Delegados da Polícia Federal (PF) ouvidos em reservado pelo Metrópoles avaliam que a sanção do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos contra dois brasileiros por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), na última quarta-feira (1º/7), sem comunicação prévia, atrapalhou as investigações contra os suspeitos, que estavam em andamento há alguns meses.
Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira estão entre os alvos da Operação Exchange, deflagrada pela PF nesta sexta-feira (3/7). Os mandados foram deferidos pela Justiça Federal em junho, mas ainda não haviam sido cumpridos porque a equipe de investigação ainda tentava descobrir o paradeiro exato de Shimada, principal alvo, e traçar a melhor estratégia para capturá-lo.
“A foto dele saiu em tudo o que é jornal. Isso não ajudou muito. O caso é anterior à sanção. Ele (Shimada) não estava no local”, afirmou uma autoridade da Polícia Federal ao Metrópoles no início da tarde desta sexta.
Outra fonte acrescentou que teria havido descoordenação entre o FBI e a PF. Caso tivessem avisado à corporação, afirma, certamente a operação poderia ter sido deflagrada em conjunto.
Shimada é sócio da Victory, empresa investigada por participação no escândalo que envolve o Corinthians e a casa de apostas Vai de Bet. Ele é apontado pelo Departamento do Tesouro dos EUA como “elo fundamental” com agentes do PCC e, segundo o comunicado do órgão norte-americano, teria lavado mais de US$ 30 milhões em diversas cidades dos Estados Unidos.
Parente de Shimada e apontada como “intermediária para a coleta de grandes quantias em dinheiro” para o PCC, Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira foi presa pela PF. Ela seria responsável por “serviços logísticos essenciais” para a rede de lavagem de dinheiro.
Sem informação sobre elo com PCC
Principal autoridade do Ministério Público de São Paulo (MPSP) nas investigações sobre o Primeiro Comando da Capital (PCC), o promotor Lincoln Gakiya descartou que o órgão tenha informações que relacionem o empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
“No caso do Ministério Público de São Paulo, a gente não tem qualquer informação ligando esses dois indivíduos [além de Shimada, Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, presa nesta sexta-feira] ao PCC”, afirmou Gakiya. Stella também é apontada pelas autoridades norte-americanas como integrante do esquema.
À reportagem, o promotor afirmou que eventuais provas reunidas pela Polícia Federal Estadunidense (FBI), pelo Departamento de Estado ou por outra agência dos Estados Unidos sobre a suposta ligação ainda não foram compartilhadas com o MPSP.
Operação
A PF cumpre 11 mandados de prisão temporária e 13 mandados de busca e apreensão em endereços nas cidades de São Paulo, Santos, Praia Grande e Santana de Parnaíba. Também foi determinado o sequestro de bens, valores e criptoativos dos investigados até o montante total de R$ 10,4 bilhões. Mais de 50 policiais federais participam da ação.
Leia também
Segundo a PF, a investigação identificou que os suspeitos utilizavam um sistema estruturado para movimentar recursos. Entre as estratégias citadas pela corporação, estão transferências ilícitas de criptoativos, transporte de valores em espécie, operações bancárias de alto valor, repasses entre pessoas físicas e jurídicas e outras atividades financeiras. As movimentações superiores a R$ 10 bilhões foram identificadas a partir de análises preliminares.
Defesa se manifesta
Em nota, a defesa de Victor Shimada disse que, até o início da manhã desta sexta, não havia tido acesso às decisões judiciais nem aos elementos que fundamentaram as medidas adotadas na operação da PF.
“Nesse contexto, qualquer manifestação sobre os fatos ou sobre o objeto da investigação seria precipitada. Tão logo tenha acesso aos autos e às informações oficiais, a defesa realizará a análise técnica do caso e adotará as medidas jurídicas que entender cabíveis”, afirmou o advogado Yuri Cruz.
Em posicionamento anterior, enviado após as sanções dos EUA, a defesa afirmou que analisará a situação com cautela e reforçou que Victor Shimada “nega veementemente qualquer envolvimento com organização criminosa ou com a prática de lavagem de dinheiro”.
Os representantes de Stella Stefanie de Oliveira não foram localizados. O espaço está aberto para atualizações.

