Uma potencial reestruturação da dívida da Aston Martin está preparando o terreno para uma disputa incomum entre diferentes divisões da gigante de gestão de ativos BlackRock.
De um lado estão os fundos de títulos da gestora, alguns dos quais estão sob a supervisão de Rick Rieder, diretor de investimentos global de renda fixa. Eles fazem parte do comitê diretor de credores que se organizou para apresentar uma frente unificada à companhia caso fosse necessário discutir um refinanciamento de sua dívida ou levantar liquidez adicional.

Dividendos e recompras atingem US$ 6,3 bi no Brasil; veja maior pagadora
Distribuição de empresas brasileiras cresceu acima da média global no primeiro trimestre, e respondeu por 60% do volume em toda a América Latina, segundo índice inédito da Janus Henderson

Contas negativas em 2027? “Abismo fiscal” é exagero, diz Itaú, mas é preciso reformas
Pedro Schneider, economista do Itaú, avalia que o impulso fiscal do país não deve ser negativo no ano que vem e refuta a ideia do “fiscal cliff”, que vem sendo discutida pelo mercado
Enquanto isso, a Aston Martin vem mantendo conversas com gestores de recursos, incluindo a HPS Investment Partners — a especialista em crédito privado fundada por Scott Kapnick, Scot French e Michael Patterson, que a BlackRock adquiriu há um ano — para levantar caixa novo por meio da transferência de ativos para fora do alcance dos credores existentes.
A situação marca um raro caso em que os dois lados do negócio de crédito da empresa estão em lados opostos de uma negociação, segundo pessoas com conhecimento do assunto.
Um representante da BlackRock se recusou a comentar, enquanto a Aston Martin não respondeu aos pedidos de comentário.
Com a indústria de gestão de ativos se consolidando, à medida que empresas maiores compram players menores, situações como a da Aston Martin podem se tornar mais comuns. Como algumas gigantes de investimento têm divisões focadas tanto em participação acionária quanto em dívida, já houve ocasionais atritos constrangedores. Algumas empresas estabeleceram restrições em seus negócios de crédito quanto a emprestar para companhias controladas por seus fundos de private equity.
Mas disputas em que duas unidades da mesma empresa são credoras rivais são muito mais raras.
A exposição da BlackRock aos títulos da Aston Martin está tanto em fundos de gestão ativa quanto em fundos indexados, mostram dados da Bloomberg. A empresa se juntou a outros credores, incluindo compradores mais oportunistas, na assinatura de um acordo de cooperação que os obriga a agir em conjunto nas negociações da dívida com a companhia, diante do receio de que a Aston Martin estivesse buscando financiamento em outro lugar.
A HPS, que em 2024 investiu na equipe de Fórmula 1 da Aston Martin, está entre os fundos em estágio mais avançado de negociação com a empresa para aportar novos recursos, disseram as pessoas. Ainda assim, as negociações continuam em andamento e não há garantia de que cheguem a um acordo, acrescentaram, pedindo anonimato porque as discussões são privadas.
A manobra em discussão, conhecida como drop-down, pode ser custosa para os credores existentes. Como sinal do impacto, os títulos da Aston Martin despencaram até 10 centavos por dólar na semana passada, atingindo o menor nível já registrado, depois que a Bloomberg informou sobre as negociações da dívida.
Alguns observadores do mercado foram rápidos em notar que diferentes partes de uma gestora de ativos podem acabar em lados opostos de uma operação, reflexo de visões de investimento separadas e deveres fiduciários distintos, e não necessariamente de um conflito inerente.
A HPS, sediada em Nova York e que ainda mantém sede separada em Midtown, já havia anteriormente destacado possíveis questões que poderiam surgir da combinação com a maior gestora de ativos do mundo.
“A BlackRock é uma das maiores e mais diversificadas instituições financeiras do mundo”, disse a empresa em um documento apresentado à Securities and Exchange Commission (SEC) em março. “Como resultado, ela atualmente tem, e pode vir a ter no futuro, outras unidades de negócio que competem com a HPS ou buscam oportunidades de investimento adequadas aos fundos da HPS.”
A própria BlackRock, em sua divulgação à SEC, afirmou que pode haver potenciais conflitos de interesse entre seus fundos. Disse que mitigaria isso por meio de “decisões de investimento independentes”, com cada conta agindo em seu próprio melhor interesse.
Em alguns momentos, pode haver discussões adicionais em torno dos clientes envolvidos, segundo o documento. A BlackRock poderia considerar opções como abster-se de exercer direitos de voto, permanecer passiva em uma reestruturação, investir na mesma parte da estrutura de capital para alinhar interesses ou “abster-se de realizar, ou desfazer-se de, investimentos que deem origem a tais conflitos”.
A Aston Martin, fabricante de veículos de luxo com sede em Gaydon, Inglaterra, tem enfrentado dificuldades para gerar caixa de forma consistente desde sua abertura de capital em 2018. Mais recentemente, atrasos em produtos, demanda fraca da China e tarifas dos Estados Unidos pesaram sobre seu desempenho financeiro.
© 2026 Bloomberg L.P.
The post BlackRock x BlackRock: dívida da Aston Martin coloca áreas da gestora em oposição appeared first on InfoMoney.

