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Muito trabalho pela frente (por Marcos Magalhães)

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Muito trabalho pela frente (por Marcos Magalhães)

“A favela está chorando”, celebraram argentinos em festa nos Estados Unidos, após a eliminação da seleção brasileira. Menos, hermanitos! A dor passa, a vida continua. E vem com uma certeza: dentro e fora do campo, temos muito que fazer.

Pode soar estranho por aqui, mas, para alguns cronistas europeus, os brasileiros seriam algo arrogantes ao pensar que sempre podem ganhar uma Copa do Mundo. Rumo ao hexa, essas coisas já antigas. Mas, depois de Haaland, parece que uma ficha caiu: não somos mais aquilo que pensávamos ser.

Na verdade, ao contrário do que imaginam os queridos vizinhos, a favela não chorou. Muita gente ficou triste, sim, mas os torcedores já sabiam que a equipe teria uma longa e íngreme ladeira pela frente. E o motor pifou logo no início da subida.

Agora, como tem sido de nosso hábito, o negócio é começar de novo. Com uma nova geração, uma nova disposição. E, ao contrário da arrogância que parecemos demonstrar ao resto do mundo quando se trata de futebol, com muita humildade.

Esse sentimento, aliás, se aplica aos grandes trabalhos que temos pela frente como país. E humildade combina com dedicação. Basta lembrar o exemplo que Cabo Verde deixou para a história do futebol em 2026.

Se a vida tem sido dura para a seleção brasileira nos estádios, no mundo real das ruas nada nos virá de graça. Bem ao contrário, os próximos anos prometem desafios muito grandes – especialmente para um país que procura achar um lugar ao sol na estranha desordem mundial.

Além de humildade e dedicação, naturalmente, precisamos de lideranças. No futebol já está decidido: Carlo Ancelotti comandará a seleção até a Copa de 2030. Na política, temos agora três meses para saber quem vai liderar o país nos próximos quatro anos.

Fácil é prever que o candidato eleito vai liderar o Brasil em um mundo muito instável. Um mundo que vai exigir de nós muito equilíbrio nas relações internacionais e uma intensa busca de fortalecimento interno – na economia, na tecnologia e na defesa.

A vizinhança imediata está tomada por uma direita radical, inspirada em Donald Trump. Os sonhos de integração regional só poderão sobreviver com boa dose de pragmatismo.

Os Estados Unidos de Trump se aproximam perigosamente de um Estado autoritário, retrógrado e, sem medo da palavra, cada vez mais nitidamente imperialista. Se o presidente da maior potência mundial não se acanha de pressionar a Fifa a rever punição a um jogador, tampouco terá pruridos em intervir em processos políticos no exterior.

A Rússia parece se encaminhar a um duro desfecho na guerra da Ucrânia. Depois das mortes de centenas de milhares de soldados na luta com o país vizinho, a ameaça de desabastecimento nas grandes cidades vai atormentar Vladimir Putin.

A Europa tenta deixar a segunda divisão das grandes potências, mas ainda esbarra em problemas econômicos difíceis de resolver e se vê às voltas com o desafio de voltar a investir em sua própria defesa.

E a China? De certa forma, ainda aparece como uma ilha de estabilidade, embora em seus próprios termos e dentro de seus próprios limites de um regime de partido único. Investe no futuro com sua paciência ancestral.

Para lidar com essa realidade pouco promissora, o Brasil vai precisar de estabilidade e de um claro projeto nacional. Um projeto que, até o momento, nem esteve perto do debate político.

Se a seleção precisa ser reerguida passo a passo nos próximos quatro anos, mais ainda o Brasil deve definir um rumo claro nas urnas e se dedicar a construir o seu futuro.

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