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"Não sou juiz", diz Nunes sobre suspeitas com ONG de Dark Horse

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
"Não sou juiz", diz Nunes sobre suspeitas com ONG de Dark Horse

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), afirmou nesta terça-feira (30/6) que a Prefeitura de São Paulo não tem acesso a contratos assinados pela ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB) com uma empresa subcontratada que tem como sócio um suspeito de ser membro do Primeiro Comando da Capital (PCC).

O ICB, representado por Karina Ferreira da Gama, foi contratado pela gestão municipal por R$ 108 milhões para instalar pontos de wi-fi na capital. A entidade teria destinado R$ 12 milhões à empresa Favela Conectada, cujo dono, Alex Leandro Bispo, teria entrado para o crime organizado quando cumpriu pena em presídios dominados pela facção, segundo uma investigação do Ministério Público de São Paulo (MPSP).

“O contrato [da Prefeitura] é com a entidade que está prestando o serviço. Quem a entidade contrata, a gente não tem nem acesso a isso. Agora, se obviamente tem o envolvimento de alguém ligado ao PCC, tem que ser julgado pela Justiça, condenado e preso. Eu não sou juiz, eu sou prefeito”, afirmou Nunes durante agenda.

A empresa de Bispo foi contratada pelo ICB para realizar o serviço de manutenção, recebendo R$ 712 por mês por ponto. Em um dos pagamentos, a empresa recebeu 12 “mensalidades” de manutenção de internet por 218 pontos instalados entre 22 e 28 de abril de 2025, em um contrato que valia só até 30 de junho — logo, o serviço só funcionou por pouco mais de dois meses, mas recebeu por 12.

Enquanto a prefeitura pagou R$ 2,7 milhões à ONG presidida por Karina, que também é produtora da cinebiografia Dark Horse, de Jair Bolsonaro, só pela manutenção desses 128 pontos, o custo efetivo do serviço que chegou à população (no máximo três meses de internet gratuita) foi de apenas R$ 273 mil, considerando o custo de R$ 712 por ponto. No total, a Favela Conectada foi contratada para instalar 2.000 pontos.

No acordo entre o ICB e a Favela Conectada, a assinatura do contratado aparece somente sobre o nome “Alex” e o CPF “XXX” no contrato juntado à prestação de contas. Depois, o nome completo e CPF de Alex Leandro Bispo dos Santos aparecem em um termo de operação de dados assinado também por Maria Katiane Gomes da Silva. Essa mulher foi companheira de Bispo até ser jogada por ele do 10º andar de um prédio e morrer.

A Favela Conectada funciona no mesmo prédio de um escritório cujo aluguel era pago pelo ICB com recursos do contrato.

A Polícia Civil de São Paulo ainda investiga se houve desvio dos R$ 108 milhões do contrato da Prefeitura de São Paulo com o ICB. Uma das hipóteses é que o dinheiro tenha ajudado a custear o filme Dark Horse. A produtora responsável pelo longa-metragem é a Go Up Entertainment, cuja sócia é justamente Karina Gama.

Operação Sem Wi-fi

A Operação Wi-Fi, realizada pela Polícia Civil, aponta que a Prefeitura de São Paulo pagou um valor 230% maior do que o estipulado no mercado para o ICB.

Segundo a investigação, enquanto a empresa municipal Prodam cobrava R$ 306, mais R$ 200 pela manutenção mensal por ponto de wi-fi, o acordo com o ICB estipulou o pagamento de R$ 1.800 fixos por ponto, um valor injustificadamente superior aos parâmetros de mercado.

Em nota enviada ao Metrópoles, a Prefeitura de São Paulo afirmou à época que o custo estimado na parceria com o instituto para 2026 corresponde a R$ 1.280 por ponto/mês, valor que alega ser “significativamente menor do que as propostas recebidas em 2022” que, de acordo com a administração municipal, girava em torno de R$ 2.026,26 por ponto/mês e R$ 5.092,14 por ponto/mês.

Entenda as suspeitas

  • Falta de capacidade técnica: a polícia apontou que o chamamento público teve a participação exclusiva do ICB, uma entidade considerada sem experiência no setor de telecomunicações, com atuações somente em feiras de livros e eventos religiosos.
  • Superfaturamento: enquanto a empresa pública Prodam cobrava R$ 306,00 pela manutenção mensal por ponto, o acordo com o ICB estipulou o pagamento de R$ 1.800,00 fixos por ponto, um valor injustificadamente superior aos parâmetros de mercado.
  • Descumprimento de metas e fraude em aditivos: a entidade instalou apenas 3.200 dos 5.000 pontos previstos. Para ocultar a demora, foram celebrados três termos aditivos em intervalos de poucos dias.
  • Pagamentos indevidos e antecipados: a administração municipal teria realizado a antecipação de R$ 26 milhões sem a devida contraprestação. Foram identificados repasses relativos a 3.200 pontos quando, na realidade, apenas seis funcionavam no período.

Outro lado

Em nota enviada ao Metrópoles, o ICB disse que “não adota práticas discriminatórias e de marginalização contra pessoas que já cumpriram suas penas” e que no momento em que o contrato com a Favela Conectada foi firmado não existia impedimento legal contra Alex Leandro.

“A partir do momento em que o Instituto tomou conhecimento da investigação relacionada ao crime de feminicídio envolvendo o administrador da empresa, adotou imediatamente as medidas cabíveis para resguardar a instituição e o projeto, promovendo a rescisão da relação contratual com a empresa, que deixou de integrar a operação em dezembro de 2025”, disse o ICB.

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