O recuo de 0,6% em junho no Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), foi maior do que o esperado pelos economistas, que projetavam perda de 0,5%. O dado confirma que o país passa por uma desaceleração gradual da atividade, reflexo dos juros altos e do alto endividamento das famílias, e abre espaço para mais cortes na Selic, segundo economistas.
Na comparação com o mesmo período do ano anterior, o avanço foi de 2,4%, o que mostra que ainda é preciso reduzir o fôlego da economia, que opera entre o freio da Selic e o estímulo que impulsiona os serviços.
Antonio Ricciardi, economista do Daycoval, explica que a economia vinha desacelerando no ano passado, mas o primeiro trimestre deste ano teve dados mais fortes puxados, principalmente, pelos estímulos do governo, isenção de imposto de renda, e a valorização do salário mínimo. Agora, no segundo trimestre, a economia voltou ao patamar de desaceleração observado no final do ano passado.
“Para a frente, a expectativa é que esse movimento continue e a gente continue tendo uma atividade econômica mais modesta durante um ano diante dos efeitos da política monetária contracionista e, principalmente, após [os efeitos da] guerra do Irã, com uma taxa terminal de Selic mais baixa para o final deste ano do que anteriormente projetado”, avalia Ricciardi.
Alexandre Maluf, economista da XP, destaca que os estímulos do governo, como o aumento das transferências fiscais e um mercado de trabalho apertado, ainda expandem a renda real “em ritmo sólido”, mas estes fatores estão sendo compensados, cada vez mais, pelos juros altos, o que deve moldar a atividade nos próximos trimestres.
“O cenário do IBC-Br de junho deve refletir, em boa medida, a composição qualitativa do PIB do segundo trimestre, que deve ser marcado por uma forte desaceleração na base de comparação trimestral”, avalia Matheus Pizzani, economista do PicPay.
Indústria e serviços puxam a queda do IBC-Br
Segundo a análise dos economistas, a moderação da atividade foi disseminada entre diversos setores da economia. O Goldman Sachs destaca que a queda da atividade em junho foi puxada pela indústria (-1,4%) e, em menor grau, pelo setor de serviços (-0,5%), enquanto a agropecuária registrou alta (1%). Excluindo o impacto da agropecuária, o IBC-Br teria contraído 0,9% no período.
| Junho / maio 2026 | 2º tri 2026/ 1º tri 2026 | Junho 26/ junho 25 | 2º tri 2026/ 2º tri 2025 | Ano | Acumulado 12 meses | |
| IBC-Br | -0,6 | 0,2 | 2,4 | 1,5 | 1,5 | 1,5 |
| Agropecuária | 1 | 0,3 | 5,3 | 2,5 | 1,1 | 2,5 |
| Indústria | -1,4 | 0,5 | 2 | 1,1 | 0,8 | 0,7 |
| Serviços | -0,5 | -0,1 | 2 | 1,6 | 2 | 1,9 |
| Impostos | -1 | 0,1 | 2,8 | 1,3 | 1,2 | 0,7 |
| IBC-Br ex-agropec. | -0,9 | 0,1 | 2,1 | 1,4 | 1,6 | 1,5 |
Para André Valério, economista sênior do Inter, o dado confirma uma economia mais dependente do setor externo, principalmente do agro e da exploração do petróleo.
Ricciardi destaca que, embora o agro tenha registrado avanço de 2,5% na comparação com o mesmo período do ano passado, o resultado ainda é insuficiente para puxar a economia, como foi no passado. “Apesar de ter uma revisão para cima da safra este ano, principalmente a safra de milho, o agro não vai ter uma variação tão forte o suficiente para puxar atividade econômica, sendo mais um componente de toda a estrutura de uma atividade mais fraca em 2026”, avalia.
No consolidado do segundo trimestre, o avanço do IBC-Br foi de 0,2% comparado aos três meses anteriores. O patamar representa uma desaceleração abrupta frente à alta de aproximadamente 1,3% observada no primeiro trimestre.
Além disso, o fraco desempenho de junho deixa uma herança estatística (o chamado carry-over) negativa de cerca de -0,4% para o terceiro trimestre de 2026.
Projeções para o PIB
Para o ano, XP mantém a projeção de um crescimento de 2% no PIB em 2026 e estima uma expansão mais modesta de 1% para 2027.
Outras casas financeiras estimam o avanço da economia neste ano entre 1,3% (Goldman Sachs), 1,70% (PicPay) e 1,8% (Inter).
Como o IBC-Br afeta a próxima decisão da Selic
Este freio na economia traz implicações diretas para a condução da política monetária, que define o percentual da taxa básica de juros, a Selic.
O arrefecimento da atividade chancela a percepção de que os juros altos estão surtindo efeito. Segundo os economistas, a dinâmica mais fraca da atividade, combinada com surpresas benignas recentes nos índices de inflação, abre espaço para que o Banco Central dê continuidade ao ciclo de cortes nos juros.
O mercado já precifica essa trajetória de afrouxamento. O Inter projeta que o Comitê de Política Monetária (Copom) encerrará 2026 com a taxa básica mantendo o ciclo de calibração, chegando a 13,25% ao ano.
Já o PicPay estima a Selic terminal para este ano em 13,50%. No boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, com pesquisa anterior à divulgação desse dado, a projeção para a Selic estava estável em 13,75% pela segunda semana consecutiva.
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