Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, referentes ao trimestre encerrado em junho de 2026, apontam que a taxa de desocupação recuou para 5,4%, atingindo o menor nível para este período desde o início da série histórica em 2012. Segundo economistas, o número recorde de população ocupada, de 103,1 milhões de pessoas, tem feito com que o mercado de trabalho continue sendo uma forte barreira contra os efeitos restritivos da política monetária, com juros atuais em 14,25%.
Leia também: Geração de empregos supera estimativas em junho, mas analistas preveem desaceleração
Desemprego baixo sustenta o PIB
Na avaliação da XP, os dados de junho reforçaram o cenário de mercado de trabalho aquecido, com a taxa de desemprego bem abaixo de seu nível neutro e a massa de rendimentos em alta.
| Indicador/Período | abr-mai-jun 2026 | jan-fev-mar 2026 | abr-mai-jun 2025 |
| Taxa de desocupação | 5,40% | 6,10% | 5,80% |
| Taxa de subutilização | 12,90% | 14,30% | 14,40% |
| Rendimento real habitual | R$ 3.738 | R$ 3.795 | R$ 3.635 |
Esse alto número de contratações explica por que o Produto Interno Bruto (PIB) continua crescendo, mesmo com o crédito mais caro. Para Gustavo Assis, CEO da Asset, o desemprego em patamares tão baixos “mostra que o mercado de trabalho se tornou o principal amortecedor da desaceleração provocada pelos juros elevados”.
Isso ajuda a explicar o consumo das famílias, sustentado pela massa de rendimentos, que atingiu R$ 380,3 bilhões, uma alta de 3,6% em doze meses. “O mercado de trabalho continua sustentando o PIB, mas dificilmente conseguirá fazê-lo sozinho por muito tempo”, afirma Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset. Ele alerta que, se não houver uma redução estrutural do custo de capital, o crescimento deverá perder força de forma gradual.
Empresas contratam, mesmo com juros altos
O descompasso entre as queixas do setor corporativo sobre a Selic e a manutenção das contratações é explicado pelas necessidades operacionais imediatas. Daniel Duque, pesquisador associado da FGV/Ibre, esclarece que, com o crédito caro, os empresários não contraem empréstimos para modernizar máquinas ou ampliar instalações, o que trava a melhoria da produtividade. Entretanto, a forte demanda força a contratação contínua de funcionários apenas para suportar a operação básica e o atendimento direto ao cliente.
No longo prazo, a limitação da produtividade entra em choque com gargalos demográficos. A taxa de participação da força de trabalho brasileira (62,1%) segue inferior aos níveis pré-pandêmicos. Um levantamento da 4intelligence indica que o envelhecimento populacional deve aprofundar essa menor participação nas próximas décadas. Diante dessa conjuntura, Antônio Patrus, diretor da Bossa Invest, avalia que “a menor disponibilidade de profissionais transforma produtividade em uma das principais teses de crescimento da economia brasileira”.
Mercado de trabalho aquecido trava Selic
A manutenção de um mercado “apertado” — onde a procura por trabalhadores supera a oferta em diversos setores — coloca pressão sobre a inflação de serviços, dificultando o trabalho do Banco Central, que se reúne na semana que vem para decidir os rumos da política de juros. Segundo Claudia Moreno, economista do C6 Bank, este cenário “deve manter a inflação de serviços pressionada”, uma vez que o desemprego segue em patamares historicamente baixos para os padrões do país.
Peterson Rizzo, Head de RI da Multiplike, também destaca que essa resiliência é o que impede a queda da taxa Selic: “A própria resiliência da atividade e do emprego é o que mantém a inflação pressionada e sustenta os juros no patamar atual”.
Sinais de desaceleração
Apesar da robustez geral, métricas ajustadas revelam que o fôlego do emprego começou a ceder marginalmente. Com ajuste sazonal, a taxa de desemprego apresentou estabilidade em 5,4% ou leve alta para 5,5%. Duque destaca que o cenário de desaceleração se consolidou. O pesquisador pontua que se nota atualmente a estagnação na taxa de desemprego e na criação de novas empresas, com números de geração de vagas próximos de zero.
Duque avalia, ainda, que a economia reage em “três tempos” aos juros altos. Primeiro, a atividade econômica impacta o número de vagas; em seguida, o desemprego baixo afeta os salários. Segundo ele, a renda “para de aumentar por último”, sendo o canal final a se ajustar à economia desaquecida. É por esse motivo que os rendimentos continuam avançando de forma significativa, mesmo com a estagnação na criação de empregos formais.
Renda estagnada e alta informalidade
Apesar da expansão na ocupação, os indicadores apontam que o mercado atingiu um platô qualitativo. A taxa de subutilização caiu de 14,3% para 12,9% no trimestre, enquanto o número de desalentados recuou 14,7%, atingindo 2,3 milhões de pessoas.
No entanto, a desaceleração já é palpável em diversas áreas. Antonio Ricciardi, economista do Daycoval, destaca que cinco dos dez setores analisados já demonstram fraqueza na demanda por trabalho: construção, comércio, alojamento e alimentação, tecnologia e finanças, e administração pública.
Além disso, a leitura de salários mostra divergências setoriais. Ricciardi aponta que os rendimentos reais registraram a terceira queda consecutiva na margem, indicando esfriamento em áreas como construção, comércio e tecnologia. Duque explica que a alta rotatividade geral mantém os salários aquecidos em outras frentes. As empresas buscam atrair funcionários que já possuem habilidades específicas e estão empregados, o que retroalimenta a competição por profissionais.
A qualidade dessa ocupação também emite alertas. Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, assinala que o impulso não partiu do setor privado com carteira assinada, mas sim dos postos informais e da administração pública. Segundo a economista, “o resultado é compatível com um ciclo de emprego ainda forte, mas mais maduro”, onde a abrangência setorial mostra acomodação.
Impacto na inflação
Para Benedito, a leitura dos dados voltada ao impacto na inflação é mista. Ela diz que a taxa de desemprego historicamente baixa e a queda ampla da subutilização confirmam um mercado de trabalho apertado, o que ainda impõe riscos à inflação de serviços.
Mas, no lado oposto, a ausência de aceleração dos salários e a concentração da expansão em empregos públicos e sem carteira reduzem o risco de uma nova pressão salarial generalizada. “O dado, portanto, não representa uma reaceleração homogênea do mercado de trabalho, mas também não entrega enfraquecimento suficiente para produzir conforto adicional ao Banco Central”, avalia.
“Em conjunto com os indicadores de atividade, os dados reforçam a hipótese de desaceleração gradual da economia na segunda metade do ano, sem sinais de deterioração mais abrupta do mercado de trabalho”, diz Leonardo Costa, do ASA.
O que esperar para a reunião do Copom
Para o Comitê de Política Monetária (Copom), os dados da PNAD apontam que a política monetária, embora opere de modo mais lento, continua funcionando.
Para Duque, da FGV, o início do desaquecimento do mercado de trabalho já mitiga parte das preocupações do Banco Central sobre os rumos da inflação.
A expectativa de instituições como o C6 Bank é que a taxa Selic encerre o ano de 2026 em 14% ao ano. A XP projeta taxa de desemprego em 5,6% ao fim do ano e de 6,2% em 2027. O PIB é estimado em 2% para 2026 e 1% em 2027.
The post Desemprego cai a 5,4% e segue amortecendo efeito dos juros e travando Selic appeared first on InfoMoney.

