Um empresário apontado como operador financeiro do Primeiro Comando da Capital (PCC), preso nesta terça-feira (21/7) em operação do Ministério Público de São Paulo (MPSP), enviou áudios a interlocutores relatando pagamentos de propina a policiais civis do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). Na representação que deu origem a 18 mandados expedidos pela Justiça estadual, os promotores do Gaeco afirmam que Cléber Azevedo dos Santos também tinha relação relações “de caráter pessoal” com policiais militares, participando com eles de “eventos e celebrações”.
Em gravação enviada a um homem, identificado como Bruno, Cleber pede dinheiro para um suposto pagamento de R$ 100 mil para “os polícia” do Deic. Na mensagem ele não especifica para qual policial exatamente seria enviada a quantia.
“Deixa eu te falar, aquele cliente meu lá, o Caio, precisa de R$ 100 mil para trocar. Mandar a TED e pegar em vivo, porque ele precisa pagar ‘os polícia’ aí do Deic, porque ele teve um problema. Tem cem para ajudar ele aí?”, questiona Cléber, em áudio cuja data não foi especificada.
Em outra gravação, que teve como destinatário Amjad Ahmad, também apontado como operador financeiro da facção, Cléber fala sobre um suposto pedido de pagamento feito por policiais civis do setor de crimes cibernéticos do Deic. Segundo o investigado, os agentes queriam “tomar 300 conto [R$ 300 mil] dele”.
“O, meu amigo, como é que cê tá? Tudo bom? Espero que esteja tudo bem. Deixa eu te fazer uma pergunta. Aquela vez que te ajudaram lá no Deic… eu tô com um problema lá. Caí num golpe que eu te falei lá. O cara colocou um dinheiro ruim na minha conta. Bloqueou 11 conto e tô com 5 pau bloqueado. Foi um golpe mesmo. Eu tenho as pessoas tenho tudo. Além de tudo os caras querem indiciar o Robson, e ainda querem tomar 300 conto dele”, afirmou Cleber na gravação — que também não teve a data especificada.
“Então, amigo, é 4º DIG da Cibernético. Delegacia que toma conta dessa área cibernética aí, entendeu? Queria ver. Se dá, dá. Se não dá… não sei se você tem um contato, né”, acrescentou.
Ouça:
Coronéis da PM
Pelo menos três coronéis da Polícia Militar (PM) de São Paulo são citados na investigação do Ministério Público do estado (MPSP) sobre estrutura financeira usada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e por outros grupos criminosos para ocultar patrimônio.
De acordo com a representação que deu origem aos mandados, alguns dos principais investigados tinham “proximidade” com o coronel José Augusto Coutinho, ex-comandante geral da PM, exonerado no em abril por suspeita de ligação com a maior facção do país, conforme revelado pelo Metrópoles, e com o coronel Pereira Martins, apontado como diretor de ensino da corporação. Além deles, um coronel identificado como “Patrício”, que não teve o nome mencionado, também foi alvo.
Em áudio transcrito pela equipe de investigação, Cleber Azevedo dos Santos, operador financeiro ligado ao PCC, detalha sua proximidade com a cúpula da PM. Eduardo Américo Coelho, funcionário de Cleber, se refere a um dos oficiais como “coronel Cabeção”.
“Fala pra ele que é o coronel Pereira Martins, diretor de ensino. Coronel Pereira Martins e o Coronel Coutinho, que está na Rota hoje, que é da Rota, do Choque, ele comanda tudo: Rota, Choque… que é amigo do Robson, amigo do coronel”, afirma Cleber em data não especificada.
“Tinha o ‘pica’ hoje que está na Rota e no Choque… é o coronel de tudo, é o comandante de tudo. Não coronel de tudo, comandante de tudo”, acrescenta.
“Vou falar para ele aqui, porque falar coronel Cabeção, né? (risos) Sei nem o nome dele, só conheço como cabeção… Eu falei, vou perguntar aqui… Obrigado, Clebão”, responde Eduardo.
Os promotores juntaram ao relatório imagem em que o coronel Pereira Martins aparece ao lado de Cleber Azevedo dos Santos, no que aparenta ser uma festa. O oficial aparece sorrindo, enquanto o investigado segura uma garrafa e um copo de cerveja.


Cléber ao lado de Pereira Martins
ReproduçãoOperação Janus
A Operação Janus investiga a atuação de operadores financeiros em benefício da facção. Os alvos são suspeitos de movimentar recursos financeiros, realizar operações de conversão de dinheiro em espécie em transferências bancárias e atuar na ocultação, circulação e disponibilização de valores atribuídos ao PCC.
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Segundo as autoridades, os investigados teriam realizado operações envolvendo entrega de numerário em espécie, transferências bancárias, utilização de empresas e contas de terceiros e movimentação de recursos em benefício de integrantes e colaboradores da facção.
Ao todo, as autoridades cumprem 18 mandados de prisão preventiva e 18 mandados de busca e apreensão expedidos pela Vara Estadual de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens, Direitos e Valores. Cinco deles estão foragidos.
Veja quem são todos alvos:
- Cleber Azevedo dos Santos
- Robson Martins de Souza
- Antonio Carlos Ubaldo Junior
- Paulo Rogério Silva
- Odair Alves da Silveira Filho
- Leonardo Meirelles (foragido)
- Marlon Antonio Fontana
- Bruno Ramos Fernandes
- Meire Bomfim da Silva Poza
- Fernanda Esteves Silva Lopes
- Danillo Vinicius da Silva Rosario (foragido)
- André de Souza Haddad
- Antonio Carlos Sampaio (foragido)
- Alexandre Viriato da Silva
- Raphael Flores Rodriguez (foragido)
- Amjad Ahmad (foragido)
- Eduardo Américo Coelho
- Marcelo de Morais Oliveira

