Os dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de agosto, que o IBGE divulgou nesta quarta-feira (14), vieram abaixo da mediana das projeções do mercado e mostraram um quadro de estagnação que só não foi pior porque o consumo das famílias continuou a mostrar resiliência no mês. Mas parte dos economistas passou a rever para baixo tanto a estimativa para o IBC-Br (que será divulgado na 6ª feira) como para o PIB do 3º trimestre e do ano.
O volume de serviços registrou recuo de 0,1% em agosto, abaixo do avanço esperado de 0,5%. Na comparação com agosto de 2025, o volume de serviços também frustrou as expectativas, com alta de 0,6%, ante uma expectativa de avanço de 1,3%.
André Valério, economista sênior do Inter, destacou em sua análise a trajetória de desaceleração, com o indicador no acumulado em 12 meses apresentando alta 2,2%, o menor valor registrado desde agosto de 2024.
Valério também lembrou que o principal destaque positivo do mês foi o avanço de 2,1% nos serviços prestados às famílias, o segundo mês consecutivo de alta, puxado pelos serviços de alojamento e alimentação (+2,6%). “Entretanto, essa alta foi mais que compensada pelos recuos dos serviços profissionais, dos serviços de transportes e outros serviços, que recuaram 0,2%, 0,2% e 1%, respectivamente”, comparou.
Para ele, no geral, o resultado reafirma a tendência de moderação do setor e da atividade econômica como um todo, com a produção industrial também tendo recuado em agosto. “Os dados até o momento apontam para uma desaceleração do PIB e esperamos que a economia encerre 2026 com crescimento acumulado de 1,7%, o que permitirá o Copom a cortar a Selic nas próximas duas reuniões, levando a taxa para 13,25%”, estimou.
Para 2027, no entanto, ele disse acreditar que os movimentos na Selic dependerão do ajuste fiscal a ser implementado pelo próximo governo.
Leonardo Costa, economista do ASA, por sua vez, comentou que , no acumulado de 12 meses, o crescimento desacelerou para 2,2%, ante 2,4% em julho. Ele citou que a fraqueza na margem concentrada em outros serviços (-1,0%), transportes (-0,2%) e serviços profissionais, administrativos e complementares (-0,2%) devolveu parte dos ganhos observados em julho.
Mas também ponderou que o principal destaque positivo ficou com serviços prestados às famílias (+2,1%), na segunda alta consecutiva e acumulando ganho de 2,9% no período, enquanto os de informação e comunicação ficaram estáveis. Na comparação em 12 meses, os destaques positivos vieram de informação e comunicação (+4,3%), serviços prestados às famílias (+4,2%) e serviços profissionais (+1,7%), enquanto transportes (-2,8%) e outros serviços (-2,5%) permaneceram como os principais focos de contração.
Costa comentou que o resultado de agosto segue consistente com uma trajetória de desaceleração gradual da atividade doméstica, contudo, a composição foi relativamente benigna. “Mesmo com a queda do índice cheio na margem, o segmento de serviços prestados às famílias voltou a apresentar desempenho robusto, sugerindo alguma resiliência dos componentes mais ligados ao consumo doméstico”, disse.
O ASA segue na aposta de desaceleração gradual da atividade doméstica no 3º trimestre, com o PIB rodando mais próximo de zero no período.
Na análise da XP, as surpresas negativas se concentraram nos Serviços de Transporte e Outros Serviços, sendo que o primeiro provavelmente refletiu os altos custos de combustível. “Por outro lado, os Serviços Prestados às Famílias apresentaram um forte ganho, em linha com nossa estimativa, ainda apoiados por um mercado de trabalho apertado e aumento da renda real.”
“Olhando para o futuro, a mensagem geral é a de uma economia desacelerando. O setor de serviços não compensa mais a fraqueza em outros lugares, e a transferência do terceiro trimestre aponta para um trimestre estagnado”, disse a XP em análise.
A avaliação é de que o mercado de trabalho ainda apertado e a renda real elevada devem continuar sustentando os serviços relacionados às famílias no curto prazo, mas altas taxas de juros e o aumento do peso do serviço da dívida familiar vão continuar como ventos contrários relevantes para os gastos discricionários.
O XP Tracker para o crescimento do PIB do 3º trimestre, que estava em -0,08%, piorou para -0,15%, na comparação trimestral. “Após o lançamento, também revisamos nossa previsão IBC-Br de agosto para 0,4% (mensal), ante 0,7%.”
Na opinião de Claudia Moreno, economista do C6 Bank, apesar da queda no mês, a PMS mostrou uma boa composição, com alta de 2,1% nos serviços prestados às famílias, que têm peso importante no cálculo do PIB. Na outra ponta, estão os serviços de transportes e correio, que caíram 0,2% em agosto.
“O setor de serviços vem mostrando certa estabilidade nos últimos meses, mas continua mostrando alguma expansão em relação a 2025. Nossa expectativa é que esse ritmo mais moderado continue até o fim do ano. Com isso, projetamos um crescimento próximo de 1% para os serviços em 2026”, estimou.
Para Claudia Moreno, os dados mais recentes de atividade mostram que a economia brasileira continua crescendo, mas que perdeu fôlego e está desacelerando. “Esperamos que esse movimento continue nos próximos trimestres, embora o mercado de trabalho aquecido deva ajudar a sustentar a atividade. Mantemos nossa projeção de crescimento de 1,7% para o PIB neste ano”, disse.
Sobre os juros, a economista do C6 Bank avaliou que a Selic em patamar alto continua pesando sobre a atividade econômica, e que esse efeito deve persistir nos próximos meses. “Mesmo depois dos cortes recentes, a Selic segue em patamar elevado. Nossa expectativa é que o Copom mantenha a taxa em 13,75% até o fim do ano, mas não descartamos novos cortes, já que o Banco Central deixou os próximos passos em aberto”, alertou.
Para o Bradesco, a perda de dinamismo do setor de serviços reforça a percepção de que a desaceleração da atividade econômica é generalizada. “Estimamos que o PIB tenha ficado próximo da estabilidade no terceiro trimestre. Para 2026, projetamos alta de 1,7%.”
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