O turismo brasileiro vive um momento de virada histórica. Após romper a barreira dos 9 milhões de visitantes internacionais anuais, a meta agora é outra: alcançar a marca inédita de 10 milhões de turistas estrangeiros.
Para um país que passou anos estagnado no patamar dos 6 milhões, o objetivo injeta um otimismo justificado, impulsionado pelo aumento da malha aérea e pela forte promoção da diversidade cultural e sustentabilidade do Brasil.
Dados do Ministério do Turismo apontam quea Argentina foi, em 2025, o principal mercado emissor de turistas para o Brasil. Entre janeiro e novembro, o país enviou 3,1 milhões de visitantes aos destinos brasileiros, número 82,1% superior ao registrado no mesmo período de 2024.
Na sequência aparece o Chile, com 721.497 entradas de turistas no período, o que representa um crescimento de 24,4% em relação ao ano anterior. Os Estados Unidos ocupam a terceira posição, com 677.888 visitantes e avanço de 5,8%.
O Uruguai figura em quarto lugar, com 487.514 turistas desembarcando no Brasil entre janeiro e novembro, aumento de 37,2% na comparação com igual período de 2024.
Fechando o ranking dos cinco principais emissores está o Paraguai, responsável por 454.327 chegadas de visitantes estrangeiros, alta de 14,4%.
Dessa forma, será que a meta de 10 milhões de turistas estrangeiros é viável ou seria ambição demais?
Não é apenas uma marca simbólica. Dez milhões de turistas estrangeiros representam entrada de divisas, geração de empregos, ocupação hoteleira, consumo em restaurantes, transporte, passeios, guias, eventos, artesanato, comércio e serviços.
Rodrigo Rodrigues, especialista em turismo
Segundo ele, o turismo tem uma característica muito especial: ele distribui renda. O dinheiro do visitante estrangeiro não fica concentrado em uma única ponta. Ele passa pelo aeroporto, motorista, hotel, restaurante, guia turístico, pequeno comércio, atrativo turístico e pela comunidade local.
Além disso, o turista estrangeiro ajuda a equilibrar a sazonalidade. Muitos destinos brasileiros dependem fortemente do turismo doméstico e de períodos específicos, como férias escolares e feriados.
“O internacional pode trazer fluxo em outros meses, com maior gasto médio e estadia mais longa, desde que o produto esteja bem posicionado”, explica ele, que é diretor comercial da Schultz pacotes de viagens.
Para ele, a meta de 10 milhões de turistas estrangeiros é ambiciosa, mas viável. O Brasil ainda enfrenta desafios de infraestrutura, segurança, conectividade, qualificação profissional e atendimento, porém já demonstrou capacidade de crescer no turismo quando há promoção e melhorias de acesso.
Influência da imagem
Essa influência ocorre de forma direta. Rodrigo Rodrigues explica que turismo é desejo, mas também confiança. O Brasil tem uma vantagem enorme: é um país com uma imagem emocional muito forte.
“Quando se fala do nosso país no exterior, aparecem atributos como natureza, alegria, cultura, gastronomia, música, diversidade e hospitalidade. Isso é um ativo poderoso”, avalia o especialista.
O ponto é que, durante muito tempo, o Brasil foi vendido quase sempre pelos mesmos cartões-postais: praia, Carnaval e futebol. Tudo isso é importante, claro, mas o país é muito maior.
Hoje, o turista internacional busca experiências mais autênticas, destinos de natureza, cultura local, gastronomia, vivências regionais e viagens com propósito. Nesse cenário, o Brasil tem uma oferta quase imbatível.
A imagem do país ajuda muito quando é bem trabalhada. Mas, ela precisa ser consistente. Não basta despertar curiosidade, é preciso transmitir segurança, organização e facilidade de compra.
“O turista pode se encantar com o Brasil, mas só embarca quando sente que a viagem é viável, segura e bem estruturada”, pondera.
“Muitas vezes o turista estrangeiro não tem medo do Brasil real, ele tem medo da imagem fragmentada que chega até ele. Notícias sobre violência, problemas urbanos e infraestrutura precária criam uma barreira antes mesmo da escolha do destino. Para quem vende turismo, isso pesa muito”, assegura Rodrigues.
O que o Brasil precisa fazer para atrair mais turistas?
- A primeira estratégia é parar de vender o Brasil de forma genérica.
O país precisa ser apresentado por segmentos e interesses: natureza, luxo, gastronomia, cultura, turismo de aventura, praias, Amazônia, Pantanal, Foz do Iguaçu, cidades históricas, enoturismo, grandes eventos e experiências regionais.
- A segunda é fortalecer a promoção internacional com continuidade.
Não adianta fazer uma campanha pontual e desaparecer. Turismo exige presença constante nos mercados emissores, treinamento de operadores, relacionamento com imprensa, influenciadores certos, companhias aéreas e canais de venda.
- A terceira é ampliar a conectividade aérea.
O turista pode desejar o Brasil, mas se o acesso for caro, difícil ou demorado, ele troca de destino. Voo direto, boas conexões e oferta de assentos fazem muita diferença.
- A quarta é trabalhar melhor a narrativa.
Atrativo turístico envolve informação clara, receptivo qualificado, atendimento multilíngue, rotas bem organizadas e presença do Poder Público em áreas de grande fluxo.
E aqui entra um ponto fundamental: profissionalização.
“Ainda temos um caminho grande na qualificação de profissionais para receber o turista internacional, principalmente em idiomas. Não adianta atrair um visitante estrangeiro se, na ponta, ele encontra dificuldade para se comunicar em hotéis ou restaurantes”, ressalta Rodrigues.
Já Rúbia Coser, empresária do setor de turismo e CEO da Travel Next Minas, explica que o Brasil já reúne todos os atributos necessários para ocupar uma posição de destaque entre os principais destinos turísticos do mundo.
“Temos uma diversidade natural, cultural e gastronômica incomparável. O que precisamos é transformar esse potencial em estratégia contínua, de longo prazo”, frisa.
A CEO aponta que isso passa por ampliar a conectividade aérea, melhorar a infraestrutura turística, fortalecer a promoção internacional e investir continuamente na qualificação dos profissionais do setor.
Também é fundamental que exista uma integração cada vez maior entre iniciativa privada e Poder Público. O turismo é uma atividade econômica extremamente competitiva, e os países que se destacam são aqueles que trabalham de forma coordenada e consistente ao longo dos anos.
Rúbia defende a regionalização como caminho para ampliar a promoção de destinos emergentes e distribuir melhor os benefícios econômicos da atividade.
De acordo com ela, o país possui uma ampla diversidade de experiências ainda pouco exploradas, com destaque para o interior de Minas Gerais, além de regiões do Norte, do Cerrado, do Pantanal e de áreas menos conhecidas do Nordeste.
Rúbia também ressalta o papel crescente da tecnologia e da inteligência artificial na transformação do setor, desde a promoção de destinos até o atendimento e a análise de dados.
Para ela, mais importante do que aumentar o número de visitantes é gerar valor, ampliar o tempo de permanência dos turistas e incentivar o retorno, indicador direto da qualidade da experiência oferecida.
“O turismo tem grande potencial para impulsionar o desenvolvimento regional e a geração de empregos, desde que seja apoiado por investimentos, planejamento de longo prazo e iniciativas que fortaleçam a competitividade do setor”, acrescenta.

