Caras, caros e cares,
Não sei se Flávio Bolsonaro vai perder a eleição. Espero que sim. Se alguém achar que assim escrevo em razão do meu amor inquebrantável a Lula, tudo bem. Eu nunca procuro desfazer impressões, em especial as dos que me detestam. Os que me odeiam também dizem um pouco do que sou. Se lhes passei uma determinada impressão e se são quem são, então é possível que, em parte ao menos, eu seja quem eles imaginam que sou. E, para mim, está bem.
Se alguém achar que assim escrevo por ódio ao bolsonarismo, também não tentarei desfazer. Mas há aí um equívoco: ódio é coisa distinta de asco intelectual e moral. O ódio, vizinho do amor, é ainda mais fiel do que sua versão benigna. Não é o caso. Torço para que esse troço passe logo, embora não aposte nisso, já que perdemos tempo histórico com essa gente. Adiante.
Repito: não sei Flávio vai perder. Mas seria mera questão de merecimento. A cafajestada patrocinada pelo USTR, o Escritório de Representação Comercial dos EUA, contra o Brasil é uma peça pusilânime de um misto de protecionismo rombudo com imperialismo em sua fase esclerótica.
Flávio deu um jeito de cavar uma intervenção na audiência pública para, fingindo proteger os interesses nacionais, afirmar que a tarifação, neste momento, seria do interesse de Lula porque este aproveitaria o que é uma sanção — hostil, portanto — para potencializar o discurso eleitoral.
Se houver mesmo a punição, por que ele não o faria? Flávio, Eduardo e Paulo Figueiredo, o “nepovéio” da ditadura, lutaram muito por isso. No documento de 86 páginas que o pré-candidato do PL enviou ao governo dos EUA; nas entrevistas que Eduardo concede e em suas intervenções nas redes sociais, resta mais do que evidente o que os irmãos pediram ao Imperador do Norte: “Esperem um pouco para taxar o Brasil. Se o presidente for reeleito, tudo bem!”
Mas há a hipótese de Flávio vencer. Nesse caso, a sanção seria desnecessária porque esses patriotas estão dispostos a condescender com todas as vontades do império.
Insisto: isso é inédito na história brasileira. Nem os golpistas de 1964 negociaram nesses termos com o que consideravam — e essa gente de agora ainda considera — a matriz. A turma que rasgou, então, a Constituição procurava, ao menos, afetar alguma altivez, evitando a subserviência explícita. Eduardo não disfarça. Ele tem, afinal, um propósito.
Não deixou de ser patético ver os esforços da CNA — Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária do Brasil — a contestar os “lobbies” norte-americanos, tentando provar que o nosso agro é mais produtivo, no fim das contas, do que o deles em razão de um conjunto de fatores, incluindo a competência do setor, que nada tem a ver com desmatamento ou com tarifas.
A CNA poderia ter aproveitado, claro!, para exaltar os Planos Safras de Lula — o que não faria nem debaixo do chicote —, que não caracterizam hostilidade competitiva ou deslealdade. Mas isso também não fará, eu sei…
A argumentação da CNA contra as alegações de desmatamento no Brasil ou de deslealdade tarifária é impecável, tecnicamente irrepreensível. Não obstante, aqui dentro, a entidade se alinha com o bolsonarismo. Reacionário e abjeto.
Que coisa, né? A evolução dos interesses capitalistas poderia explicar o pensamento desse grande sindicato de produtores. Mas eles preferem ser traduzidos por uma das áreas de interesse do marxismo. As condições objetivas do exercício de sua atividade importam menos do que a ideologia rombuda contra os interesses populares, que os bacanas farejam em Lula, de modo que o ódio de classe é capaz de se sobrepor até mesmo a seus interesses… de classe. Que momento notável!
Os que realmente leram os clássicos do marxismo — e não é o caso do faroleiro enfatuado Paulo Figueiredo — sabem que George Lukács está saltitando no túmulo de satisfação. E Lukács pergunta com o frenesi dos que estavam certos: “Não foi precisamente isso o que afirmei em ‘História em Consciência de Classe’, especificamente no ensaio ‘Consciência de Classe’”? Foi, sim.
Não sei o que sai lá do tal Escritório de Representação Comercial… Tendo com Lula os maiores Planos Safra da história, é provável que a CNA ainda tenha de ouvir Lula cantar Chico em seu ouvidinho, enquanto acumula seus bilhões de dólares em terra estrangeira, para onde exporta de grãos a água potável:
“Se você crê em Deus
Encaminhe pros céus
Uma prece
e agradeça ao Senhor
Você tem o amor
Que merece”
Na letra acima, de Chico, “Sob Medida”, troquem-se algumas coisas. Não é amor, mas ódio. E a burguesia rural brasileira não merece, por sua (in)consciência de classe — vão ler Luckács —, ter uma hostilidade tão lucrativa.

