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Vale a pena travar juro da renda fixa agora? IPCA desta sexta vira teste de fogo

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Vale a pena travar juro da renda fixa agora? IPCA desta sexta vira teste de fogo

O investidor de renda fixa volta do feriado diante de uma dúvida que pode mexer com seus investimentos: e se a inflação estiver cedendo mais rápido do que o mercado projeta e, com isso, a Selic cair com mais força? A prévia do índice, o IPCA-15, já veio mais amena, a projeção do mercado voltou a recuar, e uma confirmação no índice cheio, que será divulgado na próxima sexta-feira (11), reforçaria a tese.

O resultado pode definir um dilema para a carteira de renda fixa. De um lado, alongar prazos para capturar a valorização de um eventual fechamento da curva de juros, movimento em que as taxas futuras caem e os títulos comprados antes se valorizam. De outro, permanecer no CDI, abrindo mão desse ganho potencial, mas preservando a liberdade de mudar de ideia.

O PIB do segundo trimestre alimentou o debate. A economia cresceu 0,5% ante o trimestre anterior, com fraqueza nos setores mais sensíveis aos juros e recuo no consumo das famílias. Com isso, a XP revisou suas contas na direção de uma inflação menor, e passou a projetar PIB mais fraco de 1,7%.

Economistas ouvidos pelo InfoMoney concordam que esse conjunto de dados tornou a hipótese de desinflação mais rápida mais provável, mas divergem sobre o que fazer com ela quando se trata dos investimentos em renda fixa.

Para Carlos Eduardo Oliveira Jr., presidente do Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo, a tese ganhou força, “embora de forma marginal”, e argumenta que uma convergência mais rápida da inflação reduziria a necessidade de manter juros reais, aqueles descontada a inflação, tão elevados por muito tempo. Nesse cenário, ele trabalha com a possibilidade otimista de uma Selic em até 12,50% ao ano no fim de 2026.

Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital, diz que a prévia da inflação de agosto “ajuda a construir um cenário de inflação um pouco melhor no curto prazo”, mas aponta riscos para 2027, com juros entre 10% e 11% com fiscal bem administrado, melhora da confiança e ajuda do ambiente internacional. Mas vê risco grande do contrário: piora do ambiente externo, falta de liquidez global, aumento de aversão a risco ou deterioração fiscal que obriguem manutenção ou até elevação da Selic.

Renda fixa: alongar prazos ou ficar no CDI?

Se o cenário de queda mais rápida da inflação, Oliveira Jr. recomenda aumentar a duração da carteira, ou seja, o prazo médio dos títulos, já que papéis mais longos se valorizam mais quando os juros futuros caem, permitindo lucro na venda antecipada no mercado secundário.

Ele dá preferência aos vencimentos intermediários, “especialmente entre cinco e sete anos”, prazos que, para ele, oferecem a relação mais equilibrada entre valorização potencial e risco. A migração de pós-fixados para prefixados e títulos IPCA+ deveria envolver entre 20% e 40% da alocação em renda fixa, a depender do perfil e do horizonte do investidor.

A XP também elevou a recomendação para papéis prefixados, entendendo que há prêmio suficiente embutido nas taxas para compensar os riscos. Mas é preciso entender quais são eles.

Em um prefixado ou IPCA+ com duração próxima de cinco anos, uma alta inesperada de 1 ponto percentual na curva pode gerar uma perda de 4% a 5% que se materializaria se o investidor precisar vender antes do vencimento, um efeito que se intensifica em prazos mais longos. Por outro lado, a taxa alta funciona como amortecedor, e hoje um prejuízo dessa magnitude poderia ser recuperado entre 6 e 18 meses, a depender do juro travado, . explica Oliveira Jr.

Já Corano recomenda ser mais conservador. “O investidor não deveria fazer agora um movimento relevante para alongar prazo e apostar em fechamento de curva”, afirma. O eixo da carteira, para ele, deve seguir em pós-fixados de boa qualidade e alta liquidez, com eventuais migrações restritas a parcelas pequenas e pontuais. “Neste momento, liquidez não é um detalhe secundário; ela faz parte da estratégia central.”

Já Corano diz que “o investidor não deve olhar apenas o carrego. Ele precisa olhar a liberdade de reposicionar a carteira”. Numa piora do cenário, argumenta, a taxa pode subir de forma abrupta, e quem estiver travado será forçado a realizar a perda ou a esperar muito tempo para recompô-la.

Atente-se aos sinais de alerta

O IPCA de sexta será determinante para o mercado precificar uma Selic menor, o que beneficiaria quem alocar agora. Mas é importante se atentar para o que invalidaria a tese.

Ao InfoMoney, economistas da Fundação Dom Cabral e das consultorias 4Intelligente e Tendências alertaram sobre o caráter transitório da deflação, e o risco de o IPCA voltar a piorar, com riscos vindos de pressão do fiscal, El Niño, e petróleo – que voltou a se aproximar dos US$ 100 nesta terça. Se o cenário piorar, portanto, o ganho no curto prazo na rena fixa poderia se reverter à frente.

Corano acrescenta que sua atenção maior está no ambiente de confiança, com um choque internacional de liquidez, piora do câmbio ou qualquer evento que reabra prêmio de risco no Brasil. A XP cita risco parecido, o de uma depreciação relevante do real depois das eleições, sobretudo se o Federal Reserve subir juros – mas ainda mantém projeção para o dólar em R$ 5 ao fim do ano.

“O investidor precisa abandonar essa tese no momento em que perceber que o país voltou a exigir juros altos para compensar risco, e não apenas para combater inflação”, resume Corano.

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