Últimas

Portabilidade digital pode cortar pela metade o peso das dívidas no orçamento

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Portabilidade digital pode cortar pela metade o peso das dívidas no orçamento

A nova fase do sistema de Open Finance – iniciada neste ano com o crédito pessoal – tem potencial para cortar pela metade o peso das dívidas dos brasileiros, acirrando ainda mais a disputa entre bancos pelo crédito. Isso porque agora, com a possibilidade de portabilidade de empréstimos de forma digital, dentro do próprio aplicativo do banco, as taxas de juros devem ficar mais pressionadas. Assim, um consumidor que hoje compromete 39% da renda mensal com um empréstimo poderá reduzir esse percentual para até 19,7% ao migrar sua operação para uma instituição que ofereça juros mais competitivos, como mostra um estudo feito pela Chicago Advisory Partners.

Utilizando dados da plataforma Vector360, que analisa taxas de crédito de diversas instituições em tempo real, a consultoria mostrou que, na prática, o peso da dívida no orçamento cairia significativamente. O estudo ganha relevância especialmente em um país onde o crédito para pessoas físicas já movimenta cerca de R$ 4,5 trilhões, dentro de um mercado total de crédito de R$ 7,2 trilhões, segundo a consultoria, que foi uma das responsáveis pela implementação do Open Finance no Brasil.

Embora a funcionalidade ainda esteja sendo implementada gradualmente pelo mercado e deva ser expandida futuramente para outras modalidades, como o crédito consignado, especialistas avaliam que ela pode representar uma transformação na forma como as pessoas lidam com o crédito.

Segundo o fundador da Chicago Advisory Partners, Carlos Jorge, o Open Finance brasileiro hoje é considerado um dos ecossistemas mais desenvolvidos do mundo, com mais de 800 instituições participantes, cerca de 126 milhões de clientes compartilhando dados e mais de 10 bilhões de chamadas de APIs (aplicações que fazem a interface entre sistemas de vários bancos), “A inclusão da portabilidade de outros tipos de crédito representa agora um dos próximos grandes passos dessa evolução”, afirma o executivo.

Compartilhando dados

Desde sua implantação pelo Banco Central, há cinco anos, o Open Finance vem ampliando o escopo, permitindo que consumidores compartilhem seu histórico financeiro entre instituições autorizadas. Embora o sistema tenha avançado rapidamente em infraestrutura, os benefícios reais ainda são pouco perceptíveis para boa parte da população.

Um estudo da Ernst Young mostrou que, em 2025, apenas 28% da população bancarizada no Brasil havia aderido ao sistema até aquele ano. Entre as pessoas jurídicas (PJs) esse índice seria de 3%. Mas, segundo Jorge, isso tende a mudar. “A portabilidade de crédito pessoal tem potencial para representar no mercado de crédito uma transformação comparável à que o Pix promoveu nos meios de pagamento”, avalia.

Para ele, a portabilidade digital acrescenta uma nova jornada ao processo tradicional de migração de empréstimos, que continua existindo. Mas agora é mais fácil e o consumidor pode autorizar, diretamente pelo aplicativo, a instituição para a qual pretende migrar a acessar seus dados. O compartilhamento das informações do contrato é considerado seguro, permitindo que outro banco apresente uma proposta mais vantajosa.

Na prática, caso o consumidor aceite as novas condições, a migração ocorrerá digitalmente. Assim, o processo pode ser concluído em até cinco dias úteis, substituindo procedimentos que antes poderiam levar até 20 dias.

Concorrência

A expectativa é que a nova modalidade digital intensifique ainda mais concorrência entre bancos. O estudo da Chicago simulou um empréstimo de R$ 15 mil, com prazo de 36 meses, considerando diferentes taxas disponíveis no mercado. No cenário mais caro, com juros próximos de 9% ao mês, a prestação consome cerca de 39% da renda mensal de um trabalhador médio. Em uma instituição oferecendo taxa próxima de 3,3% ao mês, esse comprometimento cai para 19,7%, liberando parcela significativa da renda para consumo, investimentos ou formação de reserva financeira.

“Estamos diante de um divisor de águas para a economia real. Ao permitir que o cidadão seja dono do seu histórico financeiro, o Open Finance rompeu barreiras competitivas e agora permite que a renda antes consumida pelos juros retorne ao consumo e ao bem-estar das famílias”, afirma Carlos Jorge.

Disputa por clientes

A pesquisa indica que a maior mobilidade dos consumidores deverá alterar a dinâmica competitiva do sistema financeiro. Segundo as simulações, instituições que hoje praticam taxas mais elevadas tendem a perder participação de mercado, enquanto bancos digitais e instituições mais competitivas podem ampliar rapidamente suas carteiras.

O levantamento estima ainda que, por exemplo, o Nubank poderia conquistar aproximadamente R$ 5,6 bilhões em operações atualmente concentradas em concorrentes. Já bancos tradicionais como Bradesco e Itaú aparecem entre aqueles com maior potencial de perda de carteira caso mantenham spreads mais elevados.

“O cenário deve levar os bancos a reverem suas estratégias. Em muitos casos, antes de perder um cliente, a instituição poderá apresentar uma contraproposta com juros menores para retê-lo”, afirma André Olinto, também fundador da Chicago Advisory Partners.

Segundo ele, somente esse aumento da competição já teria potencial para reduzir a taxa média do crédito pessoal de aproximadamente 5% para 4,7% ao mês em uma primeira etapa. A Chicago realizou simulações utilizando as taxas de crédito pessoal efetivamente disponíveis hoje no mercado e captadas em tempo real pela plataforma Vector360.

Leia Mais: Open Finance muda regras e permite visualização de saldo na hora da transação

Divulgação

Embora a portabilidade digital esteja prevista no Open Finance, especialistas acreditam que a divulgação deverá se intensificar principalmente pelo Banco Central e pela Associação Open Finance, explicando ao consumidor seus direitos e o funcionamento da ferramenta. Num segundo momento, a competição deve acelerar a popularização do sistema através das próprias instituições.

“É natural imaginar que alguns bancos sejam cautelosos no início, porque a portabilidade aumenta a concorrência. Mas ela também cria oportunidades para conquistar operações que hoje pertencem aos concorrentes. Por isso, a tendência é que o próprio mercado passe a divulgar esse mecanismo”, explica Carlos Jorge.

Melhores condições

Para o especialista, a principal mudança não está apenas na possibilidade de trocar de banco, mas na alteração da relação de forças entre consumidor e instituição financeira. Com acesso facilitado às informações e possibilidade de comparação em tempo real, o cliente deixa de depender exclusivamente da proposta apresentada pelo banco onde contratou o empréstimo. A expectativa é que essa maior mobilidade pressione os spreads bancários, reduza o custo do crédito e torne o mercado mais competitivo, aproximando o mercado de crédito brasileiro ao de economias onde a portabilidade financeira já está consolidada.

A portabilidade via Open Finance já está em programação para o crédito pessoal (CPC), por determinação do Banco Central. A fase seguinte incluirá a portabilidade do crédito consignado, modalidade que movimenta R$ 800 bilhões e possui alta concentração bancária, em data ainda a ser definida pelo regulador.

The post Portabilidade digital pode cortar pela metade o peso das dívidas no orçamento appeared first on InfoMoney.

Portabilidade digital pode cortar pela metade o peso das dívidas no orçamento — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado