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Retração mais forte na indústria em junho pode contribuir para a calibração dos juros

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Retração mais forte na indústria em junho pode contribuir para a calibração dos juros

A queda na produção industrial acima do esperado pelo mercado em junho, que aconteceu de forma disseminada nos setores pesquisados pelo IBGE, é uma prova dos efeitos da política monetária contracionista sobre a atividade econômica e vai reduzir a contribuição da indústria para composição do PIB no 2º trimestre, alertam os economistas.

Mas ainda que a perda de fôlego atue para ajudar o Copom no ciclo de calibração dos juros, por conta de uma menor pressão inflacionária, algumas casas de investimentos resistem em revisar suas projeções para uma Selic abaixo de 14% ao final do ano.

Em junho, a produção industrial recuou 1,8%, muito abaixo do consenso dos analistas, que esperavam um recuo de 0,9%. Frente a junho de 2025, a indústria cresceu 1,7%, acumulando alta de 1,5% no ano, enquanto nos últimos 12 meses acumula avanço de 0,7%.

Leia também: Produção industrial no Brasil cai 1,8% em junho e frustra projeções do mercado

André Valério, economista sênior do Inter, destacou em sua análise a forte contribuição negativa da indústria extrativa, que vinha bem no 1º trimestre do ano, mas que recuou 5,9% no mês, somando assim seu segundo mês consecutivo de queda.

Além disso, todas as quatro categorias econômicas pesquisadas apresentaram queda em junho, com destaque para os bens de consumo não duráveis (-4,1%) e os bens de consumo duráveis (-3,2%.). A categoria de bens de capital manteve sua trajetória de queda (-1,1%), recuando pelo terceiro mês consecutivo, enquanto os bens intermediários também caíram 1,1%, puxados pela forte queda na produção de combustíveis.

No acumulado em 12 meses, com exceção dos bens intermediários, todas as categorias econômicas apresentam crescimento negativo, com destaque para bens de capital que acumula queda de 4,6%, um indicativo de que as condições financeiras adversas tem sido um empecilho para atividade industrial.

“Com o resultado de junho, a produção industrial deverá ser uma contribuição tímida para o PIB do 2º trimestre. O crescimento da indústria no 2º trimestre de acordo com a PIM-PF foi de 0,35%, bem abaixo dos 1,37% observados no 1º trimestre, e muito influenciado pelo bom desempenho das indústrias extrativas desde a eclosão do conflito no Irã”, comparou Valério.

Para o economista, os dados de atividade sugerem moderação do crescimento, o que, na nossa visão, contribui para o Copom continuar o ciclo de calibração da Selic. “Esperamos novo corte de 25 pontos base amanhã e em todas as reuniões restantes desse ano, levando a Selic a 13,25% ao final de 2026”, estimou.

Perda de tração no 2º trimestre

A análise da XP também comparou o desempenho do 2º trimestre com os três primeiros meses do ano, período que a casa de investimentos denominou como “Sonho de Uma Noite de Verão”. Foi destacado que a produção industrial esteve virtualmente estável no 2º trimestre. “Expandiu-se apenas 0,3% em relação ao trimestre anterior no 2º trimestre, uma desaceleração acentuada face ao ganho de 1,4% registado no 1º trimestre.”

“A fraqueza foi generalizada: 16 das 25 atividades pesquisadas registaram quedas mensais. A indústria transformadora caiu 1,8% em termos mensais (+1,1% em termos anuais), enquanto a indústria extrativa diminuiu 0,6% em termos mensais, mas permaneceu como o setor com melhor desempenho em termos anuais”, mostrou a análise.

Após o revés de junho, a XP calculou que a indústria total entra no 3º trimestre com um carry-over de -1,5% em relação ao trimestre anterior, com contribuição negativa de todas as categorias

A estimativa preliminar da XP para a produção industrial de julho está em +0,2% em termos mensais e em -0,5% em termos anuais. “Além disso, ao incorporar os valores de junho, o nosso tracker para o crescimento do PIB do 2.º trimestre de 2026 caiu de 0,47% em relação ao trimestre anterior (1,97% em termos anuais) para 0,40% em relação ao trimestre anterior (1,87% em termos anuais). Mantemos a nossa previsão do PIB para 2026 em 2,0%, sem viés.”

Leonardo Mendes, analista da Manchester Investimentos, chamou a atenção para o segundo o recuo mensal consecutivo da produção industrial e para a perda somada de 2,7 pontos entre maio e junho, o que devolveu grande parte do crescimento que tinha acontecido no acumulado desde o início do ano.

“Outro ponto importante é que bens de consumo semi e não duráveis caíram 4,1% e os bens de capital tiveram queda de 1%. Mostra uma desaceleração tanto no consumo, quanto nos investimentos mais produtivos”, afirmou.

Mendes disse que, embora pareça um pouco ambíguo afirmar que uma desaceleração possa trazer algum ponto de vista positivo, o resultado pode liberar espaço para o Banco Central continuar a cortar os juros.

