrir que a maior viagem até a Copa do Mundo não será atravessar um oceano. Será atravessar a rua para encontrar um lugar onde ainda seja possível jogar futebol.
Roberto Caminha Filho, economista, foi a cinco Copas, sentou-se ao lado de Henry Kissinger em todas e, juntos, sem gracejos, vimos um futebol bonito decair,

