
Os fundos imobiliários de recebíveis, conhecidos como FIIs de papel, seguem liderando os retornos no mercado em meio ao cenário de juros elevados. Com boa parte das carteiras indexadas ao CDI, esses fundos vêm distribuindo dividendos robustos e superando, no curto prazo, o desempenho de boa parte dos FIIs de tijolo.
Na avaliação dos especialistas ouvidos pelo InfoMoney, esse desempenho está diretamente ligado ao atual ciclo monetário. A expectativa para a trajetória da Selic, da inflação e das eleições será determinante para definir se esse cenário continuará nos próximos trimestres.
Michel Bezerra, analista da TRX/Trix, afirma que o ambiente ainda favorece os fundos indexados ao CDI, mas lembra que essa vantagem tende a diminuir quando o mercado passar a precificar uma queda mais consistente dos juros.
“Enquanto os juros permanecerem elevados, a maior atratividade da renda fixa tende a reduzir o interesse da pessoa física por ativos de maior risco e a favorecer os fundos de papel, que conseguem entregar dividend yields mais elevados. Em um cenário de queda consistente dos juros, esse movimento pode se inverter, com uma reprecificação mais favorável das cotas dos fundos de tijolo”, diz Bezerra.
Confira os 10 fundos imobiliários de papéis com maiores retornos em 12 meses:
| Fundo | Ticker | Segmento | Peso no IFIX (%) | Retorno 12 meses (%) | Retorno 6 meses (%) |
| Manatí Capital Hedge | MANA11 | Papel* | 0,22 | 21,29 | 6,48 |
| AF Invest CRI | AFHI11 | Papel | 0,35 | 17,51 | 5,76 |
| Kinea Rendimentos Imobiliários | KNCR11 | Papel | 7,43 | 17,50 | 6,72 |
| Polo Crédito Imobiliário | PORD11 | Papel | 0,20 | 16,91 | 9,56 |
| Kinea Securities | KNSC11 | Papel | 1,19 | 16,18 | 5,63 |
| Kinea Créditos | KCRE11 | Papel | 0,21 | 15,65 | 7,40 |
| Kinea Índices de Preços | KNIP11 | Papel | 4,70 | 15,44 | 4,94 |
| Kinea Unique HY CDI | KNUQ11 | Papel | 1,47 | 15,32 | 6,30 |
| Kinea High Yield CRI | KNHY11 | Papel | 2,02 | 12,44 | 6,87 |
| Itaú Crédito Imobiliário IPCA | ICRI11 | Papel | 0,23 | 11,90 | 6,41 |
Além do cenário doméstico, o analista destaca que fatores externos também podem prolongar esse ciclo, como uma eventual escalada dos conflitos no Oriente Médio, com impacto sobre petróleo, inflação e câmbio.
No entanto, o momento favorável aos fundos indexados ao CDI também exige cautela na análise dos investidores. Segundo os especialistas, o fato de o indexador trabalhar a favor das carteiras pode mascarar diferenças importantes entre as gestoras.
Para Bezerra, rendimento elevado não deve ser confundido automaticamente com qualidade de gestão. “O CDI e a inflação elevados aumentam o rendimento dos fundos de papel e podem, de fato, reduzir temporariamente a percepção das diferenças entre as gestoras. Com o indexador trabalhando a favor, torna-se mais fácil apresentar distribuições elevadas. Entretanto, rendimento elevado não deve ser confundido automaticamente com boa gestão.”
Michael Viriato, planejador financeiro CFP, faz avaliação semelhante. Segundo ele, a verdadeira capacidade do gestor aparece justamente quando o ciclo de juros muda. “Quando o CDI está muito alto, boa parte da rentabilidade vem do próprio indexador. Isso reduz a percepção das diferenças entre gestores. A verdadeira qualidade da gestão aparece principalmente na seleção do crédito, na negociação dos ativos e no controle da inadimplência.”
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Queda da Selic pode inverter o cenário?
Embora os fundos indexados ao CDI sejam os principais beneficiados pelo atual ambiente, os especialistas avaliam que esse quadro tende a mudar caso o Banco Central inicie um ciclo consistente de redução dos juros.
Segundo Rafael Ohmachi, sócio e responsável pela área de Fundos Líquidos e Buy-Side Research da RB Asset, os fundos pós-fixados sentem primeiro a queda da Selic justamente por não possuírem ganhos relevantes de marcação a mercado.
“Num movimento consistente de queda da Selic, quem sente primeiro são os fundos indexados ao CDI. O carrego cai junto com a taxa e, como o papel pós-fixado praticamente não tem duration, não há ganho de marcação para compensar; o dividendo simplesmente encolhe”, afirma Ohmachi.
Em contrapartida, ele explica que os fundos atrelados ao IPCA podem se beneficiar caso haja fechamento da curva de juros reais, mesmo em um ambiente de inflação mais baixa.
Viriato concorda que o comportamento tende a ser diferente entre os indexadores. “Os indexados ao CDI tendem a responder reduzindo dividendo, pois a receita acompanha mais diretamente a queda da Selic. Já os fundos atrelados ao IPCA podem apresentar ganho maior na marcação a mercado e tendem a ir melhor em um cenário de redução dos juros.”
Ranking de retornos exige cautela
Os especialistas também alertam que rankings de desempenho, tanto no acumulado de seis quanto de doze meses, devem ser analisados com cuidado.
Bezerra, da TRX, observa que fundos com retornos semelhantes podem ter assumido níveis de risco completamente diferentes para chegar ao mesmo resultado. “Não existe um único perfil de carteira entre os fundos de melhor desempenho. Há presença tanto de estratégias mais conservadoras quanto de fundos high yield. O retorno não deve ser analisado isoladamente, porque fundos com desempenhos semelhantes podem ter chegado ao mesmo resultado com níveis de risco bastante diferentes.”
Viriato também recomenda cautela antes de utilizar rankings como critério de investimento. “Um semestre ou um ano podem refletir eventos não recorrentes, como vendas de ativos, distribuições extraordinárias ou mudanças pontuais de precificação. Rankings são um bom ponto de partida para estudar um fundo, mas não deveriam ser usados como critério de investimento.”
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Como equilibrar uma carteira entre CDI e IPCA
Na avaliação dos entrevistados, a escolha entre fundos indexados ao CDI e ao IPCA não deve ser tratada como uma decisão excludente. Bezerra afirma que cada indexador cumpre uma função diferente dentro da carteira. “Os fundos indexados ao CDI tendem a oferecer maior proteção em períodos de juros elevados. Já os atrelados ao IPCA oferecem proteção mais direta contra a inflação e podem ser interessantes para investidores com horizonte mais longo.”
Para Ohmachi, a construção da carteira deve considerar o objetivo do investidor e o estágio do ciclo econômico. “Montar uma carteira equilibrada entre CDI e IPCA passa menos por perseguir o vencedor recente e mais por combinar as funções de cada indexador. A decisão é menos ‘qual está rendendo mais agora’ e mais alinhar o indexador ao objetivo e ao horizonte do investidor.”
Viriato conclui que diversificar continua sendo a estratégia mais eficiente para reduzir a dependência de um único cenário macroeconômico. “Os fundos atrelados ao CDI oferecem maior proteção em cenários de juros elevados, enquanto os indexados ao IPCA ajudam a preservar o poder de compra e tendem a se beneficiar em ciclos de queda de juros. A combinação reduz a dependência de um único cenário macroeconômico.”
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