“De qualquer forma, a indústria no acumulado de 2026 ainda segue crescendo 1,5%, então mostra que não é uma contratação generalizada de economia, mas um sinal bem claro de perda de força no segundo trimestre”, comentou destacando que o cenário para o terceiro trimestre será um pouco mais contracionista, com os juros ainda altos e a eleição presidencial à porta.

Consumo não ajudou

Na opinião de Matheus Pizzani, economista do PicPay, além de efeitos mais longos, como o dos juros, chamou atenção em junho que o dado negativo da PIM não contou com impactos positivos de curto prazo que eram esperados, como a queda da inflação de alimentos e o fator sazonal relacionado à chegada do inverno – que traz maior dinamismo do setor de vestuário.

Ele disse que esses fatores deveriam gerar maior impulso para o resultado do subgrupo de bens semi e não duráveis, mas que eles acabaram sofrendo retração de 4,1% no período, o terceiro consecutivo – o que consolidou a contribuição negativa para a indústria e para o PIB do segundo trimestre proveniente desta categoria específica. 

Pizzani também citou que outro ponto importante da PIM divulgada hoje foi a segunda queda consecutiva da indústria extrativa, setor que também não foi capaz de materializar a expectativa benigna que cercava seus resultados recentes em função da atual situação geopolítica internacional.

“Em maio, este segmento já havia sofrido retração, com queda de 2,6%. A explicação passa tanto pela demanda relativamente mais fraca de produtos importantes para o setor, como o minério de ferro, bem como a possível utilização de estoques em outros segmentos, algo que causaria redução natural da produção de bens finais mesmo em um cenário de preços mais atrativos”, explicou.

Ele argumentou ainda o dado de hoje reforça a perspectiva de uma contribuição neutra ou, no limite, negativa do setor industrial para o resultado do PIB no 2º trimestre.

Esse fator aliado ao desempenho mais ameno dos demais setores, comércio e serviços, e, principalmente, a trajetória mais moderada do mercado de trabalho nos últimos meses, deve impedir a retomada das discussões sobre hiato do produto e eventuais pressões inflacionárias advindas do nível de atividade econômica, permitindo a manutenção do ciclo de calibragem de juros por parte do Banco Central, disse o economista.

“Seguimos projetando alta de 0,4% para o PIB do segundo trimestre e 1,70% para o consolidado do ano, motivado pelo arrefecimento dos setores mais sensíveis às variações dos ciclos econômicos, como é o caso da própria indústria.”

“No caso da política monetária, a combinação dos elementos citados com o arrefecimento marginal da inflação tendem a funcionar como pilares para a continuidade da calibragem da Selic, cujo patamar terminal em 2026 é projetado por nós em 13,50%.”

Na visão de Claudia Moreno, economista do C6 Bank, a perspectiva é que a produção industrial continue perdendo fôlego nos próximos meses, refletindo principalmente o desempenho mais fraco da indústria de transformação. “Na outra ponta, a indústria extrativa deve seguir em expansão, oferecendo algum suporte ao setor industrial como um todo. Nossa projeção é que a produção industrial encerre 2026 com um leve crescimento em relação ao ano passado”, ponderou.

A economista disse ainda que o dado mais fraco da indústria em junho corrobora a leitura de que a atividade econômica está em desaceleração, embora esse processo deva ocorrer de forma gradual. Além disso, o mercado de trabalho continua aquecido, a renda segue crescendo e as medidas de estímulo promovidas pelo governo, como os incentivos à concessão de crédito, devem ajudar a sustentar a economia nos próximos trimestres. “Nossa expectativa é que o PIB cresça 1,7% em 2026.”

Sobre o que isso pode representar para os juros, Claudia Moreno disse esperar que a projeção do Banco Central para a inflação no horizonte relevante, que é usada como referência na definição da política monetária, fique próxima da meta, o que deve permitir uma redução de 0,25 ponto percentual na taxa Selic na reunião de amanhã. “O Copom não deve fechar as portas para cortes adicionais ao longo deste ano, mas mantemos nossa expectativa de que os juros terminem 2026 em 14% ao ano.”

Leonardo Costa, economista do ASA, analisou que, embora parte da fraqueza da indústria possa refletir ajustes pontuais em alguns setores, a combinação de média móvel negativa, perda de dinamismo dos bens de consumo e fraqueza persistente dos bens de capital sugere uma moderação mais ampla do setor no meio do ano. “Para os próximos meses, esperamos que a indústria siga operando em ritmo mais contido, consistente com um crescimento econômico mais moderado na segunda metade do ano”, previu.

A opinião do Itaú é que os dados de hoje surpreenderam negativamente, com a manufatura apresentando desempenho mais fraco em junho, impulsionada principalmente por derivados de petróleo, biocombustíveis e bens duráveis. “No geral, no 2º trimestre de 2026, o setor industrial foi apoiado pela indústria extrativa, que mais uma vez apresentou um desempenho forte durante o período, enquanto a manufatura permaneceu estável, perdendo impulso ao longo do trimestre.”

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